“As empresas nos vigiam melhor que os Estados”. Entrevista com Ignacio Ramonet

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Por: Jonas | 14 Abril 2016

Pela mão de Barack Obama, a empresa Google planeja sua aterrissagem em Cuba. Mark Zuckerberg pede no Mobile World Congress,de Barcelona, internet “para os mais pobres” e a Apple se nega a fornecer os dados do telefone de um possível terrorista ao governo estadunidense. As GAFAM (Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft), rainhas de Silicon Valley, movimentam as fichas. Buscam mercado e a fidelização de seus clientes. No mundo, há 4,1 bilhões de pessoas sem acesso à internet, que vivem desconectadas desse Império da vigilância (Clave Intelectual, 2016), a respeito do qual Ignacio Ramonet (foto) fala em seu último livro.

 
Fonte: https://goo.gl/wMMAli  

Conversamos com este especialista em geopolítica, cofundador da ATTAC (Associação pela Tributação das Transações Financeiras para Ajuda aos Cidadãos) e diretor da edição espanhola de Le Monde Diplomatique, a respeito da crise sistêmica global, seus vínculos com as tensões entre segurança e liberdade e o panóptico tecnológico no qual vivemos.

A entrevista é de Izaskun Sánchez Aroca, publicada por Diagonal, 10-04-2016. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O que é isto considerado o império da vigilância?

O império da vigilância é esta espécie de articulação que foi criada entre os Estados, as grandes empresas que dominam internet e os sistemas de inteligência. É o resultado da facilidade técnica que existe hoje para nos vigiar, a partir do momento em que cada um de nós, nos países desenvolvidos, decidimos voluntariamente nos equipar com aparelhos como celulares, iPads  e computadores. Adotamos sistemas que permitem que organizações do Estado ou grandes empresas nos vigiem. Isto é a novidade a respeito da vigilância histórica. Consideramos que a existência destes instrumentos amplia o perímetro de nossa liberdade, mas ao mesmo tempo ampliamos a superfície de nossa vigilância.

A vigilância é um acidente. Paul Virilio disse que todas as vezes que se faz um avanço tecnológico surge um acidente não previsto. Quando se inventa a eletricidade, inventa-se a eletrocussão. Quando se inventa a internet, inventa-se a vigilância de massas. Antes a vigilância era um fantasma, um temor paranoico porque era impossível vigiar todo mundo. Hoje, a vigilância é possível.

Parece que esta vigilância, que envolve a perda de liberdades, é amparada e legitimada em um discurso sobre a segurança. Que papel tem os meios de comunicação endossando este paradigma securitário?

Os meios de comunicação desempenham um papel muito conservador à ideia de que se os Estados estabelecem um sistema de vigilância é para nos proteger. É uma espécie de truque. Eu te dou segurança e você me dá a sua liberdade, ou uma parte dela. Os meios de comunicação aderem a isso. O problema é que se para combater o terrorismo, acabamos com o conjunto das liberdades democráticas, pagamos um preço muito alto e um dos objetivos do terrorismo é conquistado. Cuidado com este negócio falsificado, porque a segurança total não existe. Os próprios governantes falam constantemente de que estão tomando todas as precauções, mas não podem garantir que não haja um atentado. Ao contrário, a liberdade, sim, pode ser diminuída mediante leis.

Quais os riscos que esse discurso possui?

Tem o risco de que, dessa maneira, estejamos acabando com liberdades fundamentais. Que diferença há entre uma ditadura e uma democracia? Que a ditadura controla, condiciona e vigia você sem que esteja informado disso. Contudo, se atualmente nos vigiam, onde está a verdadeira democracia?

Existe um teto de cristal nesta espionagem, neste controle da população? Até onde se pretende chegar?

O objetivo é criar o que chamo de justiça preditiva. Existem duas obras que imaginaram sociedades distópicas, totalmente vigiadas. Uma é 1984 (1949), de George Orwell, e a outra é Minority Report (1956), de Philip K. Dick. 1984 é uma sociedade completamente vigiada através da tecnologia. Minority Report fala de um aparato que essencialmente serve para prevenir o crime. Vigia-se toda a população com um objetivo preciso de evitar o crime. Detém-se a pessoa por um crime que ainda não cometeu. Na França, há um artigo da lei que permite isto. A intenção do crime já é um crime.

