Entre Lund e Trento, por um novo olhar sobre a história ecumênica

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09 Novembro 2016

Dias depois do encontro de Lund, Suécia, encontramos, entre uma viagem e outra, o pastor Heiner Bludau, decano da Igreja Evangélica Luterana na Itália (Celi). Com ele, tentamos entender, a partir de um ponto de vista do protestantismo italiano em chave luterana, as perspectivas que hoje se abrem ecumenicamente.

A reportagem é de Giuseppe Platone, publicada por Riforma, 08-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Na sua opinião, há continuidade entre o evento "histórico" de Lund com o papa que expressa reconhecimento pelos "dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma" e o Congresso Nacional (desejado pela Conferência Episcopal e pela Federação das Igrejas Evangélicas na Itália), que será realizado nos dias 16 a 18 de novembro em Trento, cidade da Contrarreforma sobre "Católicos e protestantes a 500 anos da Reforma"?

Estou muito contente pelo fato de que o Congresso de Trento será realizado apenas duas semanas depois desse evento realmente histórico. A oração comum foi um encontro de alto nível. A cúpula da Igreja Católica Romana se encontrou com a cúpula da Federação Luterana Mundial (FLM) e, juntos, comemoraram a Reforma. Foi um gesto de imenso significado. Mas foi um gesto. Agora, devem-se seguir passos concretos. A Declaração Conjunta assinada pelo Papa Francisco e pelo presidente da FLM, o bispo Munib Younan, conclui com um apelo nesta direção: "Apelamos a todas as paróquias e comunidades luteranas e católicas para que sejam corajosas e criativas, alegres e cheias de esperança no seu compromisso de prosseguir na grande aventura que nos espera".

O Congresso de Trento pode ser interpretado nessa perspectiva. Não foi essa a ideia original que determinou a sua preparação. Mas, depois de Lund, não se pode renunciar a esse aspecto. Representantes das Igrejas protestantes e da Igreja Católica Romana em nível nacional italiano irão se encontrar e refletir sobre o significado da Reforma. "Um olhar comum sobre o hoje e sobre o amanhã" é o subtítulo. Portanto, ele também irá abordar o futuro. E espero que, nessa ocasião, daremos impulsos concretos às Igrejas regionais, às comunidades e às paróquias sobre como aprofundar a relação entre os católicos e os protestantes.

O caminho dos cristãos rumo à unidade na diversidade recebeu em Lund um novo impulso enérgico. Mas não se corre o risco de se embocar em um ecumenismo bilateral, limitado ao mundo luterano e católico? Os "outros" protestantes, nesse caminho, ficaram para trás?

É precisamente esse aspecto que me deixa contente, ou seja, que logo depois de Lund seja realizado o Congresso ecumênico de Trento. É verdade, o Papa Francisco se encontrou com os luteranos. E, como foi ressaltado muitas vezes nos comentários sobre esse evento, há uma história particular de 50 anos que levou a esse encontro. Há o Consenso sobre a Doutrina da Justificação de 1999, há o documento "Do conflito à comunhão" de 2013, há até uma liturgia comum para comemorar juntos a Reforma em 2017, não só em Lund, mas por toda a parte. Mas também é verdade que há a Concórdia de Leuenberg entre luteranos e reformados, somos membros, junto com os valdenses e os metodistas, da Comunhão de Igrejas Protestantes na Europa (os batistas fazem parte dela como convidados), o que significa plena comunhão entre nós. Compartilhamos a mesma Santa Ceia, e também é possível que pastoras e pastores de uma confissão possam servir em uma comunidade de outra confissão, sem problemas.

