“Devemos propor alternativas para a descentralização da cúria”. Entrevista com Víctor Manuel Fernández

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Por: André | 14 Junho 2016

Ele costuma ser um dos ‘alvos’ preferidos dos ‘resistentes’ à primavera de Francisco. Talvez porque saibam que o arcebispo e teólogo Víctor Manuel Fernándezseja a mão direita do Papa. Nesta entrevista exclusiva ao Religión Digital, o prelado argentino, reitor da Universidade Católica Argentina (UCA), sai ao encontro de algumas interpretações que se fazem de suas declarações. Reafirma que a cúria, que deve ser descentralizada, não é essencial para a missão do Papa e denuncia as resistências para a aplicação da Amoris Laetitia e para aproveitar “as novas possibilidades de evangelização” proporcionadas pelo Papa.

 
Fonte: http://bit.ly/1Yo8nEe  

A entrevista é de José Manuel Vidal e publicada por Religión Digital, 12-06-2016. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O Papa Francisco gosta de se apresentar como Bispo de Roma. Por que a antiga capital do Império romano segue sendo tão importante para a Igreja atual?

O Papa é pastor universal do ponto de vista da sua missão como Bispo de uma Igreja local. Isso quer dizer que a Igreja não entende que alguém possa ser pastor supremo de toda a Igreja se não é pastor de uma Igreja local. Isso é fundamental, e não tanto o fato de que essa Igreja local seja a de Roma.

No entanto, a realidade é que desde o começo, a Igreja local do Papa é a última diocese de São Pedro, ou seja, a de Roma. Qual é a qualificação teológica da necessidade de que essa diocese do Papa deva que ser exclusivamente a de Roma, não sei lhe responder. Teria que consultar um especialista. De fato, a sede do Papa sempre foi a Igreja local de Pedro em Roma.

De qualquer forma, falamos de Roma enquanto diocese, não enquanto cidade. Por isso, suponho que nada impediria que o Papa morasse em Guidonia Montecellio, por exemplo, que pertence à diocese de Roma, embora seja outro “comune”. Mas isto é uma elucubração desnecessária e bizarra, porque o que me interessa destacar é o núcleo fundamenta desta questão: que o Papa deve ser bispo, pai e pastor, de uma Igreja local e, como tal, recebe a missão de pastor supremo de toda a Igreja. Somente neste sentido, como uma provocação para o debate, disse que se poderia pensar se necessariamente o Papa deve morar todo o tempo em Roma.

Não parece, às vezes, que a diocese de Roma acaba sendo identificada com as estruturas da cúria romana?

Uma coisa é a diocese de Pedro e outra coisa são as estruturas da cúria vaticana, que tem importância somente na medida em que é uma ajuda ao Papa e ao Colégio dos Bispos. A cúria não é parte essencial de sua missão. É apenas uma ajuda “para o exercício” do seu ministério, que pode ser estruturada de maneira muito diferente ao longo da história. Além disso, poderia ser uma estrutura mínima.

Penso que é discutível se alguns escritórios da cúria podem ou não estar fora de Roma. Por exemplo, o Pontifício Conselho para a Cultura ou a Pontifícia Academia da Vida ou a Congregação para as Causas dos Santos, poderiam estar em outros lugares do mundo. Com o avanço crescente das comunicações isto não seria um problema para a tarefa do Papa. Na verdade, há cardeais da cúria romana que viajam com muita frequência para diversos lugares do mundo, e também é um fato que há cardeais e bispos que colaboram com o Papa à distância, sem necessidade de morar na cidade de Roma. Seria algo que poderia ser discutido sem dificuldade e, talvez, em algum caso, ajudaria para uma “saudável descentralização”.

Você participou, em outubro do ano passado, de um simpósio que reuniu grandes teólogos na sede da revista La Civiltà Cattolica para refletir sobre a reforma da Igreja. É possível ter acesso às suas conclusões?

Logo será editada uma obra que reúne as diversas conferências. A partir de um profundo espírito de comunhão com o Papa Francisco, ali se procurou recolher sua própria proposta de reforma da Igreja, seu convite para pensar em um estilo mais sinodal, e o pedido que fez na Evangelii Gaudium – que não parece ter tido eco – de outorgar maiores atribuições às Conferências Episcopais, incluindo alguma autoridade doutrinal. Os avanços são muito lentos, não porque o Papa não os incentive, mas porque os teólogos e pastores não parecem reagir com generosa criatividade.

Como acredita que está sendo feita a recepção da Amoris Laetitia?

Em alguns lugares está acontecendo com muito entusiasmo, generosidade e responsabilidade. Particularmente, muitos levaram a sério, felizmente, os capítulos centrais – os capítulos 4 e 5 – que são aqueles que o Papa quis destacar. Outros se entretêm excessivamente – a favor ou contra – na questão da comunhão aos divorciados recasados. Mas sabemos que o Papa, embora tenha aberto essa porta a partir do discernimento especial de algumas situações, considerou-o um tema secundário, como mostra o pouco espaço que ocupa no documento em comparação com os demais temas. Particularmente notável é a reação de alguns grupos católicos que resistem a aplicar o documento, com toda a riqueza que contém, somente porque estão irritados com o modo como o documento trata das situações irregulares.

A recepção dos documentos anteriores foi diferente?

Na realidade, não. Embora alguns grupos minoritários tenham reagido com especial virulência contra a Amoris Laetitia, também não foram entusiastas com a Evangelii Gaudium, e menos ainda com a Laudato Si’. Expressaram-se com relação a eles com ironia e desprezo. O olhar sobrenatural para a função do Papa na Igreja parece estar ausente nestes grupos. Mas, graças a Deus, essa não é a atitude da imensa maioria do Povo de Deus.

Por exemplo, nos últimos meses, na Argentina, houve fortes movimentos midiático-políticos com tendências a ridicularizar o Papa Francisco, mas uma recente pesquisa organizada pelo poderoso jornal Clarín mostra que o Papa tem 75% de imagem positiva e apenas 4% de imagem negativa. Assim se confirma a discreta e silenciosa fidelidade do Povo para além dos barulhos e das críticas.

Por outro lado, o testemunho que Francisco está dando ao mundo, ajudou a Igreja a ser mais levada em conta, a ser ouvida com mais atenção e se produzir uma nova receptividade da pessoa de Jesus. Os frutos deste dom do Espírito começarão a ser visto com o tempo, mas não podemos negar que se abriram para a Igreja novas possibilidades evangelizadoras que deveríamos aproveitar melhor.

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