O outro populismo. Artigo de Roberto Esposito

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17 Novembro 2016

"Aquilo que é definido como populismo está ocupando, de maneira cada vez mais acelerada, não uma parte, mas todo o terreno do confronto político. Toda a política contemporânea, dentro dos nossos sistemas, na Europa como nas Américas, tem uma tonalidade populista."

A opinião é do filósofo italiano Roberto Esposito, professor da Escola Normal Superior de Pisa e ex-vice-diretor do Instituto Italiano de Ciências Humanas. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 14-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O fato de que a inesperada vitória de Trump, a poucos meses do Brexit, requer uma profunda mudança das nossas categorias de análise política é evidente. Todos os comentários pós-eleições salientavam a sua urgência. "O mundo mudou" – era a manchete de capa do La Repubblica no day after.

Mas de que forma? Qual é o epicentro da transformação em curso? E que tipo de resposta requer? No olho do furacão está a noção de populismo, como ela é usada nas análises das Ciências Políticas, na mídia e na batalha política.

Há muito tempo, ela é utilizada para deslegitimar os adversários políticos, prontos, por sua vez, para adotá-la do mesmo modo contra os próprios adversários. Mas tal reversibilidade da acusação de populismo – dirigida indiferentemente às forças de governo e de oposição –, ao mesmo tempo, esconde e revela a novidade em curso. Isto é, que aquilo que é definido como populismo está ocupando, de maneira cada vez mais acelerada, não uma parte, mas todo o terreno do confronto político. Toda a política contemporânea, dentro dos nossos sistemas, na Europa como nas Américas, tem uma tonalidade populista.

Contribuíram para isso múltiplos fatores, para os quais, agora, é inútil voltar. O que importa é a reviravolta que tal transformação determina. Ou seja, o fato de que a linha de comparação, e também de conflito, não passa mais entre populistas e antipopulistas, mas dentro do próprio populismo.

Naturalmente, tal mudança não é percebida, ou é removida, quando se continua carregando o termo com um valor preconceituosamente negativo. Mas ele aflora novamente, assim que ele é subtraído dele, submetendo-o a uma análise mais neutra.

Populismo é um nome vazio, pronto para ser preenchido com conteúdos também muito heterogêneos e para ser adotado com intenções diferentes e contrastantes. Ele, nessa versão mais objetiva, é o resultado de uma queda de mediações institucionais entre política e vida material, que havia sido captada há muito tempo pela reflexão mais aguçada. Com base em tal queda, aquele conjunto de segmentos diferenciados e, muitas vezes, concorrentes que formam um povo pedem uma resposta imediata, isto é, rápida e direta, às suas necessidades, desejos, pulsões, medos, esperanças.

Isso explica por que, em todo o mundo ocidental, aquela que se chama comumente de crise da política é, na realidade, principalmente, crise da representação e dos órgãos que a encarnam – instituições, partidos, sindicatos. O aumento vertical de personalização da política também é o resultado dessa dinâmica.

Mas eis a pergunta decisiva: essa crise da representação coincide com uma crise da democracia? A pergunta é mais do que legítima, uma vez que a democracia moderna é essencialmente representativa. Mas a resposta não é óbvia, a partir do momento em que a representação é uma polaridade, certamente necessária, dos sistemas democráticos, cujo outro polo é, desde sempre, a soberania popular.

Ora, é evidente que, nas atuais dificuldades dos órgãos representativos, o jogo político se concentra nesse segundo polo. É por ele que passa a distinção sobre a qual se falava, dentro do campo populista. No sentido de que a implicação imediata entre política e vida, em relação a qual não é mais possível voltar atrás, pode ser orientada em direções diferentes e até mesmo alternativas. Não mais redutíveis à dicotomia horizontal entre direita e esquerda, mas sim relativas à escala vertical entre estratificações sociais sobrepostas.

É nisso que os populismos se dividem e podem ser divididos. Se, como demonstrou a eleição estadunidense, o seu adversário comum é sempre o establishment político, financeiro, tecnocrático, é diferente a relação que se determina entre grupos sociais. Assim como é diferente a relação de força que existe entre eles – aquela que, antigamente, se definia como "hegemonia".

Está em questão a relação que se determina entre blocos socioculturais diferentes e qual deles governa a sua soldagem. Daí também a relação, não necessariamente negativa, com o quadro democrático.

Em um certo tipo de populismo, que podemos chamar de inclusivo, pode-se criar uma aliança entre aqueles que foram mais atingidos pela crise econômica e estratos sociais intermediários, sem que isso comporte uma barreira em relação à força de trabalho dos imigrantes.

Outro tipo de populismo, de caráter excludente, presente na Europa assim como na América, encerra-se sobre si mesmo, soldando as próprias identidades aos impulsos regressivos e xenófobos que provêm de ambientes sociais diversos em direção literalmente reacionária.

O jogo que se abre hoje, em suma, é, em grande parte, interno ao campo populista. E deve ser jogado também nesse campo. Ele será vencido por aqueles que souberem orientar a mudança já irreversível em uma direção, ao mesmo tempo, inovadora e compatível com os padrões e os valores da democracia moderna.

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