Aborto: Papa Bergoglio remove um obstáculo. Artigo de Bia Sarasini

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23 Novembro 2016

“Parece claro que, no caminho traçado pelo Papa Francisco, o aborto não é mais uma culpa especial, como tal imperdoável, que, portanto, coloca a pessoa fora da comunidade. Como outros, por exemplo o homicídio, ele não exclui do contexto humano, da comunidade dos crentes. Resta saber se essa desclassificação é, para todos os efeitos, um obstáculo removido, uma abertura que desloca a milenar construção patriarcal da qual a Igreja Católica faz parte.”

A opinião é da jornalista italiana Bia Sarasini, ex-diretora da revista feminista italiana Noi Donne, em artigo publicado no jornal Il Manifesto, 22-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Papa Francisco não muda de estrada. No encerramento do Jubileu, ele divulga a carta apostólica Misericordia et misera e institui o Dia Mundial dos Pobres.

No mesmo texto, ele confirma o que havia estabelecido no início do Jubileu: cada padre terá a faculdade de absolver, na confissão comum, sem procedimentos particulares, mulheres e médicos que praticam o aborto.

De fato, o papa abole a excomunhão, prevista no Código de Direito Canônico no artigo 1.398. Bergoglio segue em frente no caminho da misericórdia, a virtude que todos aprenderam a conhecer no afanado mundo dos consumos, um mundo que também deplora, na voz dos hoteleiros romanos, que essa Jubileu não tenha trazido um aumento nos ganhos.

E, acima de tudo, apesar das críticas internas à Igreja, os posicionamentos hostis. Os últimos que vieram à tona foram, há alguns dias, quatro cardeais ultraconservadores, Walter Brandmüller, Raymond L. Burke, Carlo Caffara e Joachim Meisner, que, em uma carta pública, disseram-se preocupados com os efeitos de confusão da pastoral sobre o matrimônio e os divorciados. Bergoglio não se preocupa, prossegue na sua obra que se inspira diretamente no Evangelho.

Compreende-se isso a partir do título da carta: “São as duas palavras que Santo Agostinho utiliza para descrever o encontro de Jesus com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11). (…) Ficaram apenas elas duas: a mísera e a misericórdia”.

Uma posição muito clara, também em relação ao aborto: “Gostaria de reiterar com todas as minhas forças que o aborto é um grave pecado, porque põe fim a uma vida inocente. Mas, com igual força, posso e devo afirmar que não existe algum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai”.

E se, para os praticantes, o sentido daquilo que o papa defende está dentro da sua fé, não menos forte é o impacto para todos. Para a centralidade do cristianismo, na construção do mundo de palavras e símbolos em que estamos imersos, especialmente na Itália. Para as perguntas que são feitas.

O que é o pecado? O que é o perdão? Ditas assim, parecem ser as dúvidas que afligem Pio XIII, o protagonista de The Young Pope, a série recém-concluída que deu voz a palavras que não ressoam mais no discurso público contemporâneo. Um papa imaginário – integralmente reacionário por fraqueza e por medo da vida –, que, no penúltimo episódio, justamente sobre o aborto e, em geral, sobre o pecado, se pergunta se não deve condenar “a todos, exceto as mulheres”.

Em um discurso laico, fora do contexto da fé, parece claro que, no caminho traçado pelo Papa Francisco, o aborto não é mais uma culpa especial, como tal imperdoável, que, portanto, coloca a pessoa fora da comunidade. Como outros, por exemplo o homicídio, ele não exclui do contexto humano, da comunidade dos crentes. Resta saber se essa desclassificação é, para todos os efeitos, um obstáculo removido, uma abertura que desloca a milenar construção patriarcal da qual a Igreja Católica faz parte.

Acima de tudo, deve-se considerar se a misericórdia, que, segundo Francisco, não é uma abstração, mas prática, vida vivida, vai levar a uma substancial mudança de ponto de vista. E se realmente serão abalados os pilares que fazem da mulher a outra-outro a ser venerada nos altares e a ser condenada ao inferno do corpo e do instinto.

Como já se disse em outras ocasiões, não é este o terreno em que o Papa Bergoglio abre novas portas. O gesto mais forte, o encerramento do Jubileu, é o Dia Mundial dos Pobres, a via mestra desse pontificado.

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