Teólogo irlandês critica bispos americanos transformarem a “Humanae Vitae” em fetiche

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24 Novembro 2015

Um importante teólogo irlandês acusou os bispos americanos de cometerem um ato de “total irresponsabilidade” ao transformarem a Humanae Vitae em um fetiche pelo qual a Igreja Católica é publicamente conhecida.

A reportagem é de Sarah Mac Donald, publicada por National Catholic Reporter, 18-11-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Numa conversa sobre “O que precisa de reformas na Igreja?”, o padre agostiniano Gabriel Daly declarou que a encíclica papal de 1968, que proibiu o emprego de métodos anticoncepcionais, jamais foi aceita pela Igreja no geral.

Ao falar dos membros do grupo reformista chamado “We Are Church Ireland”, no Instituto Milltown de Filosofia e Teologia na cidade de Dublin, o sacerdote acusou os tradicionalistas de apresentarem o ensino católico “inescrupulosamente como uma espécie de arma”. “Eles afirmam isso porque Paulo VI, em 1968, publicou uma carta encíclica, a Humanae Vitae, que renovou a proibição do emprego de métodos contraceptivos. Todos os seus sucessores estão vinculados a este ensinamento, pois ele é um ‘ensinamento católico’ e nem mesmo os papas podem tocar nele”, disse. “Isso não faz sentido, mas poucos católicos estariam preparados para dizer assim”.

O religioso, de 88 anos, professor de teologia durante 30 anos na Trinity College Dublin e no Instituto Milltown, instituição jesuíta, sustentou que descrever a visão do Papa Paulo VI sobre a contracepção como “um ensinamento católico imutável” é, teologicamente, inaceitável para muitos teólogos e historiadores modernos, e que isso apresenta a Igreja como irremediavelmente sem contato com o mundo de hoje. “A maneira romana de lidar com este problema é recusar-se a ouvir os argumentos teológicos modernos, e simplesmente reemitir uma proibição por proclamação e sem uma sustentação satisfatória”, falou.

Em sua fala, que também cobriu a questão da mulher na Igreja e a homossexualidade, teólogo sublinhou como a Igreja mudou o seu ensinamento inúmeras vezes ao longo da história. Citou o apoio do Papa Urbano II às Crusadas e disse que nem mesmo os ultratradicionalistas de hoje se veriam obrigados a seguir este ensinamento na atualidade.

Ao falar do lançamento de seu novo livro “The Church: Always in Need of Reform”, o sacerdote agostiniano condenou a Igreja no tocante ao seu tratamento às mulheres dizendo que elas têm sido tratadas “de forma vergonhosa”.

Acrescentou também que a posição da mulher na estrutura da Igreja Católica continua sendo “a questão mais urgente na Igreja contemporânea e a questão que mais precisa de reforma”.

“A meu ver, não existe sustentação alguma contra a ordenação feminina que possa ser levada com seriedade teológica”, contou ele ao público, acrescentando que os argumentos tais como Jesus foi um homem, logo os sacerdotes devem ser homens, ou porque Jesus não ordenou mulheres, então nós não podemos também, não podem ser tomados como argumentos sérios.

“Eles ofendem tanto a lógica quanto a boa teologia”, falou.

Sobre a postura de João Paulo II relativa à ordenação feminina, ele disse que estava tentado a atribuir a atitude do falecido pontífice a um “puro sexismo”.

Sobre a questão da homossexualidade e do casamento homoafetivo, Daly disse que considerar estas coisas como algo pecador, conforme o fez o Papa Bento XVI, é permanecer “preso a um tipo antiquado de pensamento que pode, de fato, beirar à blasfêmia não intencional contra um Criador bondoso e onisciente”.

O sacerdote também falou que a homossexualidade não pode mais ser considerada como estando “contra” a natureza. “Cientificamente, ainda que não há uma explicação única para a questão, existe um acordo em que ela [a homossexualidade] é parte da natureza e jamais é uma questão de escolha. A pessoa não escolhe ser gay; ela nasce gay”.

Ao ponderar sobre a visitação à Conferência de Liderança das Religiosas – LCWR encomendada pela Congregação para a Doutrina da Fé – CDF, afirmou que este último instigou uma “caça herética” contra as irmãs e freiras [americanas] com base na convicção de que as mudanças inspiradas no Vaticano II haviam levado ao enfraquecimento dos princípios e à queda no número de vocações para a vida religiosa.

“Esta investigação nada descobriu e as irmãs se saíram totalmente corretas”; elas deram um “exemplo inspirador de como os verdadeiros cristãos podem se comportar em circunstâncias onde os seus perseguidores, vindos do alto da Igreja institucional, se comportam de um amaneira nada cristã”.

Ao acusar a Cúria de ser “incapaz de não apenas pedir desculpas por seus atos imprudentes” como também incapaz de concordar que os seus atos estão errados, carecendo de amor e sendo anticristãos, o sacerdote falou que a declaração emitida pela CDF após a humilhação feita às religiosas foi “para salvar a cara e hipócrita”.

O religioso concluiu a sua fala advertindo que, enquanto o Papa Francisco permanecer preso a um esquema que o vincula a todos os ensinamentos dos seus antecessores papais, as reformas necessárias não acontecerão, mesmo que o Evangelho e os credos não estejam envolvidos.

Ele sugeriu que o movimento ecumênico mostrou que a busca pela unidade não acarreta acordo em todas as coisas. “Precisamos estar cientes do dom da diversidade pacífica, em que os companheiros católicos se sentem livres para manter e manifestar as suas opiniões. Acima de tudo, ninguém irá tentar usar as estruturas da Igreja institucional para impor os seus pontos de vista aos outros que não os compartilham”, declarou.

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