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18 Novembro 2016

Como no caso do Brexit e do referendo colombiano e com consequências muito mais graves, outra vez o resultado das urnas contraria as pesquisas, os analistas e o bom senso. Nenhuma voz respeitada previu a vitória de Donald Trump, cuja data, por dupla ironia da história, é a do 18 Brumário do calendário da Revolução Francesa e do aniversário da queda do Muro de Berlim.

A reportagem é de Antonio Luiz M. C. Costa, publicada por CartaCapital, 18-11-2016.

A estranha decisão do FBI de investigar Hillary a nove dias da eleição pode ter contribuído para o resultado, como também a incoerência dos democratas ao focar os últimos dias de campanha no risco de Trump causar a terceira guerra mundial, após tentar por meses pintá-lo como títere de Vladimir Putin.

Isso não foi, porém, indicado pelas pesquisas, que na véspera davam 4% de vantagem para Hillary Clinton no voto popular. Mesmo considerado o intrincado mecanismo do colégio eleitoral, nenhum estatístico deu mais de 28,6% de chances de vitória para o republicano. Essa foi a estimativa de Nate Silver, muito criticado na reta final por supostamente superestimar Trump pelo Huffington Post, que deu nada menos de 98% de chances de vitória aos democratas no dia da eleição – o que, ironicamente, talvez tenha persuadido muitos dos pouco motivados eleitores de Hillary a desistir de enfrentar as longas filas para as urnas.

A abstenção foi bem maior do lado democrata que do republicano. Na vida real, Hillary teve uma vantagem de 0,2% no voto popular, concentrada nas metrópoles, mas Trump assegurou a vitória nos estados interioranos bem antes de se completar a apuração. Os democratas tiveram pequenos ganhos na Câmara e no Senado, mas a maioria continuou republicana. Pela primeira vez, desde 1928, o Partido Republicano controla tanto o Executivo quanto as duas casas do Legislativo e logo controlará também a Suprema Corte. Não é um bom presságio, considerados os acontecimentos de 1929 e depois.

Não se viu a esperada coalizão de minorias, mulheres e homens cultos eleger a democrata. Os negros e hispânicos, sim, votaram por vasta maioria em Hillary, ainda que com menos convicção do que ao apoiar Barack Obama contra Mitt Romney em 2012. Mas os brancos votaram majoritariamente em Trump, inclusive as mulheres brancas com diploma. Apenas dois recortes não obviamente raciais deram maioria a Hillary: os mais jovens e os mais pobres, mas ao menos neste segundo caso trata-se também, na maioria, de não brancos.

Como observou a jornalista de dados Mona Chalabi no Guardian, é preciso perder menos tempo com tentar prever opiniões e ocupar-se mais com entendê-las. Em tempos como estes, os modelos e teorias com os quais estatísticos e politólogos fizeram suas carreiras nas últimas décadas e marqueteiros conduziram suas campanhas deveriam ser relegados ao arquivo morto. Vivemos mais uma vez uma mudança profunda nas regras do jogo, que o líder político espanhol Pablo Iglesias compara com a queda da União Soviética.

O dado mais importante para entender esta eleição está numa pesquisa da Pew Research publicada em dezembro de 2015. Nesse ano, pela primeira vez desde o início da pesquisa, os estadunidenses categorizados como “classe média”, entendida como renda entre dois terços e o dobro da mediana, caíram para menos da metade da população. Em 1971, eram 61%.

Tratava-se de um conceito não sociológico, mas mercadológico de classe média, mas era o suficiente para permitir certo consenso. Quem tem acesso a emprego estável, conforto doméstico, viagens de férias e serviços de saúde decentes em condições de relativa igualdade com a maioria não sente necessidade de pôr em questão os fundamentos do sistema, mesmo se existem minorias despossuídas e elites privilegiadas. Nesses tempos, a contestação radical provinha quase só de líderes negros como Malcolm X e Angela Davis.

