“Não é justo dizer que o islã é terrorista”, diz o Papa Francisco na viagem de volta da Polônia

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Por: André | 01 Agosto 2016

“Não é justo dizer que o islã é terrorista. Não gosto de falar em violência islâmica”. O Papa Francisco conversa com os jornalistas durante o voo de volta de Cracóvia para Roma e reponde a uma pergunta sobre o assassinato do padre Jacques Hamel, o padre degolado enquanto celebrava a missa.

A reportagem é de Andrea Tornielli e publicada por Vatican Insider, 31-07-2016. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Os católicos estão “chocados” com o bárbaro assassinato do padre Hamel. Você disse que todas as religiões querem a paz, mas ele foi assassinado em nome do islã. Por que quando você fala sobre o terrorismo nunca menciona a palavra islã?

Não gosto de falar em violenta islâmica, porque todos os dias, quando folheio os jornais, vejo violência aqui na Itália: aparece aquele mata a noiva ou a sogra, e estes são violentos católicos batizados. Se falasse em violência islâmica, também teria que falar em violência católica. Nem todos os islâmicos são violentos. É como uma macedônia disse, há violentos nas religiões.

Uma coisa é certa: em quase todas as religiões há sempre um pequeno grupo fundamentalista. Também nós os temos. E quando o fundamentalismo chega a matar – pode-se matar com a língua, o que diz o apóstolo Tiago, não eu, e se pode matar com uma faca –, não é justo identificar o islã com a violência.

Tive uma longa conversa com o imã da Universidade Al-Azhar: eles buscam a paz e o encontro. O núncio de um país africano me dizia que na capital de seu país sempre há uma fila de pessoas para passar pela porta santa e alguns se aproximam dos confessionários. Mas a maior parte vai para rezar no altar de Nossa Senhora, e há muçulmanos que querem fazer o Jubileu. Quando estive na República Centro-Africana fui me encontrar com eles, o imã subiu comigo no papamóvel. Pode-se conviver bem. Há grupinhos fundamentalistas.

Pergunto-me: quantos jovens nós, europeus, deixamos vazios de ideais, sem trabalho, que entraram no álcool e na droga e que vão para lá e se alistam nos grupos fundamentalistas? Sim, podemos dizer que o chamado ISIS é um Estado islâmico que se apresenta como violento porque quando mostram o seu cartão de identidade nos fazem ver como degolavam os egípcios. Mas este é um grupinho, e não se pode dizer, não é verdade e não é justo dizer que o islã é terrorista.

Além das orações e do diálogo, qual iniciativa concreta existiria para enfrentar a violência islâmica?

O terrorismo está em todas as partes. Recorde-se do terrorismo tribal de alguns países africanos. O terrorismo cresce quando não há outra opção. Agora digo algo que pode ser perigoso... Mas, quando se coloca no centro da economia mundial o deus dinheiro e não o homem e a mulher, isto já é um primeiro terrorismo. Foi expulsa a maravilha da Criação e colocou-se no centro o dinheiro. Este é um primeiro terrorismo de base... Pensemos nisso.

Santidade, a repressão na Turquia depois do golpe é, talvez, pior que o golpe de Estado: militares, juízes, diplomatas, jornalistas... Mais de 13 mil presos, além de 50 mil pessoas demitidas. Uma limpeza. Anteontem [na sexta-feira], o presidente Erdogan respondeu aos seus críticos que pensassem nos seus assuntos. Queremos perguntar-lhe por que não falou sobre isto até agora. Teme repercussões sobre a minoria católica?

Quando tive que dizer uma coisa de que a Turquia não gostou, mas sobre a qual eu estava seguro, eu a disse, com as consequências que vocês conhecem – respondeu o Papa com uma clara referência às suas palavras sobre o genocídio armênio. Mas estava seguro. Até agora, não falei porque ainda não estou seguro, com as informações recebidas, sobre o que está acontecendo aí. Escuto as informações que chegam à Secretaria de Estado, e as de alguns analistas políticos importantes. Estou estudando a situação, junto com a Secretaria de Estado, e a coisa ainda não está clara. É certo, sempre se deve evitar o mal aos católicos, mas ao preço da verdade. Existe a virtude da prudência, mas no meu caso, e vocês são testemunhas disso, quando tive que dizer uma coisa sobre a Turquia, eu a disse.

Como está depois da queda em Czestochowa

Eu estava com os olhos fixos na Nossa Senhora e esqueci o degrau. Estava com o incensário na mão e quando senti que estava caindo, me deixei cair, e isto me salvou. Se tivesse oposto resistência, teria sofrido as consequências. Assim, fui tudo bem.

