Ordenação do primeiro bispo em três anos é aceno da China ao Vaticano

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10 Agosto 2015

Em um gesto de conciliação para com o Vaticano, a Igreja oficial chinesa realizou, na terça-feira (4), a primeira ordenação de um bispo em três anos. Apesar de uma fortíssima presença policial e da proibição da entrada de curiosos na catedral de Anyang (província de Henan, centro-leste do país), segundo a agência católica UCA News, as autoridades chinesas deram um passo diplomático ao nomear Zhang Yinlin coadjutor desse bispo, pois ele também recebeu anteriormente a aprovação de Roma.

A reportagem é de Harold Thibault, publicada originalmente no jornal Le Monde e republicada pelo Portal Uol, 07-08-2015. 

Todos os bispos escolhidos para concelebrar tinham ao mesmo tempo o reconhecimento da Igreja romana e da instituição encarregada de controlar de perto essa religião na China, a Associação Patriótica dos Católicos Chineses.

Esse esforço poderia ser uma primeira etapa do degelo das tensas relações entre Pequim e a Santa Sé, para as quais a ordenação de novos bispos tem sido um teste. A última havia sido em julho de 2012 e o acontecimento acabou consolidando ainda mais os antagonismos. Na catedral de Xangai, em plena missa, o novo bispo Ma Daqin renunciara a seu cargo dentro das instituições oficiais chinesas, depois de ter constatado que um dos seis bispos encarregados de fazer a confirmação não tinha a aprovação papal. Uma parte da plateia aplaudiu o anúncio de sua saída da Associação Patriótica, enquanto os oficiais furiosos saíam rapidamente da igreja. Desde então, Ma Daqin tem sido mantido em prisão domiciliar.

Destruição de crucifixos muito visíveis

Paralelamente, o governo continua conduzindo uma campanha de destruição dos crucifixos que podem ser vistos de fora, sobretudo na província de Zhejiang, e em particular na cidade de Wenzhou, um bastião cristão na costa sudeste. Como resume o padre Jim Mulroney, redator-chefe de uma publicação semanal religiosa de Hong Kong, a "Sunday Examiner", "os católicos na China dizem que a situação não para de piorar, que há mais vigilância da polícia, mais medidas de isolamento, os padres agora têm medo de se contatar uns aos outros". Além disso os fieis não são os únicos; desde que ele chegou ao poder, há quase três anos, o presidente Xi Jinping vem perseguindo os acadêmicos, os advogados liberais, a imprensa e qualquer outro órgão que possa criticá-lo.

Contudo, Mulroney ressalta que o governo chinês trata de forma separada as questões relacionadas à Igreja Católica, o que explicaria o caráter esquizofrênico da atitude que, de um lado, consiste em atacar os crucifixos visíveis em Zhejiang e em reprimir os padres que exercem fora do circuito oficial, e do outro, apostar no acordo com Roma sobre a questão da ordenação dos bispos. "O problema dos bispos se tornou algo emblemático e o Estado chinês quer, apesar de tudo, garantir boas relações com o resto do mundo", acredita o padre Mulroney, que vem acompanhando de perto a situação dos católicos da China continental.

Então foram abertos canais de discussão, e sinais de concessões têm surgido. No ano passado, em Wuhan, no centro do país, o órgão católico estatal se preparava para realizar a ordenação de um padre que não somente ainda não tinha recebido o aval do papa, como não queria ser feito bispo sem a aprovação de Roma. Após uma negociação de última hora, a Igreja oficial chinesa voltou atrás. O mesmo aconteceu em Anyang, onde até o último minuto teria havido dúvidas quanto a Pequim realmente tolerar que a ordenação fosse realizada nas condições aceitáveis aos olhos do Vaticano, no caso uma aprovação paralela pela China e por Roma.

Esse modus operandi havia sido iniciado durante uma ordenação em Xangai em 2005, abrindo um período de cinco anos e dez ordenações pacíficas. Mas, a partir de 2010, a Associação Patriótica destruiu esse consenso frágil ao ordenar um religioso não aprovado pela Santa Sé em Chengde, no nordeste do país, e ao obrigar fisicamente membros do clero fiéis a Roma a assistirem a essa missa.

Acenos discretos do papa

Embora a chegada ao poder simultânea de duas novas personalidades - Xi Jinping e o papa Francisco - em março de 2013 tenha aberto uma janela de oportunidade, rejuvenescendo duas instituições particularmente conservadoras que são o Vaticano e o Partido Comunista Chinês, o fato de Xi ter afirmado a potência chinesa no cenário internacional e o controle do partido único sobre a sociedade deixou pouco espaço desde então.

No entanto, o papa fez vários acenos discretos. Em dezembro de 2014, ele se recusou a receber o dalai lama, execrado pelo governo chinês, que estava de passagem por Roma para uma reunião dos Prêmios Nobel da Paz. Depois, em 19 de janeiro de 2015, ao sobrevoar o espaço aéreo chinês na volta das Filipinas, ele contou ter informado aos chineses que ele queria viajar para lá. No voo de volta de sua visita à Coreia do Sul, em agosto de 2014, ele se dizia disposto a ir para a China "já na manhã seguinte". Depois das Filipinas, o papa Francisco resumiu o atual equilíbrio: "Os chineses são educados e nós também somos educados. Nós fazemos as coisas passo a passo."

Foi aberto um canal de comunicação, mas nem todas as condições estão reunidas. Pequim explicou explicitamente que estava esperando Roma romper suas relações diplomáticas com Taiwan para reconhecer a República Popular da China. Já o Vaticano está estudando a oportunidade de canonizar o jesuíta Matteo Ricci, que no século XVI havia feito a ligação entre a Cidade Proibida e o Ocidente, e continua sendo um personagem admirado. Mas para além da difícil busca por um milagre, a Igreja Católica acredita que seja difícil oferecer outros gestos, caso a China não faça nada para melhorar a situação de seus fiéis. 

A questão dos bispos aparece nesse quadro complexo como um termômetro da vontade chinesa. "Houve conversas de ordem geral e o serviço diplomático do Vaticano disse que espera que não haja mais ordenações ilegais", detalha Jim Mulroney. A China fez essa primeira concessão na terça-feira.

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