Entretanto, o triunfalismo do capital a partir dos anos 1980 mata a galinha dos ovos de ouro ao concentrar renda para antecipar ganhos. O encolhimento da classe média e a precarização do trabalho, cortesias de décadas de neoliberalismo, corroeram o consenso e voltaram a pôr a nu a luta de classes para uma porcentagem cada vez maior da população dos EUA e de muitos outros países ricos e outrora cordatos. “Hillary foi a candidata errada, a tecnocrata que oferecia ajustes na máquina que o país queria quebrar a marretadas”, concluiu o historiador Thomas Frank. Bernie Sanders teria se saído melhor.

Comentaristas e politólogos escandalizam-se com o crescimento da polarização a ponto de inviabilizar um acordo sobre os “fatos”. Entretanto, a política não trata de teses científicas e sim de priorizar meios e fins e articular suposições sobre o mundo objetivo (às vezes sólidas, como a existência da evolução e do aquecimento global, mas muitas vezes nem tanto) com aspirações subjetivas e construções sociais intersubjetivas que em épocas de crise se desmancham no ar, como notou um conhecido manifesto do século XIX.

Aspirações e construções sociais podem ser egoístas ou solidárias, reacionárias ou progressistas, mas não são objetivamente certas ou erradas. Pretender reduzi-las a “fatos” é apenas mais um modo de deslegitimar valores alheios, uma forma de luta política vista também em outras eras de conflito social aberto, mas especialmente onipresente e estridente em uma época na qual as redes sociais incentivam as pessoas a se fecharem em círculos de pensamento homogêneo, nos quais demonstrar dogmatismo e intransigência inconsequentes são meios de ganhar seguidores, respeito e popularidade.

Os populismos de direita, dos quais Trump é um exemplo acabado, tratam de deslegitimar os direitos e aspirações de quem não se enquadre em sua concepção de “gente de bem”. Às vezes, bastante contraditória. A ultraconservadora polemista Ann Coulter, por exemplo, tuitou no dia da eleição o seguinte: “Se apenas pessoas com pelo menos (sic) quatro avós nascidos nos EUA votassem, Trump ganharia de lavada nos 50 estados”, aparentemente sem notar que nesse caso o próprio Trump, neto de alemães pelo lado paterno e filho de uma escocesa, não poderia votar e muito menos se candidatar. Como também pouco importava aos militantes nazistas que Adolf Hitler fosse um imigrante austríaco. A questão é racial, não de “nativismo”.

Make America Great Again é em primeiro lugar uma senha para “restaurar os privilégios dos brancos cristãos”, como entendem bem tanto as minorias quanto a Ku Klux Klan e outras organizações racistas e neofascistas. Quando ele e seus partidários gritaram “fraude eleitoral”, não queriam realmente dizer que os democratas alterariam votos ou falsificariam as totalizações, mas que o voto de negros, hispânicos, muçulmanos e imigrantes é ilegítimo.

Muitos valentões ameaçaram “vigiar” as seções para prevenir o voto de eleitores “ilegais”, quando muitos estados proíbem o voto de quem tem qualquer antecedente criminal e isso já exclui grande parte dos homens negros e hispânicos. Caso Hillary tivesse vencido, esse seria o argumento para deslegitimar o resultado e minar a governabilidade. Como Trump venceu, ele não pôs em dúvida as urnas e prometeu governar para “todos os americanos” (brancos e cristãos, acrescente-se entre parênteses).

Por outro lado, parte da elite bem-pensante gostaria de poder excluir a maior parte do eleitorado e alguns deles o dizem em voz alta. Foi o caso do filósofo Jason Brennan, recentemente entrevistado pela Folha. Invoca exemplos como o Brexit e a ascensão de Trump para declarar a democracia um fracasso e propor uma “epistocracia” na qual só os mais informados, com profundo conhecimento de temas políticos, seriam autorizados a votar e participar das decisões.

