As zonas urbanas e a elite agrária da Colômbia mobilizaram a vitória do ‘não’

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05 Outubro 2016

Mais da metade dos departamentos que formam a Colômbia votaram sim para os acordos de paz com a guerrilha das FARC no plebiscito de domingo. 19 de 32. Mas não foi suficiente. O voto negativo de Antióquia, Santander, Norte de Santander e Cundinamarca foi suficiente para que o país tenha de voltar à mesa de negociações. Dos mais de seis milhões de votantes que disseram não, estas regiões contribuíram com mais de dois milhões. “As zonas urbanas foram determinantes para o resultado”, explica Ariel Ávila, analista política da Fundación Paz y Reconciliación.

A reportagem é de Ana Marcos, publicada por El País, 04-10-2016.

A campanha pelo não baseada no medo de que o país caminhe para o que os opositores denominam “o castrochavismo venezuelano” conseguiu passar seu recado. Em parte da população existe a certeza de que Timochenko, líder das FARC, “é um homem poderoso que chegará a ser presidente em 2018”. Calou fundo também a ideia de que a negociação traria mais impostos a um país imerso na recessão econômica. Não ajudou a baixa popularidade do presidente Juan Manual Santos nem a má imagem da guerrilha depois de meio século de guerra.


As zonas urbanas e a elite agrária da Colômbia mobilizaram a vitória do ‘não’ (Fonte: El País)

Os quatro departamentos, com grandes metrópoles, responsáveis pelo triunfo do ‘não’ desenham um círculo de rejeição no centro do país, com exceção do distrito federal de Bogotá, onde o sim se impôs, mas não foi suficientemente forte. Era consenso entre os estadistas e os cidadãos que a Antióquia, bastião do ex-presidente Álvaro Uribe, principal opositor do processo liderado por Santos, continuaria a seguir as ordens de seu líder. Em Medellín, a capital de uma região que viveu estigmatizada pelo regime de terror de Pablo Escobar, mas que não sofreu o conflito armado com a mesma virulência que as zonas rurais, o não ganhou com 62% dos votos.

Seus vizinhos de Santander, fustigados pelo paramilitarismo, também não aceitaram o que foi pactuado durante quatro anos em Havana. “Em Bucaramanga, que não sentiu a guerra, a rejeição foi de 55,11%”, aponta o analista. Algo similar aconteceu em Cúcuta, a capital do Norte de Santander, que faz fronteira com a Venezuela. Seus moradores votaram pelo não em 65,3% enquanto seus vizinhos de departamento no Catatumbo, zona liderada por três guerrilhas e narcotraficantes, apostaram em uma alternativa à guerra. “A classe baixa que passa 18 horas por dia trabalhando e quase não tem tempo de ler, a média baixa e a rica agrária disseram ‘não’”, explica Ávila. Os fazendeiros colombianos compraram e difundiram a mensagem de que com a suposta chegada do socialismo à Colômbia “a propriedade privada corria risco”.

O especialista também identifica uma geração, entre 25 e 35 anos, criada durante os oito anos que Uribe esteve no poder, e que “assumiu o discurso de que isso não era uma guerra, mas uma ameaça terrorista” com a qual era preciso acabar de uma vez. A estes jovens se unem os acima de 50 anos, especialmente nas cidades, que aceitaram a mensagem de que esta era “a paz da impunidade” porque os comandantes máximos das FARC não iam para a cadeia segundo o acordado na Justiça Especial.

“O mundo rural viveu o pior do conflito e optou pelo ‘sim’”, analisa Ariel Ávila. Os cinco estados mais atingidos pelo conflito — Chocó, Cauca, Nariño, Putumayo e Vaupés — decidiram acreditar no perdão das FARC. Estas regiões formam o segundo círculo no qual se dividiu na noite de domingo o mapa do país, o da periferia, onde todos os atores da violência na Colômbia perpetraram as maiores matanças. Em dezembro de 2015, o Pastor Alape, comandante da guerrilha, viajou para Boyajá para pedir perdão aos familiares dos 79 assassinados e 100 feridos resultantes de um cilindro explosivo na igreja do povoado. Os vizinhos tomaram a palavra e 95% a levou às urnas em forma de sim.

Por que Caquetá, Meta ou Tolima, zonas igualmente afetadas, votaram contra? “O resultado global nesses departamentos é o ‘não’”, reconhece a especialista, “mas é preciso abrir o mapa e ver que no sul de Meta, região muito atingida, disseram ‘sim’”. O mesmo acontece em San Vicente de Caguán, a capital da região de desocupação durante os acordos do ex-presidente Pastrana, a cidade onde a extorsão era outra forma de rotina, aprovou o pacto. “A divisão nestes lugares tem muito a ver com a campanha emotiva que se fez”, diz Ávila. O rancor da guerra foi mais forte.

O celeiro de votos de Santos nas eleições passadas, a região Atlântica, também serviu de apoio para o presidente. Foram votar 1.147.250 pessoas, 858.325 menos do que no segundo turno das eleições presidenciais de 2014, entre outras razões pelas inclemências climáticas provocadas pelo furacão Matthew. Os níveis de participação se aproximaram de 30%, quando segundo os resultados eleitorais anteriores poderia ter chegado a 60%. “Além da chuva, na Colômbia a abstenção costuma ser de 50% em eleições normais; neste caso, se esperava 30% a mais e no fim foi menos, 62% de abstenção”.

Aos que ficaram em casa, as pesquisas já os tinham mais ou menos localizados. Os do não oculto esperaram até chegar às urnas para dizer sua verdade. “Denomina-se a síndrome do bem pesquisado”, propõe Ávila, “as pessoas não gostam de parecer ignorantes e menos ainda neste caso, dizendo não a algo tão bonito quanto a paz”.

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