Qual papado? Bento e Francisco pensam do mesmo modo

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11 Março 2016

Há três anos, quando o Papa Francisco foi eleito ao trono pontifício, um dos argumentos mais chamativos para a mídia foi o da Reforma da Cúria vaticana, acompanhada de uma geral descentralização das responsabilidades e das atividades desempenhadas pelo papa e pelos seus colaboradores mais estreitos, investindo os bispos individualmente e as diferentes Conferências Episcopais nacionais e continentais de um papel de maior responsabilidade.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada por Vatican Insider, 09-03-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Acrescente-se a isso que, desde o início, Bergoglio tem explicado como o papa não deva ter a última palavra em relação a todos os problemas levantados pelo mundo contemporâneo (não tem condições, não está nas suas capacidades e nem a isto se reduz o seu mandato), mesmo não renunciando ao papel de guia e pastor da Igreja universal. Em suma, o papa permanece como princípio de unidade, despido, porém, das vestes absolutistas e monarquistas, mas, ao contrário, numa relação viva de diálogo com os outros bispos; de resto, o próprio papel de chefe da Igreja Universal comporta, há muito tempo, um tal volume de trabalho que quase impossibilita sua tarefa, ou, de qualquer modo, torna-a extremamente fadigosa. Além do mais, o risco, individuado pelos últimos pontífices, é aquele de dever responder a todas as exigências concretas, a custa de renunciar a aspectos espirituais do próprio ministério, ou de renunciar a sua relação direta com os fiéis, bispos e colaboradores. Francisco, com estes temas, levantou a questão da colegialidade, isto é, da partilha das decisões e das respostas que a Igreja deve dar à condição humana em cada época. Neste sentido, o sínodo deveria tornar-se cada vez mais uma sede de debates e confrontos abertos e livres entre os bispos.

Muitas destas temáticas não são, obviamente, novas, mas é interessante, como o Cardeal Joseph Ratzinger, de atento estudioso da vida da Igreja já as tivesse observado e colocado sobre o tapete de modo problemático, particularmente no livro “Deus e o Mundo”, escrito com o jornalista e amigo Peter Seewald, em 2001. Nele, o Cardeal-Teólogo enfrenta as questões ligadas à reforma do papado, e, entre outras coisas, faz uma breve síntese da história da instituição até os nossos dias, afirmando: “... mais tarde nasceu o Estado Pontifício, comportando muitas loucas misturas e que, enfim, acabou caindo em 1870, graças a Deus, podemos dizer hoje. Em seu lugar foi iniciada a construção de um mini estado, cuja única função seria a de garantir ao papa a liberdade para o exercício do seu ministério. Que os mecanismos de funcionamento deste aparato possam ser ulteriormente simplificados, é uma questão que pode ser abordada”.

Deste modo, portanto, exprimia-se o teólogo nos anos finais do longuíssimo pontificado wojtiliano, e acrescentava: “O número das encíclicas escritas pelo papa e a frequência de suas intervenções são todas questões que variam de acordo com as circunstâncias e o temperamento dos próprios pontífices. Podemos, no entanto, perguntar, não obstante tudo isso, se sua tarefa não permaneceria excessivamente onerosa. A quantidade de tarefas impostas devido as responsabilidades com relação à Igreja universal; as decisões que devem ser tomadas; a necessidade de não transcurar o estado contemplativo, de radicar a própria missão na oração – tudo isto permanece um dilema”. Em suma, o futuro Bento XVI já tinha percebido bem claramente o conjunto dos problemas postos pela época contemporânea a uma instituição, que corria o risco de ser esmagada por um excesso de “funcionalismo”.

“Pode-se refletir – afirmava ainda o Cardeal alemão – sobre a contribuição que as formas de descentralização poderiam dar ao abrandamento das funções papais. O próprio papa (Wojtila, ndr) em sua encíclica ecumênica, pedia sugestões e propostas para uma possível reforma da instituição papal”. Esta referencia ao tema feito por João Paulo II será feito também pelo Papa Francisco. Sempre muito significativas são as observações de Ratzinger, em perspectiva ecumênica, mas não só. O cardeal sublinhava a importância das visitas ad limina dos bispos de todo o mundo, enquanto garantia de um encontro pessoal, menos ritual e mais informal, entre o pontífice e os bispos, pois olhava para o futuro e imaginava um papa que pudesse se tornar – também para outras confissões cristãs – porta-voz da cristandade e símbolo da unidade dos cristãos. E se o papado fosse reformado nesta direção, poderíamos estar de acordo, dizem algumas denominações. Em todos os casos, trata-se de uma tarefa onerosa, que vai quase para além das forças humanas. Por outro lado, é sempre uma tarefa imprescindível, que com a ajuda do Senhor, deverá ser levada a termo.

Mas não termina aí: a principal função das conferências episcopais foi individuada por Ratzinger de modo bem preciso: “São necessários – explicava, com relação à organização da Igreja – fóruns suprarregionais encarregados de funções até agora assumidas por Roma”. “O Concílio Vaticano II – afirmava ainda – individuou nas conferências episcopais formas organizativas de unidades suprarregionais, às quais despois foram acrescentadas unidades continentais. América Latina, África e Ásia foram, neste ínterim, caracterizando-se como sedes de discussão comunitária – diferentemente estruturadas – envolvendo os episcopados continentais.

No mesmo cumprimento de onda moveu-se Francisco, na Evangelii Gaudium, afirmando: “Também o papado e as estruturas centrais da Igreja universal precisam ouvir este apelo a uma conversão pastoral. O Concílio Vaticano II afirmou que, à semelhança das antigas Igrejas patriarcais, as conferências episcopais podem ‘aportar uma contribuição múltipla e fecunda, para que o sentimento colegial leve a aplicações concretas’. Mas este desejo não se realizou plenamente, porque ainda não foi suficientemente explicitado um estatuto das conferências episcopais que as considere como sujeitos de atribuições concretas, incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal. Uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária”.

Pois, em outra página da mesma Exortação post-Sinodal, retomava um tema sobre o qual teria voltado mais vezes, inclusive por ocasião das recorrências no final do Concílio: “Não creio nem mesmo que – afirmava o Papa – se deva esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo. Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar «descentralização».

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