“Deus nos envolve por todas as partes”. A mística do poeta Ernesto Cardenal

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Por: Jonas | 14 Outubro 2014

“Entre os traços fundamentais da mística de Ernesto Cardenal está sua abertura ao todo. Trata-se de uma ‘mística cósmica’, de abertura ao mundo e de sensibilização ao real”. Sua mística é “centrada na experiência. É na força da experiência que nasce sua vocação mística. A experiência do Deus da vida está no núcleo da trajetória espiritual de Cardenal. Trata-se do centro nevrálgico do qual arranca sua dinâmica vital”, considera o teólogo Faustino Teixeira (UFJF), em material que apresentou na terceira etapa do Projeto Rezar com os Místicos, que aconteceu no último sábado, 11 de outubro, promovida pelo CJCIAS/CEPAT.

Eis o texto.

Em âmbito latino-americano, Ernesto Cardenal (1925) veio sempre identificado como um poeta de viva inserção social, como ativista revolucionário com fortes vínculos com a teologia da libertação. Aqui ficou conhecido por seus salmos militantes, pelo singular Evangelho de Solentiname (1976) e pela atuação na insurreição sandinista e presença pública no governo, depois do triunfo da revolução, em 1979. Há, porém, um outro lado de Cardenal que nem sempre veio sublinhado nos trabalhos e reflexões em torno de sua obra e trajetória. É o seu perfil espiritual e místico, destacado precocemente por Thomas Merton, seu orientador na vida monástica, quando passou pela Trapa, entre os anos de 1957 e 1959. No prólogo de Merton para o livro de Cardenal, Vida no Amor, com data de 1966, ele relata que seu noviço nicaraguense já era na verdade “um mestre” espiritual, tecido com o “sinal da sabedoria e a humildade do amor”. Essa dimensão eclipsada de Ernesto Cardenal, “de altíssima vida espiritual”, veio destacada pela estudiosa porto riquinha, Luce López-Baralt, que lançou recentemente um trabalho exemplar sobre o místico nicaraguense: El cántico místico de Ernesto Cardenal  (Trotta, 2012). Para ela, Cardenal revela-se “um dos místicos cristãos mais originais do século XX”, e levanta a hipótese de que ele será conhecido pelas gerações futuras mais como um escritor contemplativo do que como um poeta revolucionário. Outros trabalhos mais recentes sobre Cardenal, em particular dissertações e teses publicadas em diversos países, encaminham-se nesta mesma direção, destacando a espiritualidade contemplativa e interreligiosa deste poeta singular.

Ernesto Cardenal nasceu em janeiro de 1925 na cidade de Granada, na Nicarágua. Sua primeira formação ocorreu com os jesuítas, no Colégio Centroamerica. Prossegue seus estudos na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Autônoma do México, onde conclui sua licenciatura em Letras, em 1947. Parte em seguida para os Estados Unidos, dando continuidade a seus estudos nessa área, e a literatura norte-americana em particular. Permanece em Nova York entre os anos de 1948 e 1949, na Universidade de Columbia. Nesse período, aprofunda-se na temática da poesia contemporânea, sobretudo os poetas do movimento literário imagismo, com destaque para Ezra Pound, mas também Robert Frost, Carl Sandburg, William Carlos Wiliams e Walt Whitman. Os estudos críticos sobre a obra literária de Ernesto Cardenal coincidem nessa percepção do influxo de Ezra Pound em sua poesia. Foi um encontro que proporcionou uma significativa mudança em seu estilo poético e a abertura decisiva para a compreensão da potencialidade poética de toda a realidade. A ideia de que “em poesia cabe tudo”, como o mesmo Cardenal bem sintetizou.

Cardenal retorna à Nicarágua em 1950 e dá continuidade às suas pesquisas sobre os poetas norte-americanos. Dedica-se também em divulgar a poesia nicaraguense, criando junto com outros autores, como Coronel Urtecho, uma nova forma de expressão poética, nomeada como “exteriorismo”, que se deixa penetrar pelos acontecimentos, coisas e pessoas. O manifesto dessa nova maneira de compor veio expresso num clássico texto de Cardenal: Unas regras para escribir poesia. Dentre suas indicações sublinha a preferencia pelo concreto, a naturalidade da linguagem falada e sua condensação, evitando o que não é absolutamente necessário, e a sensibilização tátil e gustativa.

