O que ganhamos perdendo. Artigo de Francisco de Roux

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04 Outubro 2016

“Lutávamos para superar a crise espiritual do país que nos mergulhou na destruição de nós como seres humanos. Sonhamos que íamos dar um primeiro passo aprovando a negociação com as FARC, mas não conseguimos o que queríamos. Seguramente porque nós também fazemos parte da crise, como colombianos que somos”, escreve Francisco de Roux, S.J., em artigo publicado por Jesuitas Colombia, 03-10-2016. A tradução é de André Langer.

Francisco de Roux Renfigo, SJ, é sacerdote jesuíta colombiano, fundou e dirigiu o Programa de Desenvolvimento e Paz do Madalena Médio, foi provincial da Companhia de Jesus na Colômbia, homem próximo das comunidades de camponeses e vítimas da violência e um sonhador e construtor da paz no país.

Eis o artigo.

Nós tínhamos convidado para um voto em consciência, a respeitar aqueles que pensaram diferente de nós, a participar do plebiscito deixando claro que aceitávamos o resultado e que construiríamos a partir do resultado, independentemente de qual fosse.

Em consciência, explicamos as razões que nos levaram a lutar pelo “Sim”, convencidos de que era o melhor para o país e convencidos de que com as nossas razões podíamos convencer a maioria, e perdemos.

Não lutávamos pelo futuro político do presidente Santos, nem tampouco contra o futuro político do ex-presidente Uribe, nem mesmo pelo futuro político das FARC. Importava somente que pudéssemos viver como seres humanos: esta foi razão da nossa luta.

Lutávamos para superar a crise espiritual do país que nos mergulhou na destruição de nós como seres humanos. Sonhamos que íamos dar um primeiro passo aprovando a negociação com as FARC, mas não conseguimos o que queríamos. Seguramente porque nós também fazemos parte da crise, como colombianos que somos.

Graças a Deus, a Colômbia é uma democracia. E a democracia, com a chamada para que o povo se manifeste, tem a virtude de nos colocar na realidade, gostemos ou não, como diz o verso de Machado: “A verdade é o que é, e segue sendo verdade, mesmo que se pense o contrário”.

Um dos argumentos mais usados pelos colombianos a favor do “Sim” no plebiscito foi pensar nas novas gerações.

E, no entanto, esta verdade, este resultado do plebiscito pode ser o caminho que nos leva a superar o mais profundo dos nossos problemas, que somos nós mesmos, divididos como mostra esta votação, excludentes, incapazes de ir juntos nos assuntos mais profundos; e sabedores de que nossas animosidades, nos debates acadêmicos e eclesiais e no seio das famílias, têm consequências letais entre os camponeses e na loucura da guerra onde os nossos jovens perdem a vida, ao passo que outros problemas graves do país seguem sem solução.

Felizmente, a declaração do presidente Santos deu tranquilidade a todos, porque reconhece a vitória do “Não” como democrata. Mantém o cessar-fogo bilateral. Chama a uma reformulação dos acordos de paz incorporando aqueles que ganharam. E ordena aos negociadores do Governo para que retomem o diálogo com as FARC dentro da nova realidade política.

De igual modo, é de se ressaltar a atitude construtiva e reconciliadora do ex-presidente Uribe, que reitera sua vontade de paz, convida as FARC para continuar na negociação e coloca os aspectos jurídicos, institucionais, sociais e econômicos que aqueles que votaram pelo “Não” consideram indispensáveis para serem incorporados aos acordos.

É uma notícia muito boa a declaração de Timochenko dizendo que as FARC nunca mais voltarão à luta armada.

Temos que aceitar com realismo e humildade que devemos rever nossas posições. Talvez não nos havíamos aceitado cruamente como parte do problema, e justamente porque somos parte do problema, da crise, acrescenta-se hoje a nossa responsabilidade de ser parte da solução.

Esta é a hora para nos ouvir, compreender e nos reconciliar com aqueles que por razões sociais, políticas, institucionais e éticas, pensam diferente de nós. De nos aceitar nas nossas diferenças. De rever em todas as partes o que é o que cada um tem que mudar, para que todos sejamos possíveis em dignidade em uma paz que traga a tranquilidade a todos e todas.

Vamos manter e redobrar o entusiasmo com que nos entregamos à causa da paz, mas vamos fazê-lo incorporando os outros. Aceitando sua compreensão diferente, ouvindo seus argumentos e temores e raivas. E colocando-nos mais além, no ser humano que somos todos e todas.

Pensamos que os elementos centrais dos acordos de Havana e o método do processo de paz seguem sendo válidos. Neles depositamos seis anos de trabalho de pessoas de extraordinário valor e da mais séria dedicação, homens e mulheres, civis e militares que são verdadeiros valores humanos da Colômbia; e, ao lado deles, guerrilheiros dispostos a abandonar a guerra que se transformaram ao longo do próprio processo. Eles mereceram a admiração e o apoio da comunidade internacional. Mas, o resultado da votação mostra que os acordos têm que ser reformados para serem viáveis política e institucionalmente na Colômbia de hoje.

E o que importa, finalmente, é a paz, que requer momentos de generosidade heroica, para que possamos superar a barbárie da violência política de uma maneira factível em uma pátria reconciliada.

Tenho pleno confiança em que Deus nos acompanha neste caminho. E que, hoje, vale mais do que nunca a palavra de Jesus quando nos disse que a verdade nos libertará. Que esta verdade do resultado do plebiscito, com toda a sua mistura de realismo humano e político, purifica e acrisola este processo. Que hoje nos colocamos a caminho para sermos humanamente maiores.

 

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