Preconceito e espera em Mariana, epicentro da dependência da mineração

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06 Novembro 2016

Atingidos pelo rompimento da barragem convivem com discriminação em Mariana e têm dificuldade de se acostumar com a nova rotina urbana.

A reportagem é de Heloísa Mendonça, publicada por El País, 06-11-2016.

"Já ouvi gente falando que devia ter morrido todo mundo na tragédia de Mariana", conta com indignação Sandra Quintão, ex-moradora do vilarejo de Bento Rodrigues, um dos mais devastados após o colapso da barragem de Fundão, da mineradora Samarco. Há um ano, ela viu, em poucos minutos, seu bar e o casarão centenário herdado do pai desaparecerem e serem levados pela enxurrada de lama produzida após o rompimento do reservatório de rejeitos. Agora, além de ter que recomeçar a vida do zero, precisa enfrentar o preconceito de alguns moradores da cidade que a acolheu.

Em um município fortemente dependente da mineração em que a atividade emprega direta ou indiretamente grande parte dos moradores, os atingidos são apontados por uma parcela da população como os culpados pelo complicado momento econômico que vive a região. A acusação irrita Sandra: "Tem gente revoltada com os atingidos pela lama, falando que Mariana está quebrando sem a Samarco e que nós estamos bem, vivendo de aluguel aqui na cidade e ganhando salário da empresa. Como podem dizer que estamos bem?", questiona.

Para completar o cenário hostil, o jornal local Ponto Final, publicou, no início do ano, um artigo de um morador que acusava os desabrigados de serem "aproveitadores" da Samarco, que teve suas atividades embargadas desde o rompimento da barragem e acabou comprometendo a arrecadação e o comércio de Mariana. Até o ano passado, segundo a prefeitura do município, cerca de 80% da arrecadação do município vinha da atividade mineradora, principalmente da Samarco e de uma das suas operadoras: a Vale.

"Quem construiu aquela barragem bem acima da nossa comunidade foram eles. Se a Samarco devolver as minhas coisas, a minha casa e o meu restaurante, eu vou dizer 'tchau Samarco', eu quero viver a minha vida sem ela", desabafa Sandra, que começou a vender suas coxinhas e doces - famosos no povoado de Bento Rodrigues - na feira para complementar a renda da família. Para a ex-moradora de Bento Rodrigues, embora muitas pessoas tenham a convicção de que o desastre poderia ter sido evitado pela mineradora, hoje uma parcela só pensa na importância da empresa voltar a operar para que a atividade econômica da cidade melhore. "Eles criticam até o fato do pessoal de Bento Rodrigues fazer churrasco todos os fins de semana, isso era normal lá, faz parte da nossa cultura. Somos alegres mesmo, não podemos ficar só chorando, não".

Após a tragédia, as famílias desabrigadas passaram a receber da Samarco um auxílio financeiro para retomarem suas vidas após uma recomendação do Ministério Público. Todos foram alocados em casas alugadas em Mariana e as famílias que perderam sua fonte de renda, como a de Sandra, passaram a ganhar um salário mínimo, mais 20% para cada dependente e uma cesta básica. Algumas pessoas também já receberam um adiantamento de 20.000 reais enquanto as indenizações das propriedades estão sendo negociadas."Há realmente um preconceito. As pessoas acabaram fazendo uma associação errada. Justamente quando os ex-moradores começaram a receber esse cartão de auxílio exigido pelo Ministério Público, a Samarco iniciou as demissões, mas isso é um direito deles, eles são as vítimas", explica o promotor da comarca de Mariana, Guilherme Meneghin, que critica a atuação da empresa após a tragédia. "A Samarco tem SE negado reconhecer alguns direitos das vítimas, na verdade, só reconhecem quando ajuizamos alguma ação", explica.

"Meninos da lama"

A discriminação pelos atingidos não poupou nem as crianças de regiões afetadas pela tragédia que passaram a estudar em escolas de Mariana. "Eles são chamados de os meninos da lama pelos outros colegas", conta a professora Angélica Peixoto, ex-moradora de Paracatu de Baixo, outra região bastante afetada pela enxurrada de lama. Lá, cerca de cem famílias ficaram desabrigadas. Desde a tragédia, Angélica dá aulas só para os alunos que vieram de Paracatu em uma escola em Mariana na parte da manhã. No período da tarde, no entanto, as aulas são para todos os estudantes juntos. "Todos os dias conversamos sobre o desastre e explico sempre que não podemos nos deixar afetar por essas brincadeiras de dizer que viemos da lama. Foi uma tragédia que aconteceu com a gente, não escolhemos", explica a professora.