Depois de seu retorno à Nicarágua, Cardenal escreveu lindos epigramas amorosos. Era um poeta de muitos amores, como ele mesmo destaca em suas memórias, publicadas em três volumes, todos pela editora Trotta de Madri: Vida perdida (2005), Las ínsulas extrañas (2002), La revolución perdida (2004). Em suas reflexões relata o dilema que sempre o acompanhou: a sedução de Deus e o amor às mulheres. Ocorria-lhe, às vezes, ter duas vidas para corresponder a esses dois amores e aplacar essa dupla atração, irresistível, de entrega total a Deus e de entrega à união conjugal. O dilema envolvia sua vida e seus sonhos. Sentia-se “perseguido por Deus”, mas a seu redor estavam também sempre as “muchachas em flor”, com seu encanto e sedução. A elas dedicou lindos epigramas.

Algo profundamente significativo ocorreu com Cardenal em junho de 1956, e que vem identificado com sua experiência de conversão. Foi, na verdade, um profundo êxtase místico que transformou sua vida. Naquele sábado, ao meio dia, uma porta se abriu em sua vida, detonando uma inaugural experiência contemplativa, que se conjugava com um projeto solidário ao serviço de seu povo. Sobre essa experiência guardou silêncio por dez anos, e aos poucos em suas obras foi revelando a força de seu significado, a começar pelo lindo relato expresso na obra Vida no Amor.

Decide então, depois dessa experiência inaugural, entrar na Trapa, onde seguirá o noviciado sob orientação de Thomas Merton. Esse ingresso vai ocorrer na primavera de 1957. Foram dois anos e três meses marcados por uma rica experiência espiritual, de convívio e aprendizado. Como traço novidadeiro, a percepção de uma fina sintonia entre vida contemplativa e vida ativa. Sob a direção espiritual de Merton soube perceber que a vida espiritual está profundamente ligada ao interesse humano e sintonizada com o tempo. Esse período em Gethsemani foi de muita reflexão e criatividade, proporcionando o alimento para obras essenciais como Vida no amor (1970), Gethsêmani, Ky (1960), e os Salmos (1964).

Por razões de saúde teve que abandonar a Trapa. Parte então para o México, em 1959, com o propósito de dar continuidade aos seus estudos visando a ordenação sacerdotal. Permanece ali até 1961, vinculado ao mosteiro beneditino de Cuernavaca. Segue depois para a Colômbia, nas cidade de La Ceja, ingressando no Seminário de Cristo Sacerdote, indicado para vocações tardias. Foi um momento importante na vida de Cardenal, onde pôde refletir com calma sobre sua vocação e o significado de sua vida. Após a conclusão de seus estudos vem ordenado sacerdote em agosto de 1965 em Manágua.

O sonho de uma comunidade contemplativa alternativa encontrou realização no arquipélago de Solentiname. Ali nasce em 1966 uma comunidade monástica sob direção de Cardenal e o projeto visava uma presença espiritual distinta, com envolvimento vivo na comunidade dos pobres. A rica experiência veio relatada, em parte, no livro El evangelio en Solentiname. Os famosos diálogos de Solentiname são na verdade os comentários evangélicos das missas dominicais, tecidos pelos participantes da comunidade. A obra ganhou irradiação internacional.

Com o avançar do processo revolucionário nicaraguense, a comunidade de Solentiname foi cada vez mais se identificando e se comprometendo com a dinâmica sandinista, sendo que ao final praticamente toda a comunidade estava nela incorporada. Com a vitória da revolução sandinista, em 1979, Cardenal foi convidado a integrar o governo como ministro da cultura. Ele aceitou o encargo e teve uma singular atuação ao longo de seu exercício. Sua atividade literária teve que ser interrompida por algum tempo, mas vem depois retomada, sobretudo após 1989, quando Cardenal deixa o cargo de ministro. É o momento onde nascem obras importantes como o Cántico Cósmico (Trotta, 1992) e  Telescopio en la noche oscura (Trotta, 1993). É também o momento que vai redigir suas memórias.

