"Seguidores radicalizados de Reagan venceram e precisam administrar um governo federal que eles odeiam". Entrevista especial com Massimo Faggioli

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Por: Patricia Fachin | Tradução: Moisés Sbardelotto | 16 Novembro 2016

"Vislumbro um agravamento na civilidade do discurso político; políticas anticientíficas sobre educação e saúde; um revés para os direitos das minorias; uma intensificação da condescendência em relação aos piores instintos do conservadorismo estadunidense (mais armas, pena de morte); uma política externa mais nacionalista e isolacionista. Poderia ser uma lista muito longa. A mera inércia em algumas questões (como o ambiente) causaria enormes danos”, afirma Massimo Faggioli à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

Na avaliação dele, a eleição de Trump pode ser entendida como “um protesto contra a profunda elite cultural e secular dos Estados Unidos da América”, e pelo “ressentimento contra o primeiro presidente afro-americano, Obama, que faz parte da elite econômica e intelectual, mas também é o futuro rosto dos Estados Unidos, em que os brancos logo serão uma minoria entre as minorias”.

Segundo o historiador, “o governo Obama foi percebido como um governo a serviço dos interesses de Wall Street” e “foi fundamentalmente incapaz de se conectar com a América branca profunda, também porque essa América branca profunda nunca o aceitou como presidente legítimo”.

Italiano radicado nos EUA, Faggioli comenta que, entre os imigrantes, “muitos têm medo do que esse governo significará para as suas vidas. O governo Obama já tinha sido forte na limitação da imigração ilegal”. Apesar de Trump ter amenizado seus comentários em relação aos imigrantes após a eleição e garantir que nenhum muro será construído na fronteira com o México, diz, “o problema será para aquelas famílias que têm alguns membros que nasceram nos Estados Unidos e outros que não nasceram aqui; para aqueles que recentemente requereram a residência e a cidadania; para todas aquelas situações que estão no meio entre o ‘legalmente residente’ e o ‘criminoso’”.


Massimo Faggioli | Foto: João Vitor Santos / IHU

Massimo Faggioli é professor titular do Departamento de Teologia e Ciências Religiosas da Villanova University, Filadélfia. Trabalhou como pesquisador junto à Fundação para as Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, de 1996 a 2008, e obteve seu doutorado em História Religiosa na Universidade de Turim, em 2002. Colabora com várias revistas italianas e estrangeiras, incluindo Il Regno e Jesus. É editor contribuinte da Commonweal, colunista do La Croix Internacional e copresidente do grupo Vatican II Studies, da American Academy of Religion. Seu livro mais recente é The Rising Laity: Ecclesial Movements Since Vatican II (Paulist Press, 2016). Publicou o artigo “Gaudium et Spes” 50 anos depois: seu sentido para uma Igreja aprendente, no Cadernos Teologia Pública, nº. 95. 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor explica o fenômeno Trump nos EUA? Quais foram os motivos que levaram a maioria dos norte-americanos votantes a votarem nele?

Massimo Faggioli – Há um elemento de dificuldade econômica, daqueles que foram esquecidos pela globalização, por um sistema econômico e financeiro do qual os Clinton (mas também Trump) fazem parte e ajudaram a construir. Há também um protesto contra a profunda elite cultural e secular dos Estados Unidos da América: a radicalização da plataforma pró-aborto do Partido Democrata com Clinton revelou a miopia política dos Clinton, e essa é uma das razões para a sua derrota. Finalmente, há uma parte de ressentimento contra o primeiro presidente afro-americano, Obama, que faz parte da elite econômica e intelectual, mas também é o futuro rosto dos Estados Unidos, em que os brancos logo serão uma minoria entre as minorias. A campanha de Trump também explorou o profundo ressentimento racial dos Estados Unidos, que nunca aceitaram Obama como o seu presidente legítimo. A América religiosa não coincide com essa América reacionária, mas é uma parte dela.

