A Igreja e o mundo: A pré-história de Laudato Si’

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20 Julho 2015

Uma dúvida que surgiu na esteira da nova encíclica do Papa Francisco é sobre se o seu apelo aos direitos e à dignidade da criação constitui uma continuação do ensino católico até o momento ou se é uma inovação. Estaria o papa ensinando algo novo ou não? Para entender melhor essa história, falei por telefone com o Pe. Seán McDonagh, sacerdote columbano irlandês que tem escrito sobre a teologia moral do meio ambiente há 30 anos. McDonagh também assessorou o Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, contudo ele ainda se mostra disposto a chamar a atenção da Igreja para o atraso em reconhecer a urgência da crise ecológica.

A entrevista é de Nathan Schneider, publicada pela revista America, 14-07-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Eis a entrevista

Muitas pessoas parecem pensar que as ideias presentes na encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco são extremamente novas, mas o senhor tem desenvolvido a teologia da ecologia há décadas. Como este seu interesse começou?

Fui missionário nas Filipinas durante muitos anos, onde trabalhei com uma tribo no sul da ilha de Mindanao chamada T’boli. Assisti à dizimação de sua floresta tropical, extraordinariamente rica em biodiversidade. Quase toda ela foi cortada para ser usada como madeira serrada. Vi o impacto disto tudo: a perda de biodiversidade, a destruição da camada superficial do solo e o movimento do solo para o mar, destruindo os recifes de coral. Comecei a ver que essas coisas tinham relação com a forma como nós estávamos vivendo: uma forma um tanto insustentável. Comecei a desenvolver estes conceitos no primeiro livro que escrevi, intitulado “To Care for the Earth”, foi publicado em 1986. Levei dois anos para publicá-lo, pois ninguém queria ouvir sobre esse assunto naquela época. Era uma época também de um crescimento extraordinário do poder corporativo, facilitado por tratados internacionais e acordos comerciais que não tinham em conta os pobres e o meio ambiente. Agora estamos pagando o preço.

Como antropólogo, procurei ver os impactos destas realidades nas Filipinas. À época, havia muito pouco elemento no ensino social católico a respeito da Terra. As florestas não eram uma questão moral. Elas não tinham direitos. Os direitos valem para os nossos companheiros seres humanos, mas não trazemos nada desta linguagem moral para a forma como nos relacionamos com o planeta. Havia alguns elementos disso no início de 1970, elementos resultantes do trabalho de uma economista católica muito destacada chamada Barbara Ward. Ela trabalhou como assessora do Papa Paulo VI até o final do seu papado; Ward discorreu no Sínodo de 1971 sobre a justiça a respeito da destruição do meio ambiente. Ela buscava a relação entre os países ricos e os países pobres, e a necessidade de as pessoas nos países ricos de partilharem os seus recursos. No final dos anos 1960, Ward começou a se preocupar com o desenvolvimento sustentável e os danos irreversíveis que vínhamos infligindo ao mundo natural. Mas nem assim este assunto se tornou parte do ensino católico.

Muitas pessoas apontam para o legado de São Francisco como sendo o precursor do Papa Francisco nesse assunto. É justo traçar a história nestes termos?

Os franciscanos se tornaram pessoas muito boas no papel sacramental da igreja – nas confissões e tudo o mais –, mas a orientação fraternal de São Francisco para com o resto da natureza não persistiu ao longo dos séculos. Ela somente foi retomada nas últimas duas ou três décadas. Para uma religião que acredita na Encarnação, no Deus que se torna parte do mundo natural, nós dificilmente tivemos uma teologia da criação. E é isso o que estamos tentando mudar agora. O Papa Francisco está falando sobre os direitos intrínsecos da natureza; há 10 anos esta conversa seria inacreditável: que o mundo natural tem um valor intrínseco, e não apenas um valor instrumental para o usufruto humano. O Conselho Mundial de IgrejasCMI estava muito à frente de nós na década de 1980, e nós não cooperamos plenamente com eles. Na verdade, pediram-nos, em 1990, para copatrocinar a Convocação Mundial sobre Justiça, Paz e Integridade da Criação, em Seul, ao que o Vaticano se recusou.

O que o Papa Francisco apresenta, portanto, é uma doutrina um tanto revolucionária. E ela está muito à frente de onde a Igreja Católica se encontra em termos de ministérios que se preocupam com meio ambiente nas paróquias e dioceses locais. Por isso é que vai levar um bom tempo até que esta doutrina encontre o seu lugar dentro da vida da Igreja. Isso é o que, presume eu, a revista America está tentando fazer: ajudar a facilitar este processo.