Em seu primeiro discurso no castelo Wawel, imediatamente depois da sua chegada na Polônia, você disse que começa a conhecer a Europa centro-oriental por este país? O que lhe pareceu?

Era uma Polônia especial, porque estava uma vez mais invadida, mas pelos jovens! Cracóvia me pareceu tão bela; os poloneses tão entusiastas. Esta tarde, mesmo com toda a chuva, havia pessoas nas ruas, não apenas os jovens, mas também as velhinhas. Eu tinha algum conhecimento dos poloneses desde quando era pequeno, porque onde trabalhava o meu pai chegaram alguns poloneses. Eram bons e voltei a me encontrar com esta bondade.

Nossos filhos jovens ficaram comovidos com suas palavras que correspondem bem à sua linguagem juvenil. Como preparou estes exemplos tão próximos de suas vidas?

Eu gosto de falar com os jovens e gosto de escutá-los. Sempre me colocam em dificuldades, porque me dizem coisas em que não pensei ou que pensei de maneira incompleta. Jovens inquietos, criativos... e daí tomo esta linguagem. Muitas vezes tenho que perguntar o que significam certas expressões. Nosso futuro são eles, e devemos fazer o diálogo entre o passado e o futuro. Por isto, eu destaco tanto a importância do diálogo entre os jovens e os idosos, para que possamos dar também a nossa experiência. Que eles sintam o passado, a história, que a retomem e levem adiante com a coragem do presente. É importante.

Eu não gosto quando escuto dizer: ‘estes jovens dizem coisas estúpidas!’ Também nós dizemos muitas. Eles dizem coisas estúpidas e também coisas boas, como nós, como todos. Nós devemos aprender com eles e eles conosco. E assim se cresce sem fechamentos e sem censuras.

Existe uma pergunta que muitos se fazem nestes dias: a polícia australiana investiga novas acusações contra o cardeal George Pell. Desta vez, trata-se de acusações sobre abusos de menores. Na sua opinião, o que o cardeal deveria fazer?

As primeiras notícias que chegaram são confusas. Eram notícias de 40 anos atrás e nem sequer a polícia fez caso deles num primeiro momento. Depois, todas as denúncias foram apresentadas e neste momento estão nas mãos da Justiça. Não se deve julgar antes da Justiça. Se eu desse um juízo a favor ou contra, não seria bom, porque julgaria antes. É verdade, existe a dúvida. E existe também esse princípio claro do direito: ‘in dúbio pro reo’. Devemos esperar o curso da Justiça e não fazer primeiro um julgamento midiático, um julgamento das fofocas. Devemos estar atentos ao que a Justiça irá decidir. Uma vez que a Justiça falou, eu também falarei.

Na semana passada falou-se sobre a participação do Vaticano nas negociações para resolver a crise na Venezuela. É uma possibilidade concreta?

Há dois anos tive um encontro positivo com o presidente Maduro. Depois, ele pediu uma audiência no ano passado, mas foi cancelada porque ele estava com otite. Um tempo depois lhe escrevi uma carta. Sim, com as condições que se fazem nestes casos: pensa-se nesse momento, mas não estou seguro na possibilidade de que haja um representante da Santa Sé no grupo da mediação.

Antes de começar a entrevista coletiva Francisco quis recordar a jornalista italiana da RAI que faleceu em Cracóvia: “Gostaria de dar a vocês, porque são companheiros de trabalho, minhas condolências pela morte de Annamaria Bianchini. Hoje recebi sua irmã e suas sobrinhas. É uma coisa triste desta viagem”.

Em seguida, o Papa fez seus agradecimentos ao diretor da Sala de Imprensa vaticana, o padre Federico Lombardi, em seu último dia no cargo, e também ao Mauro, um dos encarregados dos equipamentos durante os voos papais. Ele também está se aposentando. “Gostaria de agradecer ao padre Lombardi e ao Mauro, porque esta será a última viagem que farão conosco. O padre Lombardi, por mais de 25 anos na Rádio Vaticano, e depois 10 anos nos voos papais. E Mauro, 37 anos como encarregado dos equipamentos. Agradeço-lhes muito”.

Ao final da entrevista coletiva, como introdução à Jornada Mundial da Juventude de 2019 no Panamá, o jornalista Javier Martínez Brocal, da Rome Reports, deu de presente a Francisco um sombrero panamenho, e o Papa o colocou por um instante.

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