Marcha Mundial das Mulheres: “Uma forma de construção de alternativas”

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Por: André | 03 Setembro 2015

No marco da Quarta Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres realizou-se em Buenos Aires um encontro de formação com as integrantes do Cone Sul. Um espaço de análise sobre o contexto internacional com o objetivo de propiciar a reflexão sobre os desafios enfrentados pelo feminismo popular e pelas estratégias assumidas pelo Movimento.

A reportagem é de Camila Parodi e publicada por Marcha, 26-08-2015. A tradução é de André Langer.

Durante os dias 22, 23 e 24 de agosto, com a participação de militantes do Paraguai, Brasil, Colômbia, Turquia, Chile, Uruguai e Argentina realizou-se, no Anfiteatro Eva Perón da ATE Nacional, o encontro da Subregional Cone Sul da Marcha Mundial de Mulheres (MMM), um movimento internacional de grupos e organizações de bases que se nucleiam em ações feministas e anticapitalistas desde 2000 como tal.

No entanto, seus inícios remontam a 1995, contexto em que o neoliberalismo era fortemente hegemônico e impunha seu pensamento único, que propunha saídas individuais para a sua própria crise. Em contraposição, os movimentos sociais e as mulheres criaram alternativas a partir da construção coletiva e da mobilização permanente. É assim que após uma manifestação realizada no Canadá por mais de mil mulheres que percorreram 200 quilômetros lutando pela reivindicação de direitos básicos, surge a necessidade de compartilhar e replicar a proposta de uma marcha de mulheres.

Ali, as mulheres organizadas pela Central Única das Trabalhadoras e Trabalhadores (CUT) do Brasil tomaram conhecimento e junto com outras organizações participaram do primeiro encontro acontecido em 1998 em Quebec, no Canadá. Nesse marco elaborou-se a plataforma do Movimento que é composta de 17 reivindicações que exigem a eliminação da pobreza, assim como também da violência contra as mulheres. A partir de 2000, são realizadas ações internacionais que começam no dia 08 de março, Dia Internacional das Mulheres Trabalhadoras, e terminam no dia 17 de outubro, Dia Internacional Contra a Pobreza. Desta forma, põe-se de manifesto a relação explícita entre capitalismo e patriarcado, que denunciam, definindo o movimento como uma articulação feminista de organizações populares e de trabalhadoras.

O 08 de março começou com a realização da Quarta Ação Internacional, que se propôs o objetivo de enraizar e fortalecer as regionais das MMM diante da necessidade de unir a luta da defesa dos territórios das mulheres, isto é, a defesa dos próprios corpos, com os territórios onde se desenvolve a vida, o trabalho, a organização comunitária e as lutas. Nesse marco, o encontro da Regional Sul apresentou-se como um espaço de reflexão e balanço da conjuntura atual. Houve exposições das experiências presentes através de painéis, conversas e oficinas, finalizando com uma manifestação em frente aos escritórios da empresa transnacional Monsanto como claro exemplo da violência transnacional que o sistema capitalista e patriarcal exerce sobre os corpos-territórios.

Após dar as boas-vindas às companheiras de outros países que ali se encontravam o encontro começou colocando os “desafios continentais atuais”, eixo central de debate da formação. Ali, em seu começo, Nalu Faria, coordenadora brasileira da MMM em nível regional, reconheceu a complexidade que este campo do feminismo enfrenta no contexto atual já que é “um momento que exige muito de nós, somos talvez o movimento que tem a crítica mais radical ao atual sistema de dominação”.

Faria disse que atualmente o feminismo voltou a ter lugar nos debates políticos, e o caracterizou como “uma situação de recomposição” do mesmo. Advertiu que, paradoxalmente, se apresenta “cara legitimada e lavada do feminismo pelo mercado” distante do feminismo organizado, de forma que aparece despolitizado e isolado da luta de classes e individualista possivelmente “tingido em parte pelas linhas pós-modernas e queer do feminismo”, afastando-o da proposta do movimento que entende o feminismo a partir da luta coletiva e da organização de baixo para cima. Desta forma, a líder reconheceu que “há todo um debate que nos faz nos reafirmar como movimento político”. Para isso, o desafio deve se centrar “na construção de um projeto político comum a partir da articulação com outras forças políticas, mas integrando a perspectiva feminista”.

Na sequência, Claudia Korol, educadora popular da Equipe Lenços em Rebeldia, caracterizou o encontro como positivo para a unidade e chave para a construção da “identidade do feminismo que entendemos como popular”. Por esta razão, enfatizou a importância de ter começado o dia com uma homenagem aos 12 companheiros e especialmente as quatro companheiras vítimas do Massacre de Trelew, perpetrado pelo Governo de Lanusse, já que “a nossa memória faz parte dessa construção política” pelo que dá conta da intenção de continuidade da luta revolucionária. Nesse marco disse que “andar e caminhar com essa memória subversiva de todo o nosso continente e pensar-nos nessa busca, como foi nesse momento de unidade”, assemelha-se à identidade desse feminismo “que queremos ser”, reconhecendo-se como “parte dos movimentos populares e em marcha contra este sistema de múltiplas opressões”.

