A opinião do The Guardian sobre o Papa Francisco

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06 Janeiro 2017

“Com uma paixão talvez apenas possível a um sul-americano, o papa Francisco execra o modelo USA de turbo-capitalismo desenfreado de Ronald Reagan: rejeita completamente a ideia que a ganância guiada apenas pela busca dos próprios interesses através do mercado torne o mundo justo ou bom. O seu catolicismo é quase aos antípodas em relação às correntes dominantes no cristianismo evangélico branco norte-americano”, constata o editorial do importante jornal londrino, The Guardian, 01-01-2017.A tradução é de Luisa Rabolini.

Segundo o editorial, “O Vaticano é uma organização profundamente e talvez necessariamente reacionária, mas um conservador inteligente como Papa Francisco percebe quando os tempos mudaram e quando está na hora de adequar-se. Um reacionário confunde o presente com o eterno, e portanto não pode admitir nenhuma mudança”.

“A pobreza global, a ganância global e a destruição do meio ambiente são as coisas que nos ameaçam hoje e, - conclui o editorial - o papa Francisco é um campeão de humanidade contra esses males”.

Eis o editorial.

O eloquente desafio do pontífice às forças da ganância, da desigualdade e da destruição do ambiente tem suas raízes no seu conservadorismo inteligente.

O papa Francisco guia uma organização que combateu contra a democracia, a liberdade, a igualdade e o feminismo há cerca de 200 anos, desde a Revolução Francesa de 1789.

É um paradoxo que agora seja proclamado em alguns ambientes como defensor global de todas essas causas, que parecem sob ataque em todo lugar. A chave para compreender essa contradição é que o papa não é um liberal. É um conservador com o c minúsculo, desconfiado frente a todos os grandes esquemas do progresso humano, socialistas e liberais que sejam, e acredita no pecado e no demônio – assim como a maioria do bilhão e 200.000 dos seus fiéis. Se considerarmos que o conservadorismo represente algo mais do que a busca incessante por parte dos fortes da própria vantagem sobre os fracos, podemos então dizer que é uma profunda desconfiança da capacidade humana de ser bom; uma crença, como dizia Milton, que jamais deixaremos de “martelar dos nossos corações empedernidos as sementes e a centelha de novas misérias para nós mesmos ”. Essa não é toda a verdade, mas em época em que uma ordem mundial aparentemente baseada no próprio racional interesse condensa-se em ganância e raiva – aqui incluído o flagelo do terrorismo que Francisco enfaticamente convida todos a combater enquanto este novamente golpeia a Turquia – um pouco do feroz ceticismo de Milton é salutar e, porque não dizer, quase otimista.

Para o papa, um mundo baseado na ilimitada satisfação dos desejos individuais é impossível, e a tentativa de atingi-lo é devastadora para o mundo que nos rodeia e para a paz dos nossos mundos interiores. Como escreveu, há 18 meses, em sua forte encíclica sobre o meio ambiente: “Quando as pessoas se tornam autorreferenciais e se isolam na própria consciência, aumentam a sua voracidade: quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objetos para comprar, possuir e consumir . Num contexto desse tipo, não parece possível que alguém aceite que a realidade lhe imponha um limite”.

Esse ataque não se restringe àquela encíclica, mas é um dos temas mais importantes de toda a sua pregação, como na recente homília para o Ano Novo: “A falta de contato físico (não o virtual) vai cauterizando os nossos corações, fazendo-lhes perder a capacidade da ternura e da maravilha, da piedade e da compaixão”. Mas, continuava “não somos mercadoria de troca nem terminais receptores de informação. Somos filhos, somos família, somos povo de Deus”.

É o desenvolvimento de uma coerente linha de crítica católica do mundo dos economistas que remonta pelo menos à Rerum Novarum do papa Leão XIII (1891) e provavelmente deriva das raízes da civilização ocidental, de Aristóteles e Tomás de Aquino. A doutrina social católica oferece uma coerente perspectiva de como o aspecto individual faz sua entrada na sociedade. Dirige-se diretamente às duas grandes questões do nosso tempo: como a economia deveria ser organizada em benefício de todos, e como as nossas sociedades deveriam tratar o ambiente natural.

