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09 Novembro 2016

A esquerda radical e a esquerda socialdemocrata impulsionam mudanças e, apesar das diferenças, os analistas preveem acordos em breve.

A reportagem é de Eduardo Febbro e publicada por Página/12, 08-11-2016. A tradução é de André Langer.

Há um para além das eleições presidenciais norte-americanas: quer Hillary Clinton ou Donald Trump vença as eleições, os analistas estadunidenses apostam na reconstrução de um bloco composto pela socialdemocracia progressista, pela dispersada esquerda e pela esquerda radical, aquela que protagonizou as mobilizações sociais de 2011. Se o campo Democrata conta com a mobilização dos latinos e dos afroamericanos para vencer uma eleição cujo resultado tornou-se incerto nos últimos dias, a contribuição dos movimentos populares da esquerda do Partido Democrata e da esquerda radical não é menos substancial.

Descendentes da agitação cidadã representada pelo Occupy Wall Street em setembro de 2011, vários grupos da esquerda radical tiveram um papel preponderante durante a campanha eleitoral. Os chamados grassroots (as bases) estão unidos por uma mesma vontade de mudança e de impugnação do sistema, mas disseminados em movimentos não inteiramente convergentes: a justiça racial (Black Lives Matter), os direitos dos trabalhadores imigrados, o salário mínimo de 15 dólares/hora, a mudança climática, o questionamento da polícia ou a regulação das finanças.

A surpreendente irrupção do senador de Vermont, Bernie Sanders, e o movimento Feel the Bern, com seu emblema central de uma “revolução política e social” capaz de destronar as elites, mudou as relações e o impacto eleitoral destes grupos. Sanders reuniu em torno dele a maior coalizão de esquerda da história recente dos Estados Unidos. Trata-se agora de que essa entidade continue viva depois das eleições. Para isso, e apesar das dificuldades estruturais próprias do sistema político norte-americano, os simpatizantes desses movimentos aguardam o fim das eleições presidenciais para romper o viciado bipartidarismo e constituir-se em uma espécie de “poder político independente”, segundo a definição de Cindy Wiesner, a coordenadora nacional da Grassroots Global Justice Alliance, uma força que reúne cerca de 60 organizações progressistas com presença em 20 Estados.

Embora seja verdade que a esquerda radical estadunidense desconfia do progressismo disfarçado de Clinton, a construção de uma proposta eleitoral diferente a partir destas eleições é uma realidade cada vez mais tangível. Já durante a campanha e apertada pelas propostas de Bernie Sanders, a candidata democrata foi empurrada para posturas progressistas que não figuravam em sua plataforma inicial. O fundamental, no entanto, está no futuro, no que o colunista do jornal The Washington Post e vice-presidente do Comitê Político Nacional do Democratic Socialists of America, Harold Meyerson, chama de “nova esquerda”. Haveria inclusive duas novas esquerdas: a que apareceu com pujança à esquerda do Partido Democrata atrás de Sanders, e a esquerda radical de todos os movimentos cidadãos herdeiros do Occupy Wall Street.

Ambas têm uma característica em comum: são eleitores jovens, cujas idades oscilam entre os 18 e os 30 anos. Harold Meyerson anota a este respeito: “Durante os últimos cinco anos, houve provas cada vez maiores do giro à esquerda entre os democratas e os jovens”. Estas duas esquerdas se sentem investidas de duas missões: resgatar a dinâmica de 2011, que renasceu com estas eleições presidenciais, e processar uma resposta à grosseria política e ao racismo de Donald Trump. Cindy Wiesner destacava que embora o eleitorado de Trump aumente “com o medo das pessoas, pode-se deplorar o fato de que Trump tenha normalizado o racismo e a discriminação. A partir dele, apagou-se a fronteira daquilo que, antes, era politicamente permitido expressar”. Embora o embasamento eleitoral seja hoje fértil para uma grande mobilização popular, ninguém oculta o fato de que, vença ou não, Donald Trump já ganhou.

No entanto, a violência da campanha, sua xenofobia e os disparates acumulados pelo republicano, criaram outro fenômeno: o reconhecimento, por parte da ala esquerda do Partido Democrata, de todos os movimentos sociais radicais que antes não eram aceitos como esquerda normal. Pode ser que no futuro esta convergência se amplie, inclusive se, como reconhece Harold Meyerson, a “maioria das condições prévias para converter-se ao socialismo ou inclusive para simpatizar com o mesmo, parece não existir nos Estados Unidos de hoje. Não existe, desde já, nenhuma organização socialista democrática que ande por aí recrutando gente em grande número”.

No entanto, o progressismo norte-americano revitalizou-se nestes anos e, embora demore em constituir-se em uma opção madura, sua consolidação é incontestável. Uma vez mais, Meyerson escreve: “O fato de que a esquerda tenha necessitado aqui mais tempo para aparecer do que a direita pode-se explicar pelo fato de que a maioria dos democratas e liberais acreditou inicialmente que a presidência de Obama proporcionaria um remédio suficiente para os males da economia. Só quando ficou claro que esses males eram muito graves e exigiam uma cirurgia bem mais radical que aquela proporcionada pela política convencional, começou a surgir uma esquerda revitalizada”.

A esquerda radical e a socialdemocracia exigem uma mudança drástica. Não se puseram de acordo sobre a urgência de votar em Clinton para impedir a ascensão de Trump – mais da metade da esquerda radical nega-se a fazer isso –, mas os analistas convergem quando vaticinam que haverá um pacto mínimo. Bruce Miroff, professor de Ciências Políticas na Universidade de Albany, está convencido de que o Partido Democrata se orientará para a esquerda, principalmente pela necessidade dos votos das minorias.

“A postura de Hillary Clinton em 2016 está muito mais à esquerda do que aquela que assumiu nos anos 90 e daquela de seu próprio marido quando foi presidente”, afirma Miroff. As divisões são persistentes e polimorfas: a ala esquerda do Partido Democrata repudia a Hillary Clinton e a esquerda radical tapa o nariz diante do seu nome. O lema “tudo menos Trump” não funciona com a mesma eficácia em todo o espectro da esquerda norte-americana. Uma pesquisa da Genforward, de agosto, mostrou que apenas a metade dos simpatizantes de Bernie Sanders apoiaria a Clinton.

Uma pergunta fica completamente em aberto: para onde vão as esquerdas norte-americanas depois das eleições? A resposta varia e oscila entre “a construção de um poder político independente” e a “permanente transformação do Partido Democrata”. O certo é que há, nos Estados Unidos, uma opção impensável até alguns anos atrás: pode-se dizer “socialismo” sem que se seja tomado como delirante, e inclusive existe formalmente uma ultraesquerda com rosto e legitimidade.

Assim como há uma “direita descomplexada” que assumiu a retórica da ultradireita, existe também uma esquerda radical perfeitamente assumida. O êxito crescente da revista Jacobin prova que há espaço para debater sobre as ideias marxistas ou socialistas. Seu editor, Bhaskar Sunkara, é um dos mais fervorosos partidários de uma “esquerda política independente como alternativa ao Partido Democrata”. A base destas esquerdas em gestação é, conforme resume Sunkara, “a pujança dos movimentos sociais, os únicos capazes de instaurar uma relação de forças com o poder do dinheiro”.

A campanha eleitoral de 2016 criou um monstro patético, Donald Trump, ao mesmo tempo que desenha no horizonte a figura de uma esquerda que vai, lentamente, configurando sua identidade diante daquilo que, em 1936, Franklin Roosevelt qualificou como “os príncipes privilegiados das novas dinastias econômicas”.

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