O mapa da violência machista

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30 Maio 2016

Ao completar o primeiro aniversário das manifestações de #NiUnaMenos, o coletivo lança "A Argentina conta a violência machista", uma pesquisa online para desenvolver o Primeiro Índice Nacional sobre como o sexismo cotidiano afeta as mulheres.

A reportagem é de Soledad Vallejos, publicada por Página/12, 29-05-2016. A tradução é de Henrique D. Lucas.

Em 3 de junho, quando completar um ano da convocação que encheu praças e ruas de toda a Argentina, de pessoas contrárias à violência machista, será lançada pela primeira vez uma pesquisa nacional para coletar dados sobre a vida cotidiana destes ataques sexistas. Será um questionário online, que estará disponível por três meses no site niunamenos.com.ar (no subdomínio contalaviolenciamachista.niunamenos.com.ar), e cujas perguntas abrangem uma ampla gama de situações cotidianas que afetam as mulheres de todas as idades: as desqualificações baseadas em preconceitos, os sentimentos de culpa ou vergonha de ser mulher, o assédio diário de estranhos no espaço público (exibicionismo, o medo de ser vítima de um abuso sexual), os exercícios de poder sofridos na atenção da saúde sexual e reprodutiva, o controle e os indícios de violência no casal, para além dos casos extremos. A campanha "A Argentina conta a violência masculina" permitirá elaborar, a partir das respostas, o Primeiro Índice Nacional de Violência Machista, que poderá chegar a traçar um mapa das vidas cotidianas das argentinas.

O questionário é anônimo; ele foi desenvolvido de modo colaborativo com especialistas de diferentes áreas, cujas propostas e observações se cristalizaram em perguntas para detectar violências sociais, físicas, psicológicas, obstétricas, simbólicas, sexuais e reprodutivas; além disso, detectar a relação com o Estado e o uso de recursos que deveriam ser destinados para a prestação de assistência: o episódio de violência foi denunciado?; se foi, onde e como foi a atenção provida? Ao estar online, pode-se chegar a todos os cantos do país e por isso mesmo recorrer às experiências de vida de mulheres de todas as províncias, de todas as idades e todos os níveis socioeconômicos e educacionais. "É evidente que a origem do feminicídio é o machismo. Por isso, quanto mais mulheres responderem, mais representativo e descritivo será o resultado. Mas para que a Argentina conte a violência masculina, são imprescindíveis tarefas de conscientização e difusão", assinalou Ingrid Beck, do coletivo #NiUnaMenos.

"Acredito que não há mulher que não clique" sim "pelo menos uma vez em qualquer uma das opções que há na pesquisa", disse Beck.

"Uma pesquisa deste tipo também permite que você perceba que o acontece com você acontece com as demais, é como se sentir acompanhada, e não sozinha em relação a isso. E, finalmente, isso serve para gerar mudanças no senso comum social; vimos com as convocações do ano passado, que deixaram claro que há coisas que não são mais socialmente habilitadas".

As perguntas (menos de 200, todas de múltipla escolha) podem ser respondidas por etapas. A primeira pergunta acerca de sinais claros, mas muitas vezes naturalizados, que podem ter lugar no espaço público ou no âmbito privado: "Alguma vez já te disseram em particular ou fora de contexto uma grosseria?", "Alguma vez já te disseram algo rude em público? "" Alguém desconhecido tocou alguma/s parte de seu corpo sem o seu consentimento? "" Alguma vez algum conhecido de seu entorno (colega de trabalho, estudos, vizinho ou familiar) tocou alguma/s parte/s de seu corpo sem o seu consentimento?". Esta seção do questionário também deposita o foco em questões ainda mais cotidianas, como a desqualificação - pública ou privada - com o argumento "e o que você pode esperar se você é uma mulher ..." ou o exibicionismo cometido por conhecidos ou desconhecidos.

A violência machista social inevitavelmente tem um correspondente na vida privada das mulheres. Isso também é parte do levantamento, que acompanha essas pistas nos comportamentos: "Alguma vez você já sentiu vergonha de ser mulher?" "Alguma vez você já teve a sua auto-estima para baixo por causa de sua condição de mulher"?; outras perguntas indagam sobre o isolamento que essa baixa auto-estima pode levar, vinculada com o sentimento de desvantagem de ser uma mulher, e que pode ter um impacto no abandono de um nível de escolaridade, o medo de fazer uma denúncia ou reclamação, ou a decisão de candidatar-se a um emprego (ou pedir um aumento). Neste impacto cotidiano, também circula o medo de ser insultada, perseguida, agredida fisicamente, a ser objeto de sussurros por parte de homens, todas as situações que são objeto de questionamentos para levantar o panorama no país.

A escolha do questionário ser anônimo - embora se peça dados relacionados à educação, habitação e renda para permitir fundamentar a pesquisa - foi feita de maneira pensada e amadurecida. "Não é ousar contar, não é expor-se em defesa de alguma coisa, mas se trata de colaborar com que a violência machista seja visível em todos os espectros possíveis", sublinhou Beck. "Frente a invisibilização da violência contra as mulheres todos os dias, fazer um Índice Nacional é uma maneira de ter algum registro do que acontece no país. Não existe, mas está lá. Os únicos registros de efeitos da violência masculina que existem atualmente são os de feminicídios ", levantados anualmente pela ONG La Casa del Encuentro e o Registro Nacional de Feminicídios da Justiça Argentina que no ano passado criou uma Secretaria da Mulher na Suprema Corte, a partir de dados de 2014.

Outra seção do questionário refere-se às facetas da violência masculina no cotidiano de casais: questionamentos sobre rotinas ou gostos, desconfianças e ciúmes que se convertem em exercícios de controle (sobre amizades, atividades, redes sociais, e-mails, telefones, objetos pessoais). A observação também abrange situações como " alguma vez seu parceiro lhe disse que você é lenta, inútil ou incompetente fazendo alguma coisa?", ou " te fez responsável ​​pelos problemas dele", "zombou do seu raciocínio", "recusou-se a dialogar ou discutir um assunto com você, desqualificando o seu ponto de vista”. As perguntas sobre condutas violentas são minuciosas no momento de sublinhar os episódios que os especialistas frequentemente apontam como momentos do ciclo da violência, esse caminho em que o autor do crime submete à vítima cronicamente e que, nos casos mais extremos, termina em feminicídio. Nesses passos estão contempladas as ameaças (verbais, físicas, com armas) para continuar um relacionamento ou para obrigar a fazer ou deixar de fazer algo em particular, o que pode incluir relações sexuais; maneiras de suscitar o medo e exercer violência psicológica, mas também as formas que a violência econômica adota: "Ele já te ameaçou de parar de pagar-lhe uma coisa, se você não fizesse o que ele pedia?" "Ele te restringiu o uso de dinheiro?" "Ele te impediu de usar o dinheiro que era dos dois?" "Ele te impediu de usar o seu dinheiro?".

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