E eu poderia citar vários exemplos concretos disso, até mesmo dentro da nossa Igreja, porque, em Milão, uma comunidade reformada faz parte da Igreja Luterana. Portanto, não se trata apenas de um contato superficial entre nós, trata-se de uma união teológica, embora vivamos em estruturas diferentes. E também com as outras Igrejas protestantes estamos ligados mediante uma interpretação comum da fé cristã, justamente a protestante. Depois de Lund, devemos refletir sobre tudo isso e devemos fazer isso juntos, junto também com a Igreja Católica Romana. Porque, de fato, não somos independentes. Na grande família cristã, há vínculos complexos. Como em todas as grandes famílias humanas, há os fenômenos de prudência e de ciúme, existem feridas também graves para curar, mas eu espero que haja sobretudo amor. Devemos nos encontrar e conversar aberta e claramente, e, por isso, o Congresso de Trento promete ser uma ótima oportunidade. Além disso, um bom exemplo dessa práxis ecumênica abrangente, para mim, foi o momento, durante a última sessão do Secretariado de Atividades Ecumênicas (SAE), na metade do ano, em Assis, quando rezamos todos juntos com a oração comum católico-luterana, com a participação de todas as outras Igrejas protestantes presentes.

Nas declarações expressadas em Lund, especialmente da parte protestante, veio à tona o tema da reconciliação: "Jesus Cristo nos chama a ser embaixadores da reconciliação". Isso deveria se manifestar na partilha da mesma mesa e na consideração recíproca de ser Igrejas de Cristo em um plano de paridade e de reciprocidade. Você acha que é uma meta ainda distante?

Eu não sou um profeta. Não sei quanto tempo ainda será preciso para se chegar a essa meta. Para mim, são mais importantes a direção e o caminho, que me parecem certos. A divisão entre nós, cristãos, é um escândalo, e o ecumenismo não é algo que, como cristãos, podemos escolher abordar ou não. Confessamos juntos no Credo uma Igreja universal, somos batizados com um batismo comum, conhecemos a vontade de nosso Senhor, que "somos uma coisa só". A divisão entre as Igrejas é um pecado. Tentar, no presente, com todas as nossas forças, superar esse pecado para testemunhar juntos Jesus Cristo é uma das tarefas mais importantes. Reformar as Igrejas hoje significa, em primeiro lugar, reconciliar. Estou muito contente por já ter ouvido algumas vezes o Papa Francisco pronunciar a "diversidade reconciliada", um conceito que, antes dele, só foi usado por representantes protestantes. E, quanto à Santa Ceia, espero que, um dia, se chegue à hospitalidade eucarística. Mas, sobre essas matérias, é preciso falar de forma mais aprofundada entre as Igrejas interessadas.

Há alguns anos, você é pastor da Itália e, como decano da Celi, goza de um observatório particular. Certamente, em relação à Alemanha, não há comparação em termos da consistência e da intensidade das relações entre protestantes e católicos. O que o ecumenismo italiano dos pequenos números está lhe transmitindo?

Quando eu cheguei à Itália há seis anos, eu pensava que os protestantes vivessem em uma espécie de" gueto ", certamente não no sentido de estarem encerrados em um bairro particular, mas espiritualmente. Em vez disso, desde o início, experimentei que há um grande interesse por parte de muitos católicos em relação ao protestantismo. Em Turim, vivemos também uma espécie de ecumenismo cotidiano, porque não temos uma igreja nossa, mas somos hóspedes para o culto de um convento franciscano. Por um lado, quando me tornei decano, descobri que a situação turinense é bastante semelhante à de outras comunidades nossas. Por outro lado, constato que também há boas relações com as Igrejas protestantes.

Por isso, eu me pergunto, às vezes, se podemos ser neste país como um eixo entre católicos e as outras Igrejas protestantes. Em todo o caso, eu gosto das relações pessoais que emergem da realidade dos pequenos números. Antes, eu comparei o ecumenismo com a imagem da família. E é uma realidade perceptível. Na Alemanha, eu também tive experiências ecumênicas positivas. Eu era responsável por uma casa de retiro espiritual e colaborei muito com os jesuítas e outros católicos. Depois, há um nível importante de ecumenismo que é mais formal e que, muito raramente, atinge a vida das paróquias e das comunidades. Eu vejo no ecumenismo italiano dos pequenos números – para usar a sua definição – uma preciosa oportunidade que, para ser tal, requer um compromisso pessoal mais vinculante em relação aos "grandes números".

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