Alemanha vive uma crise de identidade pela chegada dos refugiados

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09 Março 2016

"A tomada de decisões de Merkel não se afasta tanto de seu estilo tradicional. Não é que de repente atuasse por convicção, como asseguram seus partidários, nem que de repente se mostrasse inflexível, como dizem seus adversários. Seguindo seu costume, esperou todo o tempo que pôde – durante vários anos de agravamento do conflito sírio, a Alemanha fez muito pouca coisa enquanto os refugiados chegavam à Grécia e à Itália – e só reagiu, mais do que agiu, quando foi necessário", escreve Hans Kundnani, investigador transatlântico e autor do livro The Paradox of German Power, em artigo publicado por El País, 05-03-2016.

Eis o artigo.

Durante a última década existiu na política alemã um consenso notável, encarnado pela figura da chanceler (primeira-ministra) Angela Merkel. Em duas das três legislaturas que acumula no poder, desde 2005, encabeçou uma grande coalizão de democratas-cristãos, o partido de Merkel, e social-democratas. Houve até certa convergência ideológica, porque os social-democratas se moveram para a direita em política econômica e os democratas-cristãos para a esquerda em questões sociais e ambientais. Somados, os dois grupos ocupam atualmente 503 das 630 cadeiras do Bundestag, uma maioria extraordinária que significa que podem prescindir – e prescindem – da esquerda e dos verdes na oposição. Entretanto, com a cortina de fundo da crise dos refugiados, é possível que esse consenso esteja chegando ao fim. De repente, a Alemanha se tornou muito mais imprevisível.

Em si, pode não ser ruim que a política alemã se torne mais controvertida. O consenso dos últimos dez anos foi meio asfixiante. Em particular, os social-democratas foram totalmente incapazes de oferecer uma alternativa à estratégia de Merkel diante da crise do euro. Aceitaram a declaração pós-democrática da chanceler – “não há alternativa” –, e a consequência direta foi a criação, em 2013, do partido eurocético Alternative für Deutschland (AfD, Alternativa para a Alemanha). Entretanto, não se trata apenas de que as políticas venham a ser debatidas mais abertamente a partir de agora. Trata-se de que, como Merkel continua insistindo em que não há alternativas à sua estratégia, alguns estão começando a pôr em dúvida a legitimidade do próprio Estado.

Em uma entrevista, o líder democrata-cristão da Baviera, Horst Seehofer, um dos mais ruidosos críticos da postura de Merkel, disse que a República Federal deixou de ser um Rechtstaat (ou seja, um Estado de direito) e se transformou em um Unrechstaat – um termo usado para definir Estados totalitários como a República Democrática Alemã – e incentivou sutilmente os cidadãos alemães a resistir ao poder do Estado. Em entrevista na revista Cicero, o filósofo Peter Sloterdijk disse que o Estado cedeu a soberania aos refugiados. “Não temos uma obrigação moral de nos destruir”, concluiu.

Assim como o consenso da última década se construiu em torno de Merkel, ela também está no centro do debate sobre os refugiados, cada vez mais polarizado. Desde o segundo semestre do ano passado, Merkel recebeu tanto elogios como críticas por abrir as fronteiras da Alemanha. Na verdade, o que aconteceu é mais complicado. Em meados de agosto ficou claro que a Alemanha ia acolher um milhão de solicitantes de asilo em 2015 – não era uma mudança de política, e sim uma aceitação dos fatos. Alguns dias depois, o Ministério de Imigração e Refugiados decidiu suspender a Convenção de Dublin para os sírios, uma medida que tomou porque o país estava inundado de refugiados. Depois, no início de setembro, Merkel decidiu permitir que milhares de solicitantes de asilo jogados na estação de Keleti, em Budapeste, fossem para a Alemanha, uma medida que tomou porque não teve mais remédio.

Ou seja, não se tomou uma grande decisão para abrir as fronteiras. Em vez disso, foram dados vários pequenos passos e houve uma ausência de medidas para mudar de rumo, o que teve enormes consequências para a Alemanha e o restante da Europa. A tomada de decisões de Merkel não se afasta tanto de seu estilo tradicional. Não é que de repente atuasse por convicção, como asseguram seus partidários, nem que de repente se mostrasse inflexível, como dizem seus adversários. Seguindo seu costume, esperou todo o tempo que pôde – durante vários anos de agravamento do conflito sírio, a Alemanha fez muito pouca coisa enquanto os refugiados chegavam à Grécia e à Itália – e só reagiu, mais do que agiu, quando foi necessário. A diferença é a seguinte: enquanto na crise do euro as críticas contra Merkel vieram principalmente de outros países europeus, com a crise dos refugiados sua atitude está dividindo a própria Alemanha.