Entre os traços fundamentais da mística de Ernesto Cardenal está sua abertura ao todo. Trata-se de uma “mística cósmica”, de abertura ao mundo e de sensibilização ao real. Se o sentido etimológico da palavra mística (myein) envolve a ideia de fechar os olhos e a boca, há algo de “anti-místico” na espiritualidade de Cardenal, na medida em que sua perspectiva envolve um olhar profundamente aberto para a realidade, para o cosmos e para o seu tempo. É também uma mística centrada na experiência. É na força da experiência que nasce sua vocação mística. A experiência do Deus da vida está no núcleo da trajetória espiritual de Cardenal. Trata-se do centro nevrálgico do qual arranca sua dinâmica vital.

Bibliografia:

CARDENAL, Ernesto. Antologia poética. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979.
CARDENAL, Ernesto. Vida no amor. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.
CARDENAL, Ernesto. Salmos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.
CARDENAL, Ernesto. Cântico cósmico. São Paulo: Hucitec, 1996.
LÓPEZ-BARALT, Luce. El cántico místico de Ernesto Cardenal. Madrid: Trotta, 2012.

Textos Escolhidos:

Os textos escolhidos foram tirados de duas obras essenciais de Ernesto Cardenal. A primeira, Vida no amor (original de 1970 e edição brasileira de 1979), é a obra que dá início ao discurso literário místico de Ernesto Cardenal. Uma obra preciosa. Segundo Luce López-Baralt, trata-se “do livro mais gozoso, mais compassivo e mais harmônico do poeta”, escrito durante o período em que ele esteve na Trapa, sob a orientação de Thomas Merton. É sobretudo um “canto à vida e ao amor”, que alcança níveis de profundidade análogos a de outros grandes mestres espirituais como Eckhart e Teilhard de Chardin. A segunda obra, Cântico Cósmico (original de 1989 e edição brasileira de 1996), traduz um momento novo na vida do poeta nicaraguense, manifestando um “assombroso aggiornamento” de seu discurso contemplativo. O toque dialogal vem agora acentuado, com acenos importantes às expressões místicas mais diversas, bem como o colóquio com a cosmologia, a astrofísica e a física quântica. Como sublinha López-Baralt, a obra pode ser definida como uma épica do amor transcendido em favor do próximo, com impressionante densidade compassiva e de viva universalidade.

1. Vida no Amor

(a) Sede de amor

Todas as coisas se amam. A natureza inteira tende para um Tu. Todos os seres vivos estão em comunhão uns com os outros. O fenômeno do mimetismo irmana a todas as plantas e animais e coisas: há insetos que imitam as flores e flores que imitam insetos, animais que imitam a água ou as rochas ou a areia do deserto ou a neve ou os bosques ou a outros animais. E todos os seres vivos se amam ou se comem uns a outros e todos estão unidos uns a outros neste vasto processo do nascimento e do crescimento e da reprodução e da morte. Na natureza tudo é mutação e transformação e mudança de umas coisas em outras, e tudo é abraço, carícia e beijo. Tal como as leis que regem a todos os seres vivos, as leis que regem a natureza inerte (que também está viva, com uma vida imperceptível para nós) são também uma mesma lei do amor (...). As leis da termodinâmica e da eletrodinâmica e da propagação da luz e da gravitação universal são todas uma única lei do amor e na natureza tudo está incompleto e tudo é entrega e abraço, e os seres são na intimidade de sua essência e no mais profundo mistério de seu existir: fome e sede de amor.