Em seu livro Against Democracy, ele mesmo se oferece como paradigma da casta dos ditadores-filósofos: “Talvez seja legítimo crer que eu, professor famoso de estratégia, economia, ética e políticas públicas em uma universidade de pesquisa de elite, com um Ph.D. de filosofia política no programa mais bem avaliado do mundo anglófono e um forte currículo de publicações revisadas por pares nas melhores publicações acadêmicas tenha um julgamento político superior”.

Esse discurso ignora ingênua ou maquiavelicamente que, na prática, uma tecnocracia governa de fato o Ocidente desde o fim da Segunda Guerra Mundial e de uma forma particularmente rígida e intransigente, com apoio praticamente unânime das maiores mídias a partir da implantação da globalização neoliberal nos anos 1980 e 1990.

Desde então e até 2015, foi muito raro o voto popular pôr alguma pedrinha nas engrenagens planejadas e operadas pelas elites e, nessas poucas ocasiões, foi desautorizado pelas imposições de organismos internacionais ou por golpes jurídicos e parlamentares, como se viu nos plebiscitos e eleições europeias e latino-americanas. A crise é um fracasso das elites, não dos povos, e o voto “populista” uma resposta a esse fiasco, apesar de cega por terem sido as massas deliberadamente vendadas pela mídia e pelas elites. De outra forma, teriam percebido que Trump e seus similares não são o contrário do capitalismo neoliberal, mas a conclusão lógica de suas tendências autoritárias.

Uma parte importante da classe dominante está contrariada, principalmente seus setores com mais investimentos no exterior e apostas no comércio internacional. Dos cem maiores jornais dos EUA, apenas dois apoiaram Trump, menos do que os quatro a apostar no nanico Partido Libertário. Hillary recebeu apoio declarado de 57, muitos deles historicamente conservadores e republicanos, como o Washington Post e o The Houston Chronicle. Outros quatro pediram a seus leitores para não votar em Trump.

Por outro lado, há setores com motivos para brindar. Wall Street, sempre com um pé em cada canoa, redistribui suas apostas e contará com a mão amiga da Casa Branca para resgatá-la enquanto for possível. Uma parte da elite se retrai, outra ascende e a maioria provavelmente se acomodará com o governo Trump e um novo mundo de muros, provocações militares e barreiras comerciais, como se acomodou nos anos 1930 com as vitórias do fascismo na Europa. Sinal disso é o comportamento das bolsas, que no primeiro momento caíram, mas logo se recompuseram e dispararam, graças à alta de setores como a indústria bélica e automobilística, os setores de petróleo e carvão e a gestão de penitenciárias privadas.

São os deserdados, a começar pelos imigrantes e refugiados, que, como sempre, mais perderão. Castigos e humilhações para as minorias às quais Trump nada deve e as nações mais indefesas consolarão a classe média branca pelas promessas não cumpridas.

Pois Trump certamente decepcionará parte dos eleitores. Com certeza, não será possível baixar impostos, realizar grandes investimentos em infraestrutura, expandir o poder militar e reduzir a dívida pública ao mesmo tempo. Acordos serão necessários com as lideranças republicanas tradicionais e setores que apoiaram Hillary, incluídos o Vale do Silício e o aparelho de inteligência e segurança, que colaborarão para manter acesso ao poder.

Entretanto, na medida em que sua campanha expressou seus projetos e visão de mundo, algumas conjecturas podem ser feitas sobre a direção das mudanças em relação a um governo Clinton, que teria sido uma continuação de Obama com mais agressividade externa. Entre os perdedores, está a América Latina.

Para Cuba, pode ser o fim da distensão iniciada por Obama e novo aperto no embargo, mas o maior risco é para as apostas neoliberais nos investimentos transnacionais e comércio com os EUA, principalmente do México, seguido por seus parceiros do Acordo do Pacífico e pelos governos de Mauricio Macri e Michel Temer, recém-chegados a uma festa prestes a ser cancelada. Para a Colômbia, pode ser inviabilizado de vez o acordo de paz com as Farc.