Papa Francisco foi um defensor surpreendentemente eloquente dos direitos humanos, do meio ambiente, da paz e falou contra as consequências deletérias do capitalismo. Nisso não é suave. De fato, ás vezes parece um verdadeiro revolucionário. “Deveriam indignar-nos sobretudo as enormes desigualdades que existem entre nós” escrevia em sua encíclica de 2015. “Deixamos de notar que alguns se arrastam numa miséria degradante, sem possibilidades reais de melhoria, enquanto outros não sabem sequer que fazer ao que têm, ostentam vaidosamente uma suposta superioridade e deixam atrás de si um nível de desperdício tal que seria impossível generalizar sem destruir o planeta. Na prática, continuamos a admitir que alguns se sintam mais humanos que outros”.

Com uma paixão talvez apenas possível a um sul-americano, execra o modelo USA de turbo-capitalismo desenfreado de Ronald Reagan: rejeita completamente a ideia que a ganância guiada apenas pela busca dos próprios interesses através do mercado torne o mundo justo ou bom. O seu catolicismo é quase aos antípodas em relação às correntes dominantes no cristianismo evangélico branco norte-americano. Inequivocamente, opõe-se à tortura, à perseguição de refugiados, à pena de morte, todas causas caras aos republicanos religiosos. A favor da tortura como instrumento da política do governo, tem mais americanos do que habitantes do Iraque, do Sudão ou do Afeganistão. Com uma série de gestos marcantes – visita aos campos de refugiados, acolhimento de imigrantes no Vaticano, cerimônia pública do lava-pés de uma mulher muçulmana - o papa demonstrou que deseja que a sua igreja esteja do lado dos refugiados e imigrantes. Desde sua época de arcebispo de Buenos Aires visitava as favelas – e tomava um ônibus para ir até lá.

São gestos eloquentes, feitos com uma intenção bem mais profunda. Colocaram-no contra grande parte do mundo moderno e dos regimes tanto de Moscou como de Washington. Mas também acordaram uma oposição dura e compacta dentro da sua Igreja. O Vaticano é uma organização profundamente e talvez necessariamente reacionária, mas um conservador inteligente como Papa Francisco percebe quando os tempos mudaram e quando está na hora de adequar-se. Um reacionário confunde o presente com o eterno, e portanto não pode admitir nenhuma mudança.

Os reacionários acabam sempre perdendo no longo prazo. O mundo muda, e a mudança não pode ser negada para sempre. Mas no interior da Igreja católica eventualmente conseguem manter suas posições por séculos. Esse é o dilema que o papa tem que enfrentar enquanto ajuda a Igreja a entrar em acordo com o feminismo. A Igreja católica é uma organização profundamente patriarcal: ninguém jamais chamou o papa de Santa Madre; ao mesmo tempo depende das mulheres, que sustentam toda a edificação com seu trabalho e devoção. As concessões ao feminismo que ele propõe não são tão amplas quanto poderiam. Conserva a proibição à ordenação de mulheres e a completa oposição ao aborto – embora agora todos os padres possam perdoar as mulheres q ue o pedirem. Mas se posicionou de forma clara para permitir às paroquianas o reconhecimento de determinados segundos casamentos como verdadeiros matrimônios. Por isso foi denunciado pelos reacionários dentro da sua Igreja como herético, como progressista devastador, como homem cujas políticas levarão a um histórico cisma e quebrarão com a tradição. Ao mesmo tempo desagradou os progressistas que confiavam em substanciosas modificações para a plena aceitação de pessoas homossexuais e do papel da mulher na hierarquia católica.

Novamente o aparente paradoxo dissolve-se à luz do fato que é um conservador que acredita que o pecado possa corromper qualquer coisa, até mesmo, ou talvez especialmente, a Igreja que ele guia. A lei da Igreja e as regras da Igreja podem por sua vez tornar-se esquemas teóricos para organizar a sociedade, devastadores em sua aplicação dogmática como os preceitos de Ayn Rand. Os seus inimigos reacionários, que já estão pregando e conspirando pela sua sucessão, querem um papa que proclame “normas morais absolutas que proíbam atos intrinsecamente maus e sejam vinculantes sem exceção” – coisa que poderia parecer razoável até perceber que não citam a denúncia da guerra e das escravidões, mas João Paulo II que denuncia a contracepção.

Contudo, num mundo cheio de mudanças desconcertantes, tanto os progressistas como os conservadores deveriam lembrar que os absolutos morais existem e que existem males com os quais é sempre errado tecer comprometimentos. Muda sua forma. Um quarto de século atrás caia a União Soviética. As atitudes que caracterizavam a Igreja então, não nos ajudarão agora. A pobreza global, a ganância global e a destruição do meio ambiente são as coisas que nos ameaçam hoje e, apesar de tudo, papa Francisco é um campeão de humanidade contra esses males.

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