(fonte: CARDENAL, Ernesto. Vida no amor. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p. 21-22)

(b) Deus plural

Toda a natureza está cheia de voz: tudo nela é canto e música e som; todos os seres sussurram ou suspiram, arrulham, piam, assobiam, bramam, uivam, rugem, gemem, gritam, choram ou se queixam. O canto das cigarras, dos grilos e das rãs, e o silvo com que se chamam os esquilos rajados, e todas as vozes do campo, são oração. E toda a natureza também está feita de símbolos que nos falam de Deus (...).

O homem fez seus deuses à sua imagem e semelhança porque Deus havia feito o homem à sua imagem e semelhança. A razão de ser do amor humano é porque o rosto do homem é imagem e semelhança do rosto de Deus. Amamos a Deus no rosto dos demais. Todo rosto humano é um rosto velado: é o véu d´Aquele que não podemos ver cara a cara sem morrer.

Fomos criados por um Deus plural, um Deus que falou em plural ao criar o homem (“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”) e é a imagem dessa Pluralidade, da Trindade de Deus, a que existe em cada homem. Ou seja, a imagem do amor: porque Deus é amor (amor mútuo) e fomos criados à imagem de um Deus comunitário (...).

Ele está no fundo de cada ser e está dentro de nós mesmos. Para encontrá-lo, a Ele, não é necessário caminhar longe, nem sair de dentro de si mesmo. E não é necessário caminhar longe para encontrar a felicidade, ao contrário, basta encontrar-se consigo mesmo. Basta descer ao fundo do próprio ser e descobrir a própria identidade (que é Deus). Mas os homens modernos tratam sempre de fugir deles mesmos. Não podem nunca estar calados nem sozinhos porque isso seria estar com eles mesmos, e por isso os lugares de diversão e os cinemas estão cheios de gente. E se alguma vez ficam sós, e estão a ponto de se enfrentar com Deus, ligam o rádio e a televisão.

(fonte: CARDENAL, Ernesto. Vida no amor. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p. 28-30)

(c) O suspiro da oração

A oração é algo natural no homem, como falar ou suspirar, ou olhar, ou como o latejar do coração enamorado; e na realidade é uma queixa e um suspiro e um olhar e um palpitar apaixonado. É algo natural no homem e é um instinto, mas o homem com sua natureza caída tem que aprendê-lo de novo, porque é um instinto esquecido.

A oração não é mais do que estabelecer um contato com Deus. É uma comunicação com Deus e não necessita ser com palavras e nem mesmo com a mente. A gente pode se comunicar com o olhar, o sorriso ou os suspiros, ou contemplar o céu, ou beber água. De fato todos os nossos atos corporais são oração. Nosso corpo formula uma profunda ação de graças em suas entranhas quando sedento recebe um copo d´água. Ou quando num dia de calor mergulhamos num rio fresco, toda nossa pele canta o hino de ação de graças ao Criador, ainda que esta seja uma oração irracional, que se faz sem nosso consentimento, e às vezes mesmo apesar de nós (...).

Deus nos envolve por todas as partes como a atmosfera. E como a atmosfera está cheia de ondas visuais e sonoras, mas nós não podemos vê-las nem ouvi-las, se não as sintonizamos pelos canais devidos, assim também estamos rodeados por todas as partes das ondas de Deus mas não podemos percebê-Lo, se não o sintonizamos pelos canais devidos. Quem vive somente no mundo das percepções sensíveis não pode captar essas ondas de Deus (...).

Mas Deus está também infinitamente longe de nós. Estamos separados d´Ele pelo infinito. E a união com Deus é sempre como a de dois enamorados separados por um vidro, beijando-se através do vidro. Olhamos a Deus na escuridão. (...). Mas também a presença de Deus é vaga, velada, e se vai fazendo mais vaga à medida que Deus mais se aproxima. É como uma espécie de filme transparente, delicadíssimo, que se interpõe entre a percepção e a realidade. E nós não devemos tratar de forçar essa vacuidade, de rasgar esse véu. Estamos tão perto d´Ele que não o vemos (...).

A razão pela qual a gente não costuma experimentar a presença de Deus é porque estamos acostumados a que toda experiência nos venha de fora, e essa experiência é de dentro. Estamos voltados para o exterior, pendentes da sensação de fora, e então nos passam inadvertidos os toques e as vozes de dentro.