Você fala muito de que o objetivo deste controle é a suposta segurança, mas também existe uma parte comercial, de venda de dados a governos e multinacionais.

A novidade é que agora as empresas nos vigiam e fazem isto melhor que os próprios Estados. Quando o Estado quer vigiar você, pede ao seu provedor telefônico a lista de suas chamadas. É o seu provedor telefônico quem vigia. O Estado e os governos também vão pedir ao Google a lista do que você consultou, porque possui tudo. Isto é o que explica que empresas como Google, que não vendem nada, sejam as mais ricas do mundo, porque vendem nossos dados.

O outro lado da moeda seria a potencialidade que possuem todas estas redes, como Facebook e Twitter, para promover mobilizações.

Não se trata de condenar a internet, é um avanço fundamental, trata-se de estudar o acidente, que é a vigilância e como reduzi-lo e se proteger.

Essa vigilância aumentou a partir do 11S. Agora, a situação na Europa mudou muito. A crise dos refugiados e a guerra na Síria precisam de novos marcos de interpretação. Que análise geopolítica você faz?

Estamos em um momento de transição. O período destes últimos 20 anos foi marcado, em escala geopolítica, pela crise do Oriente Médio, que agora explode com a questão da Síria e também pela hegemonia da China. Neste momento, a China está mudando de modelo econômico e de desenvolvimento, o que tem uma repercussão muito grande.

A queda do preço das matérias-primas é algo novo nestes 20 anos, que se caracterizaram por um aumento incessante das commodities e pelo fato de muitos países do Sul terem se aproveitado desta situação para se transformar, até o ponto de se tornar possível falar de países emergentes, os BRICS, foi criado o G20... Já não se fala dos emergentes. Muitos estão em crise. Na América Latina, o ciclo está mudando e na Europa os partidos consolidados viram reduzir sua solidez.

Como esta mudança influência nas crises dos diferentes governos de esquerdas da América Latina?

Muita gente lê a mudança de ciclo na América Latina como se, de repente, a oposição tivesse argumentos, mas não possuem. A mudança de ciclo político é consequência de uma mudança do ciclo econômico que se baseava em três pilares. Por um lado, a China tinha um crescimento muito elevado, acompanhado de uma política de ser a fábrica do mundo para a exportação de produtos, para o qual precisava importar muitíssimas matérias-primas da América Latina, entre outros lugares.

Em segundo lugar, o preço do petróleo caiu por diferentes razões muito complexas, como rivalidades entre Arábia Saudita e Estados Unidos ou o fracking. Em último lugar, o dólar subiu muito, o que encarece os investimentos, que já não chegam à América Latina. São três parâmetros que mudaram a economia latino-americana.

Os países que antes tinham muitos recursos pelo preço das matérias-primas, pelos investidores ou pelo preço do petróleo, já não podem distribuir como faziam antes. O Equador, por exemplo, teve que reduzir seu orçamento em 2 bilhões de dólares, apesar de ser um país muito bem administrado. Outro exemplo é a Bolívia, que terá dificuldades porque o gás é muito importante na exportação.

Em 15 anos, muitas sociedades na América Latina mudaram. Dezenas de milhares de pessoas saíram da pobreza e se integraram às classes médias, razão pela qual o discurso de poder não pode ser o mesmo. As ambições destas classes médias não são as mesmas que as das classes populares anteriores. As pessoas já não se contentam em ter escola.

Na Bolívia, Equador e Venezuela o analfabetismo foi eliminado. Na Venezuela, foram construídas onze universidades que não existiam. No entanto, a resposta mediante a quantidade já não é suficiente para milhares de pessoas que já estão acostumadas a ter escola. O que querem é que exista uma boa escola, hospitais de qualidade e transportes públicos eficazes. Muitos destes governos não souberam responder estas demandas. Na Venezuela, perderam as eleições legislativas, mas a oposição só ganhou 300.000 votos. Quem perdeu foi o chavismo, que perdeu dois milhões de votos.

Na Bolívia, perderam o referendo. Era necessário fazer este referendo para alguém que está há 10 anos no poder? A resposta foi dada pela cidadania. Não era indispensável. A sociedade mudou. Agora é mais culta, está melhor cuidada. Não pode ser tratada como se fosse o contrário.

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