Ao enunciar os desafios próprios do momento, Korol recalcou que é em si mesmo um desafio para as feministas gerar um olhar continental e territorial sustentando ao mesmo tempo o acompanhamento a partir dos corpos e da vida cotidiana, compartilhando aqui o exemplo dos casos de criminalização de Relmu e Reyna. Por isso, quando entendemos a dominação deve ser em termos continentais e estratégicos, mas também deve dar-se a “a batalha por cada corpo” ao mesmo tempo, já que “cada corpo que fica prisioneiro é uma derrota de todas, assim como a vitória em liberdade é a vitória de todas”.

Para finalizar, a militante concluiu que nesta conjuntura “é preciso pensar um horizonte único anticapitalista, anticolonialista e antipatriarcal, desorganizando a violência que os sustentam” porque “não basta trabalhar nas fendas, vamos ter que fazer revoluções”. E para isso, reforçou a linha colocada por Nalu Faria previamente, “a forma é construindo uma força, fazendo alianças, organizadas e solidárias”.

Depois desta abertura, ocorreram simultaneamente seis oficinas, nas quais continuou o processo de partilha dos desafios do feminismo popular no contexto continental, mas partindo desta vez das diferentes experiências presentes no encontro. Com base nas mesmas, trabalhou-se sobre “a soberania sobre os nossos territórios e bens comuns; a luta contra a megamineração, o fracking, os hidrocarbonetos, as megarepresas e o déficit energético”. Também o direito de decidir sobre os nossos corpos e sexualidades, com a presença de integrantes da Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito, entre outras. Houve também um outro espaço onde se abordou “as violências contra as mulheres: tráfico, exploração sexual, feminicídio,” e as experiências da campanha #NiUnaMenos.

Outro tema central na formação foi “a militarização: criminalização e judicialização diante do avanço do extrativismo e do modelo hegemônico na região”, que contou com a participação das companheiras do Congresso dos Povos da Colômbia e de Relmu Ñamku, militante mapuche criminalizada por defender suas terras de uma petroleira. Ela fez um comunicado em solidariedade para cada companheira entendendo a dualidade entre a crítica ao sistema em geral, mas também atendendo à particularidade da luta e do acompanhamento daqueles que vivem em seus próprios corpos. Por último, foi realizada também uma oficina sobre “mulheres e trabalho. Divisão sexual do trabalho, trabalho reprodutivo, trabalho formal e precarizado. A economia do cuidado”, onde se problematizou o papel das mulheres trabalhadoras e a tensão que este provoca entre as organizações sociais, os sindicatos e a vida cotidiana.

As conclusões obtidas nestas oficinas foram compartilhadas no dia seguinte, no qual se prosseguiu com a exposição de experiências concretas de construção de alternativas para o enfrentamento da mercantilização da vida. Aqui participaram integrantes da Campanha Nacional Contra as Violências contra as Mulheres e da Casa das Mulheres do Movimento Popular Dignidade, Socorristas em Rede, Bairros em Pé, Central de Trabalhadoras/es da Argentina, partilhando também a ação coletiva na qual integrantes de diversas organizações do campo popular argentino consolidaram um espaço de formação política feminista.

O domingo terminou com a realização de uma plenária geral, na qual, por um lado, foram lidos os diferentes comunicados feitos em solidariedade às companheiras criminalizadas para depois dar tempo para o debate das diferentes temáticas que atravessaram os dois primeiros dias do encontro, como trabalho, criminalização dos protestos, extrativismo e violências contra as mulheres, entre outros.

Já no encerramento do evento, Nalu Faria, da MMM, referiu-se ao encontro para a Marcha como “muito positivo, já que conseguimos os objetivos que nos propusemos, de marcar, por um lado, com uma ação regional e ao mesmo tempo convocar e articular as mulheres da Argentina”. Nesse marco, afirmou que com a dinâmica realizada obteve-se “um debate bastante amplo a partir das nossas resistências e alternativas frente ao modelo de sociedade atual”. Reforçou a necessidade de produzir um debate mais amplo no qual a perspectiva feminista possa se articular, já que para Faria a importância do Movimento é que o mesmo “organiza as mulheres a partir do seu trabalho e realidade, mas conecta esta ação com a realidade nacional e internacional”.

Para finalizar, em nome da Marcha Mundial, Faria recordou que o encontro terminaria com um protesto em frente aos escritórios da Monsanto, planejado com antecedência, com o objetivo de “marcar a nossa posição de movimento e de luta. Escolheu-se realizar esta ação simbólica para mostrar a nossa reprovação das transnacionais e do modelo que elas representam” e, na sequência, disse: “o nosso povo não tem necessidade da Monsanto,; necessita de soberania alimentar”.

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