Papa Francisco não disse que animais de estimação vão para o céu

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15 Dezembro 2014

Quando o Papa Francisco, recentemente, procurou confortar um menino entristecido cujo cão havia morrido, o pontífice adotou a abordagem pastoral que lhe tornou famoso - dizendo ao jovem que não se preocupasse, que um dia ele iria ver o seu animal de estimação no céu.

"O paraíso está aberto a todas as criaturas de Deus", disse Francisco.

A reportagem é de David Gibson, publicada no sítio Religion News Service, 12-12-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Foi um momento brilhante em um dia chuvoso de novembro, e a configuração na Praça de São Pedro só poliu ainda mais a reputação de Francisco como um gentil "papa do povo". A história naturalmente iluminada pelas mídias sociais tornou-se material promocional instantâneo para vegetarianos e grupos de direitos dos animais e, na sexta-feira, chegou à primeira página do The New York Times.

Há apenas um problema: aparentemente nada disso aconteceu.

Sim, uma versão dessa citação foi proferida por um papa, mas foi dita décadas atrás por Paulo VI, que morreu em 1978. Não há nenhuma evidência de que Francisco repetiu as palavras durante a audiência pública no dia 26 de novembro, como tem sido amplamente relatado, e nem estava lá um menino de luto por seu cão morto.

Então, como poderia tal fábula ter sido tomada tão rapidamente como verdade?

Parte da resposta pode ser o tema da catequese do papa para a multidão naquele dia, que se centrava nos fins dos tempos e na transformação de toda a criação em um "novo céu" e uma "nova terra". Citando São Paulo, no Novo Testamento, Francisco disse que "não se trata de aniquilar o cosmos e tudo o que nos circunda, mas de levar todas as coisas à sua plenitude de ser".

A trilha digital de "migalhas de pão", em seguida, parece levar a uma reportagem italiana que estendeu a discussão de Francisco de uma criação renovada à questão de saber se os animais também irão para o céu.

"Um dia vamos ver nossos animais de estimação na eternidade de Cristo", dizia a reportagem citando as palavras de Paulo VI a um menino desconsolado anos atrás.

A história foi intitulada, de uma forma um pouco enganadora: "Paraíso para os animais? O papa não descarta". No entanto, não ficou claro a qual papa o autor da reportagem se referia.

No dia seguinte, 27 de novembro, uma história no jornal italiano Corriere della Sera escrita pelo veterano vaticanista Gian Guido Vecchi foi mais adiante com a manchete: "O papa e os animais de estimação: 'O paraíso está aberto a todas as criaturas'".

Vecchi contou fielmente o discurso do papa sobre uma nova criação e também citou a observação de Paulo VI.

Mas a manchete colocou essas palavras na boca de Francisco, e isso tornou-se a história.

A versão italiana do Huffington Post foi adiante e publicou um artigo citando Francisco como dizendo: "Vamos ir para o céu com os animais" e afirmou que o papa estava citando São Paulo - não o Papa Paulo VI - como base para consolar um menino que perdeu seu cachorro. (Essa história, por sinal, não está em lugar algum na Bíblia.)

A lenda urbana tornou-se desenfreada uma semana depois, quando foi traduzida para o inglês e foi propagada pela imprensa britânica, que cita São Paulo, dizendo que "Um dia vamos ver nossos animais novamente na eternidade de Cristo", ao mesmo tempo que afirma que Francisco acrescentou a frase: "o paraíso está aberto a todas as criaturas de Deus".

O que abasteceu o meme foi o fato de que Francisco foi fotografado aceitando um presente de dois burros de uma empresa de promoção do uso de leite de burra para crianças alérgicas ao leite de vaca - e Francisco disse que sua própria mãe deu-lhe leite de jumenta quando ele era bebê.

As mídias sociais e outros meios de comunicação, em seguida, adotaram a história, misturando ainda mais com as declarações e a cronologia. Tornou-se uma confusão calorosa de uma história que também provocou mais um debate teológico gerado por um papa que já era conhecido por suas controvérsias.

Quando o The New York Times saiu com a história, juntamente com a contribuição de especialistas em ética e teólogos, tornou-se verdade do evangelho.

Os programas de televisão discutiram o avanço teológico do papa, as agências de notícias criaram galerias de fotos dos papas com animais bonitinhos, e outros usaram a história como ponto de partida para discutir o que outras religiões pensam sobre animais e a vida após a morte. Na revista America, o reverendo James Martin escreveu um ensaio discutindo as implicações teológicas das declarações de Francisco e qual o nível de autoridade que elas podem ter. Foi tudo muito interessante e esclarecedor, mas tudo com base em um mal-entendido.

Uma série de fatores provavelmente contribuíram para esse desastre jornalístico:

  • A história tinha tanta coisa relacionada: Francisco tem o seu nome papal em homenagem a São Francisco de Assis, o santo padroeiro do ambientalismo, aquele que notoriamente considerava os animais como irmãos e irmãs.
  • O Papa Francisco está também preparando um grande documento de ensino sobre o meio ambiente, e quase desde o dia em que foi eleito, em 2013, ele salientou o dever cristão de cuidar da criação.
  • Francisco também abençoou o cão-guia de um cego logo depois que ele foi eleito, uma imagem de efeito que foi muitas vezes utilizada em conexão com estes últimos relatórios de sua preocupação com os animais.
  • Além disso, os meios de comunicação e o público estão tão preparados para ouvir Francisco dizer coisas novas e desconsiderar costumes convencionais que a história era boa demais para ser verificada; ela se encaixa com o padrão.

Na maioria dos relatos, os comentários de Francisco também foram comparados com as declarações do seu antecessor, Bento XVI, que insistiu que os animais não têm alma. Esse aparente contraste combina com a narrativa comum que coloca o mais conservador Bento XVI contra o supostamente liberal Francisco.

Isso pode ser verdade em algumas áreas, mas provavelmente não quando se trata de animais.

Adicionando insulto à injúria, o artigo do NY Times citou São João Paulo II, dizendo em 1990 que os animais têm alma e estão "tão perto de Deus quanto os homens". Mas isso, também, era citação falsa, como a crítica de mídia, Dawn Eden, explicou no website GetReligion.

Por outro lado, deveria ter havido sinais de avisos: Francisco faz careta para a moderna tendência de favorecer os "pets" em detrimento das pessoas, e ele criticou a grande quantidade de dinheiro gasto pelas sociedades ricas com os animais, enquanto as crianças passam fome.

Além disso, a enorme popularidade do papa levou a pelo menos uma outra instância de mito construído: reportagens no ano passado disseram que Francisco estava escapando do Vaticano durante a noite para alimentar os sem-teto nos arredores de Roma.

O papa pessoalmente desmascarou esse boato em uma entrevista em março passado, dizendo que a ideia "nunca passou pela minha cabeça" e que "descrever o papa como sendo espécie de super-homem, um tipo de estrela, parece ofensivo para mim".

Talvez ele terá que dar outra entrevista para esclarecer essa última história e para oferecer seus reais pensamentos sobre os animais de estimação e o paraíso.

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