"A Igreja deve desenvenenar o eros." Entrevista com Martin Lintner

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27 Julho 2015

No Instrumentum laboris do próximo Sínodo sobre a familiar, reitera-se a necessidade de "não parar em um anúncio meramente teórico e desvinculado dos problemas reais das pessoas" (76): uma conversão missionária e de linguagem, porque "não se trata apenas de apresentar uma normativa, mas de propor valores" (77), uma perspectiva levada adiante nos últimos anos.

A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada no sítio Vatican Insider, 22-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sobre o tema da moral sexual e familiar, conversamos com Martin M. Lintner, 43 anos, religioso dos Servos de Maria do sul do Tirol, professor de teologia moral no Estúdio Teológico Acadêmico de Bressanone e presidente do INSeCT (International Network of Societies for Catholic Theology), de retorno do Seminário da ATISM [Associação Teológica Italiana para o Estudo da Moral] de Catanzaro, onde ele fez uma palestra sobre o "status quaestionis dos divorciados-recasados", e autor do livro recém-impresso La riscoperta dell’eros. Chiesa, sessualità e relazioni umane [A redescoberta do eros. Igreja, sexualidade e relações humanas] (EDB, 2015), com prefácio de Karl Golser, bispo emérito de Bolzano-Bressanone, e posfácio por Sigrid Müller, professora em Viena.

Eis a entrevista.

A sua intenção é a de apresentar uma moral sexual como uma "ajuda para viver melhor": não uma ética da proibição, como ainda é vista hoje a posição da Igreja (alguns falam de "dureza"), mas um "desenvenenar o eros". Como é possível que, depois de 50 anos desde o Concílio, ainda não se conseguiu se fazer entender? Ou talvez realmente haja algo para mudar, como tantos pedem?

A moral sexual da Igreja, por muito tempo, foi apresentada em uma ótica negativa, causada por um profundo e duradouro pessimismo em relação à sexualidade, vista como pecaminosa e a se dominar. Nas últimas décadas, na sociedade, houve uma reviravolta profunda, caracterizada pela "destabuzação", mas, infelizmente, também por tendências – nas palavras de Bento XVI – de banalização da sexualidade.

A Igreja, com o Concílio, também fez uma virada positiva na sua interpretação: não mais vista apenas em função da procriação, mas da vida conjugal, expressão de amor e aspecto importante para a fidelidade e a estabilidade de um casal. Isso permitiu avaliar a sexualidade e o prazer físico de modo positivo: algo de bom e de belo. Pode-se dizer que se desenvolveu uma nova moral sexual, começando por São João Paulo II, com a sua teologia do corpo: a sexualidade entendida como "linguagem do corpo" ou o Catecismo dos jovens YouCat, que fala de um "lirismo pessoal do amor".

Em síntese, a Igreja não é mais sexofóbica, mas isso ainda não se tornou consciência comum. As razões são variadas: por um lado, não é fácil sair de sombras seculares; por outro, muitas vezes, nas discussões, limitamo-nos a poucas problemáticas e não conseguimos transmitir a visão integral da Igreja sobre sexualidade e vida de casal. Em nível eclesial, às vezes, houve uma atitude defensiva demais, quase para proteger a doutrina de alguns desenvolvimentos sociais que eram avaliados apenas negativamente, não conseguindo, porém, captar os seus aspectos positivos, ter um relação mais relaxada com a temática, valorizar a responsabilidade pessoal da pessoa individual e reconhecer a crescente e disseminada sensibilidade em relação à violência ou aos abusos sexuais.

Você deseja a passagem de uma ética da obediência a uma ética da responsabilidade, na ótica do caráter itinerante da maturação moral dos indivíduos e do casal: como se concilia isso com a Humanae vitae, que considera "má em si mesma" a contracepção artificial? Não seria, talvez, limitar a responsabilidade do casal?

As discussões em torno da Humanae vitae, infelizmente, quase sempre se limitaram à contracepção, deixando na sombra a sua mensagem integral. Na primeira parte, Paulo VI explica a visão da sexualidade e do amor conjugal a partir da Gaudium et spes. O pano de fundo da encíclica é muito complexo e também a sua gênese. Na publicação, logo surgiram muitas discussões: se o argumento jusnaturalista contra a contracepção artificial não era um passo atrás em relação à visão personalista do matrimônio, se a encíclica realmente conseguia superar uma visão biológica-generativa da sexualidade, se a abertura à vida era intrínseca ao matrimônio como tal ou a cada relação individual.

