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Por: André | 19 Março 2013

Nas grandes cidades brasileiras, caminhar para se locomover é cada vez menos comum. A tendência, resultado da maior motorização e da urbanização de áreas distantes das regiões onde estão serviços e ofertas de empregos, tem como efeitos colaterais uma interação mais superficial das pessoas com sua própria cidade, e o aumento no número de congestionamentos.

A reportagem é de Fernanda Trisotto e publicada na Gazeta do Povo, 19-03-2013.

Segundo dados do relatório Sistemas de Informação da Mobilidade Urbana, organizado pela Associação Nacional dos Transportes Públicos (ANTP), a participação da caminhada no total de deslocamentos feitos pelos brasileiros caiu 2,1% de 2003 para 2011. No mesmo período, o transporte individual (carro ou moto) cresceu a mesma porcentagem em comparação aos outros modais.

A opção pelo transporte coletivo também perdeu espaço. Em 2003, ônibus e metrôs eram o segundo modo de locomoção mais utilizado. Oito anos depois, foram ultrapassados pelo transporte individual e agora estão em terceiro lugar.

Para o engenheiro e sociólogo Eduardo Alcântara de Vasconcellos, assessor da ANTP, os dados do relatório, associados aos números de crescimento das frotas de automóveis e motocicletas, permitem concluir que há uma mudança no padrão de mobilidade urbana no Brasil, com a predominância de veículos privados no total de viagens feitas por modos motorizados.

O professor Fábio Duarte, coordenador do doutorado em Gestão Urbana da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) lembra que essa tendência se revela quando se compara o crescimento populacional com o aumento no número de carros. “Em dez anos, a população de Curitiba, por exemplo, cresceu 8%, enquanto no mesmo período houve um crescimento de mais de 60% no número de carros, quase 80% se considerarmos todos os veículos, incluindo motos”, diz.

Além da crescente motorização da população – que foi incentivada pelo governo federal, com a redução de tributos que incidem sobre os carros –, outro fator que contribui para a diminuição da caminhada é a forma como as cidades brasileiras desenvolveram sua urbanização. “Em Curitiba, foi criado um eixo de desenvolvimento para oferecer infraestrutura de transporte. A gente possibilitou isso, fez com que as cidades não fossem compactadas”, observa a professora Márcia de Andrade Pereira, do Departamento de Transportes da Universidade Federal do Paraná.

Ela também cita o caso de Brasília, uma cidade notadamente planejada para veículos. “A gente não quer isso para Curitiba e precisamos rever nosso plano diretor. Já estamos atrasados”, afirma.

Por uma confraria de caminhantes

Há alguns anos, a escritora Cléo Busatto aposentou sua carteira de motorista. Mas isso não a impede de circular livremente por Curitiba, caminhando. Depois da decisão, Cléo diz que não se estressa com o trânsito, colabora com o planeta, faz exercício e entende o ato de caminhar como “um deleite.” “Mesmo que eu tenha opção de ir para algum lugar de outra forma, prefiro andar porque assim eu vejo a cidade”, diz.

Para ela, caminhar pela cidade significa olhar aquilo que parece invisível. “Quem sabe que nas ruas do Centro antigo têm pitangueiras ou que a [Avenida] Visconde de Guarapuava tem goiabeiras carregadas?”, indaga. Apesar da opção por não ter carro, a escritora não é radical: quando precisa ir até um lugar mais longe, usa táxi e transporte coletivo.

Além de economizar, ela leva vantagem também na conexão com outras pessoas. “Há uma pré-disposição de quem está andando em te olhar. É como se você criasse uma confraria de pessoas que andam.”

Desculpas

A escritora acredita que as pessoas dão muitas desculpas para não usar outros tipos de meios de transporte que não o carro – chegar suado no destino é um deles. “Lógico que segurança é importante e Curitiba precisa, sim, olhar com atenção para essa questão, mas as pessoas são extremamente preguiçosas para andar”, argumenta.

Reverter a motorização é ainda possível

Ainda há tempo para as cidades reverem seus planos e incentivarem a adoção de modos mais funcionais do que o carro. Para isso, o engenheiro e sociólogo Eduardo Alcântara de Vasconcellos, assessor da Associação Nacional dos Transportes Públicos, aponta dois tipos de medidas. “Primeiro, ações que melhorem as condições de conforto e segurança ao caminhar, usar a bicicleta ou o transporte público. Depois, limitar o uso inadequado ou excessivo do automóvel, com medidas de restrição de circulação ou de desincentivo ao seu uso”, opina.

O professor Fábio Duarte, da PUCPR, avalia que em Curitiba o momento é bom para uma revisão do Plano Diretor de Transportes. Para ele, a cidade precisa mostrar que dá prioridade aos modos de deslocamentos não motorizados ou coletivos. Isso pode ser feito com travessias elevadas de boa qualidade, calçadas bem feitas e conservadas, semáforos para pedestres, além de ciclovias e ciclofaixas compartilhadas e ônibus circulando nos horários corretos, sem lotação excessiva.

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