Para os bolivarianos, que já esperavam o pior dos EUA, talvez pouco mude. Ressabiado, o secretário-executivo da frente oposicionista venezuelana MUD, Jesús Torrealba, comparou a vitória de Trump com a de Hugo Chávez em 1999, como “uma decisão de castigar a classe política que acabou por ser um bumerangue”.

A União Europeia é outra grande perdedora. Trump anunciou sua vitória como um Brexit plus plus plus e foi cumprimentado por Theresa May e pela ultradireita europeia em peso. Bruxelas perde o respaldo de Washington, a sustentação do euro e da União e talvez tenha de enfrentar uma sabotagem ativa. A menos que Trump dê uma guinada de 180 graus, a Otan está de aviso prévio e as nações do Leste Europeu que confiaram em sua proteção contra a Rússia, mais notadamente a Ucrânia, a Geórgia e os países bálticos, podem pôr as barbas de molho.

Também não é brilhante o futuro dos acordos para conter a mudança climática, cuja provável suspensão talvez venha a ser o legado mais destrutivo do governo Trump, mesmo que a lógica do império enlouquecido não leve a mais uma grande guerra.

Vladimir Putin esfrega as mãos, como também Recep Tayyip Erdogan. Trump é simpático a líderes autoritários e sua vitória move o tom da política externa dos EUA da hipocrisia para o cinismo. Washington não poderá invocar princípios liberal-democráticos e direitos humanos para criticá-los se sua prioridade declarada é simplesmente obter vantagens econômicas enquanto esvazia direitos civis, limita a liberdade de imprensa e corteja o racismo.

Ao lado do México, a China foi pintada por Trump como um bicho-papão dos empregos estadunidenses, mas talvez acabe beneficiada. Se Trump abandonar o Tratado do Pacífico e a defesa do Japão e Coreia do Sul (e Taiwan?), conforme anunciou, mais de uma década de esforço de Washington para isolar Pequim vai por água abaixo. Isso pode compensar as possíveis perdas no comércio com a América do Norte. Tóquio, Seul e Hanói poderão buscar suas próprias armas nucleares e outros cortejar a liderança chinesa.

É mais difícil conjecturar sobre o Oriente Médio, um dos temas sobre os quais Trump mais mostrou desconhecimento e inconsistências. Ora pareceu condenar o envolvimento na região, ora sugeriu que teria agido com mais força e tomado os campos de petróleo para proveito exclusivo dos EUA. De um lado, mostra simpatia por Putin, por outro condenou o acordo nuclear com o Irã. Acusou os sauditas de envolvimento no 11 de setembro, engalfinhou-se no Twitter com um de seus príncipes e repeliu jornalistas da Al-Jazira, ligada ao governo do Catar, mas continua a ter negócios na Arábia e no Golfo.

Outro exemplo de ambivalência foi o anúncio da reta final da campanha, no qual denunciou as “alavancas de poder” em Washington, os “interesses globais especiais” e os “responsáveis pelas decisões que roubaram nossa classe trabalhadora”, enquanto mostrava imagens de judeus poderosos, inclusive o bilionário George Soros, a presidenta do Fed, Janet Yellen e o presidente do Goldman Sachs, Lloyd Blankfein. Mas esse flerte com o antissemitismo não o impediu de aceitar as doações e o apoio do bilionário judeu Sheldon Adelson e de se dizer “o melhor amigo de Israel”.

Entretanto, não há como, ao mesmo tempo, propor acordo com o Kremlin e Bashar al-Assad, ameaçar Teerã, romper com os sauditas e “ser o melhor amigo de Israel”. Em algum ponto terá de se desmentir, provavelmente em prejuízo dos mais fracos. A direita israelense canta vitória: “Trump oferece o fim da ideia de um Estado Palestino”, festejou o ministro da Educação Naftali Bennett, enquanto a ministra da Justiça Ayelet Shaked cobrava a promessa de Trump de reconhecer a anexação de Jerusalém e mover a embaixada dos EUA para lá.

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