Até o então cardeal Wojtyla, que compartilhava com firmeza a posição normativa, em um comentário de janeiro de 1969 no L'Osservatore Romano deu a entender que ele preferiria uma argumentação personalista em vez de jusnaturalista. As objeções mais fortes – até mesmo por parte de muitas Conferências Episcopais –, no entanto, diziam respeito à questão da consciência do casal no âmbito da procriação responsável. O magistério afirmou várias vezes a sua posição, mas até hoje não conseguiu convencer nem a totalidade dos bispos, muito menos a maioria dos fiéis.

O Instrumentum laboris afirma: "Tendo presente a riqueza de sabedoria contida na Humanae vitae, em relação às questões por ela tratadas, emergem dois polos a se conjugar constantemente. Por um lado, o papel da consciência entendida como voz de Deus que ressoa no coração humano educado a ouvi-la; por outro, a indicação moral objetiva, que impede que se considere a generatividade como uma realidade sobre a qual se possa decidir arbitrariamente, prescindindo do desígnio divino sobre a procriação humana" (137). Seria preciso discutir sobre mais aspectos, tais como a proteção da liberdade e, sobretudo a saúde física dos parceiros, especialmente da mulher, e a responsabilidade de ambos para a procriação e a contracepção. A Igreja, depois, deve dar uma resposta também àqueles casais para os quais os métodos naturais não são eficazes ou realisticamente aplicáveis, por causa de um ciclo irregular ou do ritmo da vida.

O texto não se isenta das questão mais "candentes" hoje, como a homossexualidade. Parece-me que a Igreja não teria elementos para se opor às uniões civis, no entanto, permanece a exigência da abstinência sexual: como justificá-la no contexto atual?

Eu tive várias conversas com pessoas homossexuais, até mesmo pessoas muito religiosas. É realmente difícil fazê-las compreender essa distinção: a Igreja não avalia como moralmente negativa a tendência homossexual, mas exige a abstinência sexual, ou seja, avalia como moralmente negativa uma relação homossexual. Elas também afirmam ser capazes de viver aqueles valores pessoais que são importantes para a qualidade ética de uma relação: o amor, o respeito, a responsabilidade mútua, a fidelidade, e pedem para ser apoiadas pela Igreja ao viver e testemunhar esses valores.

A meu ver, o Papa Bento XVI, na entrevista "Luz do mundo", disse uma coisa importante, falando do uso de um preservativo no âmbito da prostituição masculina, isto é, homossexual: um "primeiro passo a uma moralização, a uma maior humanização da sexualidade, um primeiro ato de responsabilidade para desenvolver uma nova consciência de que nem tudo é permitido". O papa certamente não justificou a homossexualidade vivida, no entanto, confronta-nos com o desafio: como podemos ajudar as pessoas homossexuais a crescerem no seu caminho de moralização, humanização, responsabilidade e conscientização?

Como Igreja, devemos levar muito a sério o fato de que muitas pessoas homossexuais nos dizem que a pretensão da abstinência sexual não as ajuda nesse processo. Uma reflexão claramente distinta da promoção de um chamado "estilo de vida gay", em que a dimensão pessoal e integral da sexualidade não é respeitada.

Para os jovens de hoje, o exercício da sexualidade é um componente importante da relação: como transmitir uma moral sexual que não pareça ser para eles como alheia à realidade?

É importante partir dos seus desejos: a maioria deles deseja uma relação duradoura e fiel. Para um jovem que descobre a sua identidade – também sexual – o exercício da sexualidade certamente tem um papel importante, e, na cultura de hoje, que tende para uma ênfase do físico tanto em relação à autoestima, quanto à percepção social de uma pessoa, o comportamento sexual se torna significativo.

A meu ver, não se deve partir das normas, mas de uma pedagogia integral que reconheça o processo de maturação física e psíquica, avalie positivamente o papel da sexualidade, sensibilize para a vulnerabilidade da pessoa humana e da sua integridade psicofísica, para a qual a sexualidade é uma expressão particular, e que também sensibilize para as questões éticas de maneira responsabilizante.

A educação sexual não pode se limitar a aspectos biológico-fisiológicos. O amor sexual não é apenas o encontro de dois corpos, mas de duas pessoas. É preciso ouvir as perguntas dos jovens e defrontar-se com as suas experiências, como o contato com a pornografia através da internet ou o sexting, a troca muito frequente de fotografias íntimas através dos meios digitais.

Quais as motivações do livro hoje?

Estou convencido de que a moral sexual da Igreja e a visão integral da sexualidade e da vida conjugal são um grande tesouro e têm muito a oferecer hoje, apesar das críticas e que também merecem ser levadas a sério. Isso me motivou a escrever sem me isentar das perguntas difíceis. Não pretendo responder a tudo, apenas oferecer uma modesta contribuição.

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