Amoris laetitia? Um ponto de não retorno. Entrevista com Martin Lintner

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07 Dezembro 2016

“Não se poderá mais discutir sobre matrimônio e família senão a partir da Amoris laetitia”, diz o padre Martin Maria Lintner, teólogo moral do sul do Tirol, professor na Faculdade Teológica de Bressanone/Brixen e em Innsbruck, na Áustria.

A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada no sítio Settimana News, 05-12-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Padre Lintner, em vários lugares, afirma-se que a Amoris laetitia é “um ponto de não retorno”, e esse também foi o tema de um congresso realizado na Bélgica, na Universidade de Leuven, onde você palestrou: poderia nos explicar em que termos?

Eu diria que a Amoris laetitia deve ser considerada como “um ponto de não retorno” por três dimensões. Por um lado, a Igreja, através desse documento, fruto de um processo sinodal que não só reuniu em nada menos do que dois Sínodos bispos provenientes de todas as partes do mundo, mas que também envolveu, em todos os lugares, muitíssimos leigos através de dois questionários, quis reafirmar, senão até inaugurar, aquele estilo que o Papa Francisco pretende aplicar à vida de toda a Igreja. Trata-se, definitivamente, de um estilo que corresponde plenamente à eclesiologia do Concílio Vaticano II, voltado a superar a distinção entre Igreja docente e Igreja discente, para buscar as soluções “juntos”.

Daí deriva que não podemos continuar como se os dois Sínodos nunca tivessem acontecido. Porque, de fato, a Amoris laetitia é fruto desse longo processo de reflexão e discussão. Além disso, o documento faz parte da doutrina do magistério ordinário e, como tal, não pode deixar de ser levado seriamente em consideração. Não se pode mais discutir sobre o matrimônio e a família senão a partir da Amoris laetitia.

Por fim, do ponto de vista da teologia moral, deve-se reconhecer que o papa abriu um caminho para os divorciados recasados: não podemos mais afirmar que, hoje, existe uma exclusão categórica à aproximação aos sacramentos da Eucaristia e da reconciliação para aqueles que, na nova união, não se abstêm das relações sexuais. Sobre isso, não há qualquer dúvida, justamente a partir do próprio texto da Amoris laetitia.

Poderia explicar por quê?

O discurso e a argumentação na Amoris laetitia são muito lineares. Uma vez, dizia-se que o divorciado/recasado é uma contradição objetiva, porque desaparece a condição de fidelidade prometida solenemente no momento do matrimônio. Mas não era levada em consideração a situação do sujeito. É justamente a partir do Catecismo da Igreja Católica que a Amoris laetitia distingue entre a situação objetiva, por um lado, e a culpabilidade e responsabilidade do sujeito, por outro: se o sujeito não está em pecado pessoal, ao menos não em pecado pessoal grave, então a exclusão dos sacramentos torna-se desprovida de uma base teológica e pastoral. O Papa João Paulo II, no número 84 da Familiaris consortio, já dizia com grande clareza que se deve distinguir as situações individuais, e a Amoris laetitia, em coerência, afirma que essa distinção deve ser feita também no nível das consequências para os sujeitos individuais. De fato, a Amoris laetitia entra no campo da justiça, no sentido de que tenta fazer justiça à situação pessoal e, de fato, exige que se busque, em cada situação, o acompanhamento dos indivíduos.

Nos últimos meses, você e uma colega teóloga suíça sua, Eva-Maria Faber, levantaram a proposta de uma mudança do Catecismo da Igreja Católica, precisamente para eliminar o risco de mal-entendidos: vocês receberam retornos no sentido de um compartilhamento da ideia?

O problema é que um pecado objetivo nunca pode ser desvinculado da pessoa que o comete. O pecado é sempre o de um sujeito que, livremente, deliberadamente, conscientemente procura o mal, ou seja, omite o bem. A Amoris laetitia reconhece que isso não pode ser dito sobre todos aqueles que vivem em situações complexas ou chamadas de “irregulares”. Ela afirma até que algumas pessoas nessas situações não podem agir de maneira diferente, justamente para não se tornarem culpadas de pecado: por exemplo, não abandonam o parceiro, porque isso seria um ato de grave falta de responsabilidade em relação a ele, ou não renunciam à intimidade sexual para poder expressar o amor e o afeto que sentem um pelo outro, e para não pôr em perigo a sua fidelidade ou o bem dos filhos.

Por isso, deveria ser revista a formulação do número 2.384 do Catecismo da Igreja Católica, onde se afirma que, em qualquer situação, o divorciado/recasado se coloca em “uma condição de adultério público e permanente”. No congresso de Leuven, também ocorreu uma animada discussão sobre esse tema, especialmente também sobre a necessidade de uma revisão de alguns parágrafos do direito canônico. Houve um amplo compartilhamento sobre o fato de que o direito canônico está “a serviço” da teologia e do magistério, não os precede, porque é claro que não pode precedê-los.

Desde o momento da publicação da Amoris laetitia, mas também bem antes, a ênfase foi deslocada para o capítulo 8. Alguns falam de um reducionismo. O que você acha?

Sim, o risco existe, indubitavelmente. O texto integral é muito amplo e bonito, e, além disso, se dirige precisamente a todos, aos cônjuges, àqueles que vivem dentro de uma relação afetiva em qualquer idade, dos jovens aos idosos, aos consagrados e aos padres que, embora de fora, compartilham alegrias e sofrimentos dos seus irmãos e irmãs leigos. Por isso, eu realmente gostaria de encorajar todos a lerem a Amoris laetitia, com calma, capítulo por capítulo, a partir justamente daquelas partes que mais tocam também a própria situação existencial. No entanto, eu acredito que muitas discussões acabaram gravitando em torno das questões do capítulo 8, essencialmente por dois motivos: não devemos nos esquecer de que no mundo de hoje cada vez mais pessoas vivem em situações que ainda são chamadas de “irregulares”, particularmente também a dos divorciados/recasados. E, depois, as situações difíceis e complexas representam uma espécie de “campo de testes” para a doutrina da Igreja sobre a família.