Segundo o promotor Guilherme Meneghin, várias denúncias sobre o preconceito sofrido pelos atingidos chegaram à promotoria de Direitos Humanos Ministério Público de Mariana que já instaurou, há três meses, um inquérito civil para apurar os fatos, como o da criação de um abaixo-assinado exigindo a saída dos alunos atingidos da escola para onde foram enviados. Após o MP propor uma ação pública contra José Fausto, que foi quem escreveu no jornal local que todos os atingidos estavam "aproveitando do ocorrido para extorquir dinheiro e levar alguma vantagem", o autor do texto resolveu se retratar. Um pedido de desculpas será publicado no jornal.

As dificuldades enfrentadas pelos novos moradores de Mariana, no entanto, não se resumem ao preconceito. Para muitos, passado um ano, o mais difícil ainda é se acostumar com a nova rotina urbana."Olha ali para fora, não tem um pé de árvore, não sei o nome de um vizinho sequer. Morar no campo era uma opção nossa por ser um lugar tranquilo e onde conhecíamos todo mundo. Sinto muita falta", lamenta Angélica, que olha desolada pela janela. No horizonte, o único que ela consegue ver são casas e edifícios. A distância que se estabeleceu entre os parentes e os ex-vizinhos de Paracatu, que atualmente vivem espalhados por Mariana, também entristece a professora. "Estamos perdendo o vínculo, não conseguimos encontrar muito, antes era só caminhar pela rua".

Sentados no sofá da casa, os três filhos de Angélica confessam se sentirem engaiolados dentro da nova casa. "A verdade é aqui na cidade não tem muito o que fazer. Agora é bem difícil encontrar os amigos, jogar bola", afirma Vinícius de 19 anos. A irmã Bianca, de 16 anos, perdeu a liberdade de andar sozinha pela cidade como fazia em Paracatu. "Agora tivemos que colocar um horário para minha filha voltar para casa, essa cidade é muito mais violenta e perigosa", explica a professora.

Compasso de espera

A ansiedade de saber quando poderá finalmente recomeçar sua vida em uma nova casa que realmente será sua outra vez tem tirado o sono de Angélica. Os reassentamentos das famílias estão previstos para 2019 conforme definido em um acordo assinado pela Samarco com os governos federal, de Minas Gerais e Espírito Santo. "Ainda temos que esperar no mínimo 3 anos para aí sim recomeçar, é um compasso de espera muito complicado", reclama.

No caso de Bento Rodrigues, a Samarco já comprou o novo terreno onde uma nova comunidade será reconstruída. Os moradores escolherem uma área a nove quilômetros do antigo distrito, batizada de Lavoura. "O que tínhamos lá queremos aqui, o campo de futebol,a praça de São Bento com a igrejinha, não queremos muito mais que isso, só que seja parecido com o nosso antigo Bento", conta Antônio Quintão, um ex-morador do vilarejo, sentado em um tronco de árvore no terreno onde a cidade será construída. O terreno já é conhecido por todos, já que fazia parte do caminho para chegar a Bento. Esperançoso, ele acredita que obra será entregue no tempo estimado já que a construção é "uma miniatura comparada ao tamanho da Samarco e suas controladoras".

No caso de Paracatu de Baixo, a área escolhida pela população fica bem perto do lugar antigo e se chama Lucila. Outro reassentamento está previsto para 55 famílias do distrito de Gesteira que foram afetadas pela tsunami de lama. O local escolhido por eles fica na área denominada "Macacos" e fica bem perto da antiga comunidade.

Os programas de reconstrução dos distritos diretamente impactados pelo rompimento de Fundão serão executados pela Fundação Renova, uma instituição criada pela Samarco e suas acionistas Vale e BHP Billiton. A fundação, que de alguma forma tenta assumir o ônus da tragédia, desvinculando o nome das empresas ao processo, também conduzirá os programas de recuperação ambiental e reparação socioeconômica previstos no acordo firmado da Samarco com o Governo Federal.

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