A gênese do macho. Artigo de Anne-Joëlle Philippart

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02 Março 2015

O ego masculino, imerso em uma cultura patriarcal, opera, então, uma série de deslizes lexicais para se conceder um poder sem partilha a partir do relato da criação do livro do Gênesis.

A opinião é da leiga católica francesa Anne-Joëlle Philippart, em artigo publicado no sítio Comité de la Jupe, 23-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

É normal que haja relações entre cultura e religião. Ambas são atravessadas por uma dominação e por uma transmissão essencialmente masculinas. Desse modo, os homens consolidaram os seus direitos adquiridos veiculando as histórias que os fortaleciam.

Eles também instrumentalizaram os mais belos textos sagrados, extraindo-os do seu contexto e interpretando-os apenas no visual que lhes era favorável.

Os primeiros seis capítulos do Gênesis são um exemplo disso. A interpretação patriarcal transformou a "gênese da criação" em "gênese do macho". Em Gênesis 1, o Deus da Bíblia criou seres humanos (v. 26). Fê-los mulheres e homens à sua imagem e semelhança. Criou a riqueza da diversidade (v. 27), a força da diferença. Nenhuma hierarquia é imposta.

Em Gênesis 2, Deus cria "o Adam", feito de terra, um ser humano indiferenciado, nem mulher, nem homem. Deus, depois, diz que não é bom que o ser humano esteja só. Ele pensa uma pessoa que esteja à sua frente, totalmente semelhante, com a qual possa interagir.

Então, cria uma mulher a partir de um lado do Adam. Anima-a e a faz avançar em direção ao Adam, que se torna, então, finalmente, um homem. Portanto, é a chegada da mulher que transforma o Adam em homem.

Mas o ego masculino, imerso em uma cultura patriarcal, opera, então, uma série de deslizes lexicais para se conceder um poder sem partilha a partir desse texto.

Assim, o Adam torna-se o macho e não mais o ser humano indiferenciado. A mulher é formada por uma costela e não mais de um lado. Torna-se um auxílio na inferioridade imposta pelo patriarcado e não mais uma pessoa à frente e semelhante. O macho fala e nomeia, a mulher se cala.

Gênesis 2 termina dizendo que não é instaurado nenhum desconforto pela diferença, que nenhum muro é criado: na simplicidade da sua diferença, estão harmoniosamente juntos (v. 25). Deus não cria nem papel, nem status de um ou de outro sexo.

Gênesis 3 deve ser posto novamente no seu contexto. É preciso distinguir a parte cultural e humana, de um lado, e o sentido profundo de uma mensagem, de outro. Por trás da tentativa de explicação de um mundo duro em que os seres humanos labutam sob a necessidade da sobrevivência, nas dores e na fadiga, também é referida a colaboração das mulheres e dos homens para melhorar o cotidiano.

E, acima de tudo, vê-se uma mulher que reflete, que se sente responsável, que compartilha os seus projetos e decide dentro do casal. Depois, vê-se o homem e a mulher bastante covardes e prontos para punir, jogando a culpa no outro. Agora, só a serpente é realmente punida. E só a mulher recebe a capacidade de discernir e de detestar o mal. A sua linhagem se torna uma ameaça para este último (v.15).

Cada um paga pelas consequências da transgressão em função da repartição tradicional das tarefas e do status daquela sociedade. Na história da interpretação desse texto, o patriarca força, então, certos traços e omite outros. Inventa uma mulher perniciosa, influenciável, tentadora, na origem da sua queda e do pecado original.

Sobre Gênesis 4, é preciso lembrar, acima de tudo, o surgimento de uma humanidade religiosa, em que os seres humanos começam a fazer ofertas a Deus. Descobrimos, assim, um mundo de homens, reflexo da realidade da época.

Os machos, dominantes e invejosos, se dedicam às primeiras lutas fratricidas, obra de Satanás, embora rendendo homenagem a Deus em função daquilo que são, obra de Deus. As mulheres estão pouco presentes. A cultura atribui-lhes ao lar, onde estão perto das crianças e da vida.

Em Gênesis 5, o texto inspirado nos lembra que a nossa humanidade de mulher e de homem é "à semelhança de Deus" (v. 2). Essa frase, então, é subvertida para permitir que o homem se aposse da capacidade de dar a vida. Assim, por todo esse capítulo, diz-se que os homens "geram" filhos e filhas. Mas gerar e educar é uma obra a quatro mãos dos dois progenitores.

Em Gênesis 6, os homens se dizem "filhos de Deus", enquanto as mulheres tornaram-se objeto de desejo, são declaradas "filhas dos homens". Deus não aprova a maldade do ser humano (v. 5). Faz vir o dilúvio e lembra que a mulher e o homem são, juntos, indispensáveis para a sobrevivência da espécie (v. 19).

Assim, o peso cultural, aquilo que o evangelista Marcos chama de "a tradição dos homens", oculta, às vezes, o mandamento de Deus: "As doutrinas que eles [fariseus e escribas] ensinam não passam de preceitos humanos" (Mc 7, 7). Eles acreditam que são fiéis aos ensinamentos de Deus, mas O limitam, instrumentalizando e mutilando as suas palavras.

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