Por isso, é mais do que nunca necessário que nos mobilizemos justamente para buscar desenvolvimentos da doutrina para identificar soluções. Se novas realidades se manifestam, novos desafios e novas questões são postas sobre a mesa, não podemos ignorá-las e continuar como se não existissem. Devemos sempre lembrar as palavras de Jesus: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado!”. É muito fácil expressar belas palavras sobre a riqueza e a santidade do matrimônio – afinal, quando em uma relação a dois tudo vai bem são as próprias pessoas que reconhecem a sua felicidade, não é preciso lembrar isso a elas –, mas é quando se apresentam as situações complicadas que, como Igreja, devemos estar lá e nos colocar ao lado daqueles que as vivem na própria carne.

Há quem parta da doutrina imutável, como ponto firme, evocando fantasmas de relativismo, e a Amoris laetitia pede para olhar para as pessoas individuais: como poderá ser sanada essa lacuna?

O passo à frente, também do ponto de vista metodológico, é o de não partir de uma doutrina moral para implementá-lo na vida concreta, mas de olhar para as pessoas individuais e perguntar como podemos ajudá-las a reconhecer a própria situação diante de Deus, a buscar sinceramente a vontade de Deus e a chegar a uma resposta mais perfeita a ela. Isso não pode ser definido absolutamente como relativismo. É preciso olhar para a responsabilidade pessoal para ir rumo ao bem, com gradualidade, de acordo com o que é possível para cada um. Além disso, a Igreja não pode se comportar de outro modo: se quisermos realmente seguir o Evangelho – e não considerações pessoais – devemos encontrar as pessoas com o mesmo olhar e atitude que, de acordo com os testemunhos evangélicos, foram os do próprio Jesus: foi a doutrina da misericórdia que talvez, no passado, esquecemos e quase deixamos de lado, mas que deve nos tocar a cada momento, porque faz parte do anúncio cristão. O Papa Francisco a chama de “coração pulsante do Evangelho”, e nisso ele se encontra em perfeita sintonia com João Paulo II e Bento XVI.

Como é possível, então, que muitos ainda oponham resistências?

Para usar as mesmas palavras do próprio papa, porque alguns têm dificuldade de reconhecer que a vivência concreta não é só preto ou só branco, mas a vida normalmente apresenta muitas nuances entre claro e escuro. Eu acho que a mudança de perspectiva, de que falamos antes e que pode ser caracterizada como primado da atenção em relação à pessoa individual, considerando atentamente a situação individual, como primado da atenção àquelas que são as necessidades existenciais e espirituais dessa pessoa, e não um primado da doutrina ou das normas...

É preciso reconhecer que, para alguns, essa mudança não é fácil. Ela requer realmente a capacidade e também a disponibilidade de entender, de discernir, de sentir compaixão, empatia, também de se deixar envolver emocionalmente, justamente como diz a própria palavra misericórdia: abrir o próprio coração ao outro. Isso pode ser muito desafiador. No entanto, a vontade do Evangelho é a de conseguir incluir as pessoas, e Jesus nos deu vários exemplos disso: Zaqueu, a adúltera, o bom ladrão... Ele se comportou assim, sem nunca excluir ninguém, induzindo no outro um caminho de conversão. O olhar de Jesus é sempre um olhar de amor e de misericórdia, nunca de exclusão ou de condenação.

Pode-se afirmar que as resistências na base são menos numerosas, como se a base dos fiéis tivesse entendido melhor?

É verdade: as resistências mais fortes parecem se manifestar justamente em alguns membros da hierarquia, aquela que teria a tarefa de anunciar o Evangelho e de se colocar, fiel e lealmente, ao lado do Santo Padre... Os fiéis, salvo algumas exceções, parecem ter compreendido o discurso da misericórdia, e o Ano Jubilar ajudou muito nesse sentido. Dentre outras coisas, o Papa Francisco não é o primeiro a falar de misericórdia. Pensemos apenas em João Paulo II. Hoje em dia, talvez, estamos mais dispostos a entender: eu penso em todos aqueles gestos feitos pelo papa nas Sextas-Feiras da Misericórdia.

Qual é o medo que induziria as resistências?

Eu acho que o medo é atribuível às inúmeras diferenças das inúmeras situações que devemos enfrentar e às quais, é preciso reconhecer, não estamos preparados (mas não podemos estar a priori, porque são novas). Então, é verdade, o discernimento dá medo, mas aos bispos é confiada a tarefa de formar pessoas, também leigas, especialmente preparadas. E essa é uma tarefa que lhes é confiada, uma tarefa que eles não podem recusar, porque faz parte da missão pastoral.

Você considera que há esperança de que, nos próximos meses, se possa trabalhar com mais serenidade?

Estou confiante de que cada vez mais pessoas conseguirão compreender, acima de tudo, que a doutrina da Amoris laetitia corresponde ao Evangelho, que ela promove atitudes e ações que correspondem aos gestos e às palavras de Jesus. Depois, eu acho que, cada vez mais, ficará evidente que a Amoris laetitia não se coloca, de modo algum, em conflito ou em tensão com a tradição, mas que ela entra perfeitamente na ótica de um quadro mais amplo do necessário desenvolvimento ao longo dos séculos tanto da doutrina da Igreja quanto da teologia moral.

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