O que Merkel fez foi assumir o risco de acreditar que o povo alemão ia aceitar e integrar milhões de solicitantes de asilo. Em meados do ano passado, quando se viu que o número de refugiados que chegariam à Alemanha naquele ano seria muito superior do que as autoridades tinham previsto, Merkel proclamou diante da opinião pública: “Wir schaffen das!” (“Podemos fazer isso!”). Sempre se pensou que a chanceler adota políticas populares dos social-democratas ou dos verdes para ocupar o centro político na Alemanha. Sua aparente determinação de incorporar milhões de refugiados à sociedade alemã conquistou novos partidários na esquerda. Mas também irritou muitos na direita, até mesmo em seu próprio partido.

Na esquerda, muitos querem acreditar que o país superou um senso clássico de identidade nacional e desenvolveu uma identidade pós-nacional, baseada na ideia do patriotismo constitucional. Esta ideia, por sua vez, baseava-se em um senso de responsabilidade e arrependimento pelo passado nazista e pelo Holocausto. Como escreveu o filósofo Jürgen Habermas, o principal defensor da ideia do patriotismo constitucional, no início dos anos noventa, “na Alemanha, só depois de Auschwitz – e, em certo sentido, só pela comoção causada por essa catástrofe moral – é que a democracia começou a criar raízes”. O país, portanto, não podia ser normal. O único senso de identidade nacional possível era aquele derivado das lições de 1945, consagrado na Lei Fundamental, a Constituição alemã, e em especial no Artigo 16, que garante o asilo.

No entanto, na hora da verdade, a identidade da Alemanha no pós-guerra sempre foi mais complexa. O embrião de pós-nacionalismo que se desenvolveu na República Federal a partir dos anos sessenta coexistia incomodamente com uma lei de cidadania retrógrada que se baseava no princípio do ius sanguinis, os laços de sangue, e remontava a 1913. Até o governo verde-rubro de Gerhard Schröder reformar a lei no ano 2000, a Alemanha continuava se definindo em função de termos étnicos. Até os imigrantes turcos de segunda ou terceira geração eram oficialmente estrangeiros. Foi preciso esperar os últimos dez anos, mais ou menos, para que a Alemanha se convencesse de que é uma sociedade multiétnica – e essa ideia ainda incomoda muitos alemães, como mostra a repentina aparição do movimento anti-imigrantes Pegida em 2014. Em outras palavras, a Alemanha era pós-nacional mais na teoria do que na prática.

Além disso, embora os intelectuais de esquerda se identificassem com a noção de uma identidade pós-nacional ou de uma identidade pós-Holocausto, os cidadãos comuns preferiam se orgulhar do extraordinário sucesso econômico da República Federal. Em seu livro de 2008 sobre o mito alemão, Mythen der Deutschen, o cientista político Herfried Münkler escreve que, no contexto do Wirtschaftswunder – o milagre econômico da pós-guerra –, o logotipo da Mercedes substituiu a cruz de ferro como símbolo do orgulho alemão. A tensão entre essas duas versões da identidade alemã do pós-guerra ficou evidente na suposta declaração do líder democrata-cristão bávaro Franz Josef Strauss de que “um povo que obteve um sucesso econômico como o nosso tem direito a não ouvir falar mais de Auschwitz”.

A resposta de Merkel à crise dos refugiados desencadeou um novo debate sobre a identidade. O partido AfD, cada vez mais xenófobo, que parecera se desintegrar quando seu fundador, Bernd Lucke, saiu para formar um partido novo em julho, voltou a subir nas pesquisas e poderia se transformar na autêntica oposição depois das eleições regionais do próximo domingo. Enquanto isso, desde meados do ano passado ocorrem ataques quase diários contra os solicitantes de asilo. A ressurreição do partido AfD e o aumento das agressões contra refugiados demonstram como continua frágil a identidade pós-nacional da Alemanha. O perigo é que, ao limitar-se demais na resposta à crise, Merkel tenha desacreditado a ideia da Alemanha como país de imigração justamente quando os alemães comuns começavam a se reconciliar com essa ideia.

Quando os democrata-cristãos e os social-democratas concordaram em formar outra grande coalizão em 2013, alguns temeram que isso provocasse um aumento do extremismo político, como aconteceu durante a primeira grande coalizão na história da República Federal, que durou de 1966 a 1969. O extraordinário é que, agora, o extremismo vem de dentro da própria democracia cristã, particularmente do ramo bávaro liderado por Seehofer. O problema não é apenas que os democrata-cristãos da Baviera estejam formando uma aliança de fato com a AfD para pressionar Merkel e obrigá-la a mudar de rumo, mas também que, ao questionar a legitimidade do Governo, eles estão incentivando ações diretas contra o Estado, incluindo a violência contra quem solicita asilo.

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