Achamos que se Deus nos falasse seria com uma voz material, que nos entrasse de fora, pelos ouvidos. Ou a gente crê que essa presença é a gente mesmo e não reconhece sua presença dentro da gente. Não sabemos que no centro de nosso ser não somos nós, somos Outro. Que a nossa identidade é Outra. Que cada um de nós ontologicamente é dois. Que encontrarmos a nós mesmos e concentrar-nos em nós, é lançarmo-nos nos braços de Outro.

(fonte: CARDENAL, Ernesto. Vida no amor. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p. 31-33)

(d) Deixar-se acariciar

 O amor e a beleza de Deus é que dão sua beleza à alma, e uma alma em que se reflete Deus está toda acesa e ardendo de amor. Uma beleza infinita e um amor infinito refletem-se nela como o profundo céu azul no lago de Nicarágua em maio.

A alma desnuda é toda ela sorriso, emoção e amor, e toda tremor e ardor e paixão e fogo, e pura ternura e sensibilidade e pura vitalidade e pura vida. E unida a Deus quanto mais olha mais o conhece e quanto mais o conhece mais o ama e quanto mais o ama mais o possui, e mais o conhece e mais o ama, e está toda a sua vida dando e recebendo, gozando e amando mais e mais, estremecendo de amor.

A alma é passiva ante Deus e é feminina. A alma não pode tomar a iniciativa. A alma não pode visitar Deus, pois não sabe como ir a Ele, nem onde está, tem que esperar que Ele a visite, e se Ele não chega ela estará sozinha. Ela não pode mover-se de onde está e é Deus quem entra e sai, quem visita e se vai. E a alma tampouco sabe como acariciar. Só muito timidamente se atreve às vezes a acariciar Deus. Mas ela sabe deixar-se acariciar por Ele, e a única coisa que sabe é deixar-se acariciar. A alma não sabe como beijar Deus.

E é Ele quem a beija, ternamente, e às vezes apaixonadamente. E ela só se deixa beijar e se derrete de amor.

(fonte: CARDENAL, Ernesto. Vida no amor. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p. 40)

(e) Eternamente infeliz sem o homem

Cada um de nós é insubstituível, como um exemplar único numa coleção, porque Deus é um artista que não se repete e não se plagia. Nem uma folha se repete, nem se repetem as impressões digitais de uma pessoa, e tampouco uma alma se repete. E aquela que se perde, Deus não a repetirá em toda a eternidade e eternamente Deus sofrerá essa perda.

Deus ama a cada um mais que cada um se ama a si mesmo. Ama a cada um desde que é Deus, e o ama como Ele ama a si mesmo, e como será o desgarramento de Deus quando é separado eternamente de cada um de nós!

Deus é amor. É o amor desprezado. É esta a grande tragédia de Deus. Às vezes o vemos como um tirano, exigindo sempre mais e mais. E no entanto é simplesmente o amor suplicando. O Criador do Universo mendigando o teu amor!

Deus ama a cada um como se não existissem mais do que dois seres em todo o cosmos: Deus é cada um de nós. Deus não precisa do homem para ser feliz, mas ama o homem como se ficasse eternamente infeliz sem o homem. Ainda que haja vivido toda a eternidade sem precisar do homem, humilha-se como um escravo por amor a nós, como se não pudesse viver um momento sem nós. Deus ama tanto a alma, disse Santa Catarina de Gênova, que chega a parecer que Deus fosse um escravo e a alma fosse Deus.

Parece às vezes que Deus se esqueceu do universo inteiro e só quer conversar com a gente. Como o enamorado que se mantém todo o tempo pensando na amada distante assim Tu sonhaste comigo desde antes que eu nascera: desde toda a eternidade.