Espero que sim. Quando estava tentando desenvolver essas ideias na década de 1980, época em que não havia muita coisa no ensino social católico em que se poderia basear, a que o senhor recorreu? Quais as fontes que lhe ajudaram?

Acima de tudo eu me voltei às escrituras, em particular as escrituras hebraicas, que contêm teologias múltiplas da criação, não apenas no Livro de Gênesis, mas também no Livro de Jó, por exemplo. Há espécies que não têm função alguma para a humanidade. Eu me baseei, também, nas crenças e na cultura do povo T’boli, que tem uma abordagem muito mais responsiva ao natural mundo: jamais abusariam dela porque, se abusassem, sabiam que não teriam condições de sobreviver.

Na década de 1980, com o pontificado de João Paulo II, o meio ambiente fez parte de alguns dos seus ensinamentos. Mas nunca houve uma compreensão abrangente dos malefícios que os danos ambientais estavam causando para o tecido da vida no planeta. E não havia um entendimento de que precisávamos abordar este assunto com um senso de urgência absoluta. Mesmo quando as discussões para o desenvolvimento sustentável das Nações Unidas estavam sendo feitas nos anos 1980, a Igreja Católica se colocava na periferia da questão. Seria falso dizer o contrário.

Que tipo de papel a Igreja teve desde então na diplomacia ambiental?

No momento, com a publicação deste novo documento, as pessoas estão se esquecendo da evolução histórica das coisas. Estive na maioria das convenções das Nações Unidas sobre as alterações climáticas, e enquanto os outros grupos religiosos enviavam pessoas que entendiam as questões e as siglas relevantes – tais como IPCC e UNFCCC –, a Igreja Católica enviava, talvez, aquele que acontecesse de ser o núncio apostólico do país onde a reunião estava ocorrendo, junto com alguns outros. Estes pareciam não compreender o que acontecia.

Esta encíclica é muito crítica com os políticos por não apresentarem soluções. Mas eu acredito que a própria Igreja tem a sua culpa, juntamente com os seus bispos, em não reconhecer de imediato a crise da habitabilidade do planeta, não apenas para nós os seres humanos, mas para também para as demais espécies. Que eu saiba, esta encíclica é o primeiro reconhecimento, por parte da Igreja, para com a verdadeira urgência deste problema.

Como o senhor compreende esse conceito de “ecologia integral”, tantas vezes citado na encíclica?

Não vejo nenhum problema com este termo, desde que as pessoas não abusem dele. Devemos lembrar que a ecologia é uma ciência: a ciência da relação entre a biosfera e os demais sistemas na Terra. A ecologia integral que o Papa Francisco desenvolveu estabelece uma relação entre a ecologia e os tipos de esforços que ele quer que construamos em termos de igualdade humana e bem-estar no planeta. Ele foi muito feliz nesse sentido aqui. Ele casa a privação dos pobres do mundo com a destruição dos sistemas de vida no mundo, os ecossistemas. Esse é provavelmente o aspecto mais forte de toda a encíclica. Melhor do que qualquer outro documento de que eu tenha conhecimento – inclusive documentos da ONU –, esta encíclica consegue estabelecer a ligação entre o empobrecimento, a marginalização dos pobres e, ao mesmo tempo, a destruição da Terra.

É verdade que a destruição da Terra tem um impacto maior sobre os pobres. Consideremos a questão das mudanças climáticas: a África é responsável por uma pequena parcela das emissões de carbono na atmosfera, mas estas alterações estão tendo um impacto extraordinário em muitas regiões desse continente. Os pobres, que pouco contribuem nesse caso, são os que sofrem mais.

O que o senhor considera como os desafios que faltam para o desenvolvimento de uma teologia católica da criação?

Estamos começando a recuperar certa sensibilidade para com as outras espécies. Está claro agora que elas têm um valor intrínseco e que nós temos obrigações muito sérias na forma como nos relacionamos com elas. Eu gostaria de ver este aspecto sendo mais desenvolvido. Uma das coisas que as religiões fazem bem são os rituais. De fato, precisamos de um ritual a essas alturas – quase como as lamentações da escrituras hebraicas – para lamentar o que estamos fazendo ao planeta e às espécies, formas de vida que estamos empurrando para o precipício de extinção, sem pensar duas vezes. Precisamos lamentar estas coisas. Precisamos também repensar a nossa relação com as águas. Pessoas como eu, que estão envolvidas com estas questões há anos, veem que, com a intensificação da crise ecológica, um dos primeiros desafios a serem enfrentados pelas pessoas será o acesso à água potável.

Precisamos desenvolver a ética, a teologia e a práxis. A questão sobre como viver as nossas relações junto com o mundo natural está no cerne do que significa ser um católico no século XXI.

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