Quando os nazistas disseram: "Deus está conosco"

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24 Agosto 2016

Terrorismo, violência e Islã. Quando os nazistas usaram Deus para justificar a violência, disseram-se cristãos. Basta dizê-lo para que seja verdade?

A nota é de Simone M. Varisco, publicada no blog Caffè Storia, 23-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

À distância de quase um mês, continuam gerando discussões – e reflexões – as palavras proferidas pelo Papa Francisco no voo de volta da Polônia, no dia 31 de julho, sobre a ligação entre violência e Islã. "Se eu falasse de violência islâmica, também deveria falar de violência católica", dissera o pontífice, instado pela pergunta de um jornalista. Palavras que certamente merecem um aprofundamento.

É difícil comparar, embora na sua gravidade, atos de criminalidade cometidos por pessoas pertencentes às mais diversas religiões – "aquele que mata a namorada, outro que mata a sogra" – à prática sistemática da violência perpetrada por uma entidade organizada que a justifica com a religião. Perguntamo-nos, então: Deus nunca foi instrumentalizado por movimentos que se proclamaram cristãos? Sim, e para a justificação de alguns dos crimes mais terríveis da história.

"E, assim, eu creio, como sempre, que o meu comportamento está de acordo com a vontade do Onipotente Criador. Enquanto me mantiver de pé, serei contra o Judeu, defendendo a obra do Senhor." Assim escrevia Adolf Hitler em 1924, na sua autobiografia, o Mein Kampf. A recorrência de elementos de suposto cristianismo no primeiro nazismo é tão inquietante quanto inexplicável, a não ser com a loucura. O nazismo não foi cristão, de modo algum, nem mesmo no início. Ao contrário, o nazismo foi, desde logo, a própria antítese do cristianismo.

"Muitos judeus [...] foram brutalmente exterminados sob um regime sem Deus que propagava uma ideologia de antissemitismo e ódio. Esse assustador capítulo da história nunca deve ser esquecido ou negado", disse Bento XVI no dia 15 de maio de 2009, despedindo-se da Terra Santa ao término da sua peregrinação.

Os massacres dos nazistas, assim como os cometidos por todas as ideologias ao longo da história, não são senão "a ponta culminante de uma realidade ampla e difusa", "os símbolos extremos do mal, do inferno que se abre sobre a terra quando o homem esquece Deus e se substitui a Ele, usurpando-Lhe o direito de decidir o que é bom e o que é mau."

No entanto, isso não impediu que os nazistas usassem, durante anos, o nome de Deus e elementos da fé cristã para justificar a sua ideologia e os seus crimes. Hitler fez isso várias vezes no Mein Kampf, onde o Senhor é mencionado cinco vezes e Deus, 20. No manifesto do nacional-socialismo, Hitler não só chega a defender uma espécie de ecumenismo de Estado – "para o futuro do mundo, não importa que os católicos vençam os protestantes, ou os protestantes, os católicos […]. Quem tem sentimentos nacionais tem o dever sagrado, cada um segundo o seu próprio credo, de fazer com que não se fale apenas da vontade de Deus, mas que ela seja coloca em prática e não se deixe profanar a obra de Deus" –, mas também chegou a se dirigir, "em fervorosa oração: Deus onipotente, abençoe um dia as nossas armas; seja justo como sempre foste; julga agora se merecemos a liberdade; Senhor, abençoe a nossa luta!".

À imitação do Führer, a propaganda nazista, por longos anos, também se valeu da espiritualidade para a mobilização das massas. Antes da antirreligião de Estado, antes dos encontros noturnos em Nuremberg iluminados por braseiros, houve a tentativa de instrumentalizar a fé cristã. "Gott mit uns", Deus está conosco, recitavam as fivelas dos cintos dos soldados do Reich, lema que, na Idade Média, foi da Ordem Teutônica. "No cinturão dos soldados do Führer, estava escrito: 'Gott mit uns', Deus está conosco", comentou Enzo Biagi. "Hitler O tinha alistado; por sorte, Ele desertou."

Era o Positives Christentum, o cristianismo positivo do nazismo, uma falsa espiritualidade que se originou em ambiente luterano para o uso da propaganda nacional-socialista, privada de muitos dos dogmas do catolicismo, crivada de um ecumenismo mal interpretado e submetida  ao cientificismo, ao darwinismo e ao vegetarianismo orgulhosamente defendidos por Hitler.

Longe dos microfones da propaganda, porém, o cristianismo e, particularmente, o catolicismo continuavam sendo, para o Führer, "o primeiro terror espiritual", "o golpe mais duro que a humanidade recebeu" (Martin Bormann, Conversazioni a tavola, 1941-1944). Apoiado pela Reichskirche, a Igreja Evangélica Alemã, e pelo movimento protestante dos Deutsche Christen, os cristãos alemães, o cristianismo positivo acompanhou, junto com o neopaganismo e com um ateísmo substancial, toda a história do nazismo. Ao lado do caminho de Albert Speer, de Alfred Rosenberg e de Heinrich Himmler, tentou-se o caminho do Reichsbischof Ludwig Müller, o bispo do Reich da Igreja Evangélica Alemã. As primeiras vítimas? Os judeus, a Bíblia e os próprios cristãos.

Nenhum historiador dá fé, agora, à versão de um Hitler e de um nazismo cristãos. Muitas e muito profundas são as contradições entre o nazismo e o cristianismo. Apesar das duras e recíprocas tomadas de posição, no entanto, as adesões de algumas personalidades cristãs – também católicas – ao nacional-socialismo custaram à Igreja décadas de acusações, senão até de conivência com os crimes nazistas, no mínimo de não ter feito o suficiente para evitá-los. De nada valeram os inúmeros mártires, como Maximiliano Maria Kolbe, mortos in odium fidei junto com milhares de outros cristãos nos campos de extermínio; de nada valeram a Mit brennender Sorge de Pio XI e a tentativa de Pio XII de derrubar Hitler; de nada valeram os Galen, os Faulhaber e os Preysing; de nada valeu a conscientização do próprio Hitler de que "a Igreja Católica não tem senão um desejo: a nossa ruína": durante décadas, e pelos motivos mais variados, o estigma da cumplicidade foi lançado sobre a Igreja e sobre os cristãos.

O nazismo foi cristão? Certamente não. Adorou um deus próprio? Talvez, mas certamente não o Deus da Bíblia. Para nós, permanece uma lição para tentar compreender aquilo que continua sendo fato: os recentes atos terroristas foram cometidos por pessoas que se professaram muçulmanas, todas. Um elemento que merece uma reflexão profunda e, também e sobretudo, entre os fiéis muçulmanos, que também envolva as muitas resistências que, em alguns ambientes ou certas personalidades individuais, ainda são registradas ao se distanciar dos atos de violência.

Resta estabelecer com que grau de adesão real ou de declaração louca de intenções os terroristas se declaram muçulmanos. Um aspecto nada secundário, à luz de uma recente pesquisa do site Zaman Al-Wasl, próximo da oposição ao presidente sírio, Bashar al-Assad, que revelou que 70% das pessoas recrutadas pelo ISIS tem um conhecimento apenas básico da sharia, a lei islâmica; 24% têm conhecimentos intermediários; e apenas 5% pode se orgulhar de possuir um conhecimento aprofundado do Islã. Como se dissesse: não basta se proclamar algo – ou alguém – para realmente sê-lo. Um ditado universal, verdadeiro não só para a religião.

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