E nós também somos uma nostalgia de Deus, uma grande nostalgia que cada um traz quando nasce. Ser, para nós, é estar exilados de Deus. Deus é amor e nós, criados à imagem de Deus, somos amor. Todas as nossa células são amor, criadas para o amor, como o grão de incenso é para o fogo: e todo o nosso ser é combustível desse fogo. A única coisa que nos separa de Deus é o ego, o amor a si mesmo. Por isso a união com Deus somente se realiza mediante a morte do ego. Ou Deus ou eu. Tão logo desaparece o ego dentro de cada um, então cada um é habitado por Deus.

(fonte: CARDENAL, Ernesto. Vida no amor. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p. 42-43)

(f) Secreta Mirada

As vezes a gente sente os seus olhos cravados em cada um de nós, olhando-nos fixamente, infinitamente, com uma intensidade infinita fixos em nós desde toda a eternidade. Outras vezes sentimos que sua alma nos olha abrindo imensamente os olhos, toda ela aparecida no olhar, toda a alma convertida em olhar, e o nosso olhar e o d´Ele se confundem como se Ele estivesse dentro de nossas pupilas, amado e amada confundidos em um único olhar. Outras vezes a alma pequenina sente-se abraçada pelo amado, ou se faz ela toda abraços para abraçar a Ele. Às vezes só se abraça o ar, e outras vezes sente-se inconfundivelmente o contato do amado. Às vezes é uma carícia sutilíssima que envolve a pele e a alma, com um calafrio que percorre a pele e a alma (...). Às vezes a alma inteira suspira, toda ela um puro suspiro, amando e amando com cada latido, com cada aspiração e expiração, com todas as células e as glândulas e os órgãos, como uma chama de amor incessantemente subindo e descendo e subindo e descendo.

A alma é mulher, e às vezes na presença d´Ele a alma fica um pouco vaidosa, sabendo-se amada e consciente de seus encantos e de seu domínio sobre o amado, e às vezes torna-se também um pouco tirânica sabendo-o rendido e sabendo-se dominadora, mas sabendo-se também totalmente rendida e dominada.

E de noite a alma dorme sorridente e confiante, sentindo-se amada e acariciada ternamente pelo amado, aconchegada em seus braços. Às vezes acorda de noite sentindo-se beijada, e sentindo um rosto desenhado muito perto de seu rosto: o rosto apagado do véu da Verônica (...).

O que os outros buscam na mulher, na família, nos amigos, nas festas, tudo eu tenho aqui. O que o poeta busca na poesia e o pintor na sua pintura eu tenho aqui. O que o ditador busca no poder e o rico no dinheiro e o bebedor no vinho, e o que antes procurei eu também inutilmente, tudo isso eu tenho aqui. Toda a minha vida está aqui e todo meu mundo e todos os meus amores.

E tenho toda essa riqueza, eu que não possuo nada. E tenho toda a alegria, e toda a paz, e toda a beleza, e todo o amor. Estou saciado de tudo, e não desejo nada. Porque tenho a Ti, tudo tenho, Tu és dono de tudo: todos os astros, e todos os países, e todas as paisagens e todos os seres da terra.

(fonte: CARDENAL, Ernesto. Vida no amor. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p. 60-61)

(g) De repente, Sua Presença

De repente a alma sente Sua presença numa forma em que não pode equivocar-se e com tremor e espanto exclama: “tu deves ser aquele que fez o céu e a terra!” E quer esconder-se e desaparecer dessa presença e não pode, porque está como entre a espada e a parede, está entre Ele e Ele, e não tem onde escapar, porque essa presença invade céus e terra e a invade também a ela totalmente, e ela está em Seus braços. E a alma que perseguiu a felicidade toda a sua vida sem saciar-se nunca e procurando todos os instantes a beleza, o prazer e a felicidade e o gozo, querendo sempre gozar mais e mais, agora em agonia, afogada num oceano de deleite insuportável, sem margens e sem fundos, exclama: “basta, basta! Não me faças gozar mais, se me amas, porque eu morro!” Penetrada de uma doçura tão intensa que se transforma em dor, uma dor indescritível, como algo agridoce que fosse infinitamente amargo e infinitamente doce. Tudo é talvez em um segundo, e talvez não voltará a repetir-se em toda a sua vida, mas quando esse segundo passou a alma entende que toda a beleza e as alegrias e gozos da terra ficaram desvanecidos, são “como esterco” como disseram os santos (Skybala, “merda”, como diz São Paulo) e já não poderá gozar jamais em nada que não seja Isso e vê que sua vida será a partir de então uma  vida de tortura e de martírio porque enlouqueceu, está louco de amor e de nostalgia do que provou, e vai sofrer todos os sofrimentos e todas as torturas contanto que venha provar uma segunda vez, um segundo mais, uma gota mais, essa presença. Amizades, vinho, mulheres, viagens, festas tudo se desvaneceu para sempre e a alma já não conhecerá jamais outra alegria maior do que a felicidade que sentiu.

