Pesquisadora estuda efeitos da revitalização da orla do Guaíba sobre moradores da região

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05 Abril 2016

Qual é o impacto de uma obra na orla do Guaíba? Nos últimos anos, a grosso modo, a discussão dividiu a população entre grupos que consideram positivo o surgimento de grandes empreendimentos, como sinal de progresso, e outros que denunciam o impacto ambiental dos projetos de revitalização da orla. À margem da discussão principal, porém, estão os moradores das regiões em que as obras ocorrem e como eles são impactados. Foi com o objetivo de abordar esta questão que a pesquisadora Ana Paula Marcante Soares realizou sua tese de doutorado “O território mito da orla: antropologia de conflitos territoriais urbanos e memórias ambientais em Porto Alegre, RS”, defendida em 2014 e premiada com menção honrosa pelo Prêmio UFRGS de Tese 2015.

A reportagem é de Luís Eduardo Gomes, publicada por Sul21, 03-04-2016.

Entre 2010 e 2013, Ana Paula conduziu entrevistas com moradores do bairro Cristal e regiões adjacentes – como Tristeza e Camaquã – para tentar compreender o impacto que projetos em andamento na orla sul do Guaíba, como a revitalização do Pontal do Estaleiro, a duplicação da Avenida Tronco e o Programa Integrado Socioambiental (Pisa), tinham nas comunidades afetadas.

A partir de conversas com associações de moradores, com o Clube de Mães e com o Movimento de Defesa da Orla, Ana Paula percebeu que grande parte dos moradores desses bairros, especialmente as camadas mais empobrecidas, é composta por famílias de trabalhadores que atuavam no antigo Estaleiro Só e no Jockey Club.

Segundo descobriu na pesquisa, esses trabalhadores e suas famílias foram responsáveis por promover a urbanização da área, ainda que de forma irregular, e levar a estrutura de água e luz para a região, que, até meados do século passado, não atraia grande atenção do poder público. Em décadas mais recentes, a região passou então a atrair famílias de camadas médias da sociedade e, ainda mais recentemente, com transformações promovidas pela construção do supermercado Big, do Barra Shopping Sul e do Museu Iberê Camargo, por um processo de “enobrecimento” da área.

“Essa questão da moradia popular no bairro e nos bairros limítrofes foi uma descoberta bem interessante da pesquisa. Na medida que eu percebia que muitos dos moradores com os quais eu conversava, das famílias que moravam há décadas, alguns há mais de 40 anos naquela região, eles foram para lá em razão do trabalho. Ou seja, a partir dos espaços de trabalho daquela região da cidade na época, principalmente do Estaleiro Só e do Jockey Club”, afirma Ana Paula. “Quando se faz esses projetos de revitalização, como a Prefeitura chama, não se traz essa memória de que a orla sul também teve espaços de trabalho importantes”, complementa.

E como essas famílias vêm as transformações promovidas pelas obras já realizadas e que ainda estão para ser concretizadas? Segundo a pesquisadora, não existe um consenso entre a população da região. “Eles veem isso das forma dispare. Desde aqueles que entendem que aquilo traz um processo de transformação positiva, que traz espaços de consumo, que valoriza, que melhora o transporte de forma indireta, àqueles que percebem que sim, que esses processos vão gradativamente fazer com que as pessoas que efetivamente constituíram o bairro e que moram lá há anos são aquelas que estão sendo cada vez mais afetadas. Muitos não conseguem permanecer morando, inclusive pela valorização imobiliária, pelos processos da Prefeitura de intervenção para regularização fundiária, todos os efeitos indiretos dessas obras”, pondera.

Apesar de não ser o foco do trabalho de Ana Paula, ela afirma que, nas conversas com moradores das camadas médias da sociedade, também percebeu uma divisão, entre os que acreditavam que as transformações poderiam representar uma positiva valorização imobiliária, trazer mais segurança para o local, e outros que tinham maior militância em torno da questão ambiental, de manter os espaços públicos e contra intervenções drásticas no bairro para que ele possa manter seu caráter mais residencial.

“O que se tinha era um desejo de regularização fundiária, sobretudo dos espaços ocupados pelas vilas. Eles queriam que as populações das vilas permanecessem no processo de regularização da Prefeitura naquela região. No entanto, muitos dos moradores mais recentes na militância acabavam expressando um desejo de que, ‘ok, se não tiver espaço aqui, eles devem ir para mais longe e isso faz parte do processo de renovação do bairro’. Não dá para generalizar, mas existia um desejo de que essas vilas fossem regularizadas de algum jeito e a gente sabe o que isso significa. As pessoas que foram retiradas da vila no entorno do shopping foram para o extremo sul da cidade”, afirma.

Segundo Ana Paula, essas remoções impactam de “forma avassaladora” um grande número de famílias, como as que moravam em vilas no entorno do Barra Shopping e do Arroio Cavalhada e foram deslocadas para o bairro Campo Novo. A pesquisadora descobriu que muitos moradores ainda mantinham laços com antigos vizinhos e com a região do Cristal, mas isso não era a regra.

“Outros não conseguiram manter esses laços e acabaram se dispersando. Foram morar naquela região, depois acabaram se mudando para regiões mais distantes ainda, venderam aquele espaço. Então, na realidade, o que se vê é esses processos desmantelando laços de vizinhança, laços de amizade, laços de pertença desses grupos, porque, quando eles são removidos, dificilmente permanece a mesma rede a que pertenciam antes. Para essas populações, acaba sendo um processo muito difícil, porque muda tudo”, afirma.

Além dessa quebra de laços, a migração para áreas menos centrais também traz uma série de dificuldades para as famílias. “Ir morar numa área muito mais distante, traz questões práticas de vida como transporte público muito mais dificultado, tu fica muito mais distante do teu espaço de trabalho, o teu espaço de moradia é completamente diferente, porque as casas são ofertadas pela Prefeitura ou mesmo quando tu ganha o bônus não consegue uma casa próximo aquela que tu morava anteriormente”, diz a pesquisadora.

Segundo ela, as remoções atuais se assemelham a processos que aconteceram durante o período de maior urbanização das grandes cidades brasileiras, entre as décadas de 60 e 70. “Na medida em que esse bairro se torna mais próximo e mais central, na medida em que todas essas melhorias de qualificação do espaço urbano acontecem, e essas populações são colocadas mais para longe, tu repete os processos que a gente fez há 40, 50 anos atrás na urbanização do Brasil”, avalia Ana Paula.

Por outro lado, ela reconhece a necessidade de se encontrar soluções para famílias que vivem em extrema pobreza, por exemplo, nas margens do Arroio Cavalhada. “É claro que também é necessário pensar políticas diferenciadas para esses grupos. E é por isso que a gente tem tantos desejos diferentes para a orla”.

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