IHU On-Line – Alguns têm feito essa análise de que os votos em Trump expressam a situação da classe trabalhadora americana, que perdeu empregos, e expressam também a falta de políticas para reverter a situação dessas pessoas. Qual é a situação dessa massa trabalhadora atualmente no país e que peso ela desempenhou na eleição?

Massimo Faggioli – Isso teve um impacto, mas também houve uma reação populista e um sentimento racial da classe trabalhadora branca deixada para trás. É uma deterioração do tecido social em geral, dos laços sociais – na escola, nas comunidades locais, no local de trabalho. A política é culpada por algo que ela mesma realmente não pode mudar muito.

IHU On-Line – Como a eleição de Trump está repercutindo entre os americanos e estrangeiros que vivem no país?

Massimo Faggioli – Muitos têm medo do que esse governo significará para as suas vidas aqui. O governo Obama já tinha sido forte na limitação da imigração ilegal. Agora, imigrantes legais (que não são brancos) também têm medo de serem assediados nas ruas, na escola, no transporte público. Já há incidentes por causa do clima criado estrategicamente pela campanha de Trump.

IHU On-Line – O que a eleição de Trump demonstra, de outro lado, sobre os últimos anos de um governo Democrata e, inclusive, sobre a não reeleição do partido?

Massimo Faggioli – O governo Obama foi percebido como um governo a serviço dos interesses de Wall Street, e Hillary Clinton ainda mais. Obama foi fundamentalmente incapaz de se conectar com a América branca profunda, também porque essa América branca profunda nunca o aceitou como presidente legítimo. Clinton não conseguiu aprender com o seu marido sobre a força do populismo, sobre como ser uma populista progressista. Ela pensou que ser mulher lhe daria todos os votos de todas as mulheres: mas as mulheres são membros de uma classe e de uma raça também.

IHU On-Line – Muitos têm falado sobre o impacto do voto dos católicos e dos evangélicos nas eleições. Eles tiveram impacto?

O voto religioso teve um impacto, porque reagiu contra a abordagem ideológica à questão social típica dos democratas e de Hillary Clinton, especialmente sobre o aborto

Massimo Faggioli – O voto religioso teve um impacto, porque reagiu contra a abordagem ideológica à questão social típica dos democratas e de Hillary Clinton, especialmente sobre o aborto. Ela aceitou a caricatura pintada sobre ela pela direita religiosa conservadora e não fez nada para mudar essa sua percepção como elitista, antirreligiosa, anti-Igreja e anticristã. Isso é algo difícil de explicar, assim como ninguém conseguiu ajudá-la a entender isso.

IHU On-Line – Como a eleição de Trump está repercutindo nas Igrejas, especialmente entre os católicos?

Massimo Faggioli –Igrejas, como as evangélicas, que estão aliviadas, senão até felizes. Há Igrejas, como as Igrejas negras, que se lamentam e estão preocupadas com o futuro do país. Outras Igrejas, como a Igreja Católica, estão muito divididas. A Igreja Católica nos EUA tem mais responsabilidades, porque é a maior Igreja individual e porque os católicos e, especialmente, os bispos católicos têm o Papa Francisco como líder, mas muitos deles decidiram que o Papa Francisco não estava lhes ensinando nada de importante.

IHU On-Line – Qual é o possível impacto da eleição de Trump sobre o episcopado americano que elegerá uma nova direção neste mês?

Massimo Faggioli – Veremos se os bispos dos Estados Unidos vão querer manter a tradição de eleger como presidente o ex-vice-presidente (que eles romperam apenas uma vez em 2010 para eleger o arcebispo Dolan para a presidência): agora, seria o cardeal DiNardo (um dos 13 cardeais que assinaram a carta contra o Papa Francisco durante o Sínodo de outubro de 2015 e um daqueles que não ajudaram o episcopado dos Estados Unidos a receber a mensagem do Papa Francisco nos EUA). Se o elegerem, eles enviarão uma mensagem de que a eleição de Trump não é grande coisa e que os bispos estadunidenses podem continuar ausentes do discurso nacional. (Nota da IHU On-Line: No dia de ontem, 15-11-2016, foi eleito DiNardo como presidente da Conferência dos Bispos do EUA. A grande novidade é a eleição do arcebispo de Los Angeles como vice-presidente. Trata-se de José Gómez, mexicano naturalizado americano. Ou seja, pela primeira vez um migrante é eleito para a direção da Conferência episcopal americana)

A Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, nesses últimos três anos, tem estado sem liderança e sem voz, e eu temo que isso vai continuar assim. O problema é que eles não podem continuar vivendo no mundo paralelo criado pelos ideólogos dos bispos nomeados por João Paulo II e por Bento XVI, mas eles também não querem aceitar a mensagem do Papa Francisco. Eles estão basicamente na terra de ninguém.

IHU On-Line – Na campanha eleitoral, Trump fez uma série de críticas aos imigrantes, mas alguns avaliam que a crítica dele diz respeito especialmente aos “ilegais criminosos” que vivem nos EUA – muitos dos quais foram deportados durante o governo Obama. Que tipo de política se pode esperar do novo governo em relação aos imigrantes?

Massimo Faggioli – Em sua primeira entrevista depois das eleições, Trump disse que eles irão atrás apenas de imigrantes ilegais que cometeram crimes e que não haverá nenhum muro com o México. O problema será para aquelas famílias que têm alguns membros que nasceram nos Estados Unidos e outros que não nasceram aqui; para aqueles que recentemente requereram a residência e a cidadania; para todas aquelas situações que estão no meio entre o “legalmente residente” e o “criminoso”.

IHU On-Line – Alguns têm lembrado a eleição de Ronald Reagan neste momento, que quando concorreu à eleição em 1980, com Jimmy Carter, foi acusado de extremista e radical, mas que em seu governo possibilitou a lei de anistia, regulamentando a situação de milhares de imigrantes à época. Essa inclusive é considerada a última grande ação imigratória dos EUA. Considerando esse exemplo, que aproximações e diferenças vê entre esses dois momentos?

O governo Reagan é percebido agora como moderado apenas porque o Partido Republicano de Paul Ryan se tornou mais extremista durante esta última década

Massimo Faggioli – O governo Reagan é percebido agora como moderado apenas porque o Partido Republicano de Paul Ryan se tornou mais extremista durante esta última década, mais ou menos. Mas o governo Reagan foi responsável por uma política externa criminosa na América Central e do Sul, por ter deixado milhares de homossexuais morrerem de Aids antes que o governo reconhecesse a emergência, por ter atrasado a agenda ambiental, por ter piorado as relações raciais nos Estados Unidos etc. Reagan, no início, era da ideia de que “o governo é o problema, não a solução”. Agora, os seus seguidores radicalizados venceram e eles têm o problema de dirigir um governo federal que eles odeiam.

IHU On-Line – Como estrangeiro, como o senhor se sente vivendo nos EUA e que futuro vislumbra para o país?

Massimo Faggioli – Eu sou um estrangeiro, mas a minha esposa e os nossos filhos são estadunidenses, eles nasceram aqui, então este também é o meu país. Eu estou preocupado com o futuro da democracia estadunidense, mas também com as mudanças que esse governo trará.

Vislumbro um agravamento na civilidade do discurso político; políticas anticientíficas sobre educação e saúde; um revés para os direitos das minorias; uma intensificação da condescendência em relação aos piores instintos do conservadorismo estadunidense (mais armas, pena de morte); uma política externa mais nacionalista e isolacionista. Poderia ser uma lista muito longa. A mera inércia em algumas questões (como o ambiente) causaria enormes danos.

IHU On-Line – Como o senhor interpreta a declaração de Trump de que irá recusar o salário de presidente da República?

Massimo Faggioli – É a resposta típica dos demagogos hoje. Claro que Trump não precisa do salário. Ele deveria ter renunciado sem anunciá-lo. O que ele não diz é que não fará diferença nas finanças do Estado, e envia a mensagem de que só os ricos podem se tornar políticos.

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