(fonte: CARDENAL, Ernesto. Vida no amor. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p. 63-64)

2. Cântico Cósmico

(a) Cantiga 42/1

Eu tive uma coisa com ele e não é um conceito.
Seu rosto em meu rosto
e já cada um não dois
porém um rosto só.
Quando exclamei aquela vez
tu és Deus.

Olhar olhado.
Olhar olhando olhar.
Em Bagdá, ou talvez em Damasco
Aquele: Ó Tu, que és eu!
E também o que al-Hallaj exclama:
Se vês a Ele, nos vês os dois.
Ao mesmo tempo aquela outra voz:
Entre Tu e eu há um eu sou que me atormenta.
- Isso de abrir os braços
e abraçar o ar -.

Amada na amada grande nada transformada!
Até fundir-me, fundir-me, confundir-me.
Ser possuído e possuir-te minha GRANDE NADA
GRANDE NADA amada.
Lançado a ti com toda a minha força e nada sinto.
Abraço nada mais que meus dois braços.
Como a região escura que começa onde acaba o universo.

A alma pode conhecer tudo menos a si mesma
(isto é Mestre Eckhart)
pois não conhece a não ser pelos sentidos
e assim não se conhece a si mesma, é sem ideia de si
nada desconhece mais do que a si mesma,
e assim é livre, inocente de si
e assim ela pode unir a Deus que é também puro e sem ideia.
(Mestre Eckhart do movimento místico do Reno).

Os dois nadas do todo desnudados
o todo com o nada
um nada  em seu todo transformado
me fique e me esqueça
deixando o meu passado
entre os quásares olvidado

Se sente
e não se sente
se sente
mas é como que não se sente
ou em verdade é que não se sente.
Algo dentre de mim, não em meu corpo, mais dentro
e abraçado, abraça e é abraçado,
unidos havendo de algum modo dois em um, dois um,
doçura com doçura, numa só doçura,
gozo do outro gozo, os dos gozos um
sem que nada se sinta sensivelmente conste:
é como que abracei a noite
negra e vazia
e estou vazio de tudo
e nada quero
é como se me houvesse penetrado
o Nada.

A ladeira ensolarada e a que está na sombra da mesma montanha.
Yin/Yang identidade dos contrários.
Pelo que houve a invenção do sexo.
Nas antenas a presença, em perfume,
mesmo estando a um quilômetro de distância.
Amor é a dor de ser nada mais que um
e não dois (dois em uma união).
Uma mão em minha mão que não seja minha mão...
... A boca que não é a tua boca.
Procuro um amante no universo (...).

(Fonte: CARDENAL, Ernesto. Cântico cósmico. São Paulo: Hucitec, 1996, p. 385-387)

(b) Cantiga 42/2

Estou sozinho em teu universo.
Peixes que derramam seu sêmen no mar:
os que em tua criação estamos sós.
O propósito do meu Cântico é dar consolo.
Para mim próprio também este consolo.
Talvez mais.

Se te ama mais a ti que tu mesmo
teu tu é superficial e ele é teu profundo tu.

No centro de nosso ser não somos nós mas Outro.
Se o ferro do meu sangue é o mesmo dos trilhos,
meu cálcio o dos alcantilados
onde está Deus meu este eu meu que te ama?
Parte de tua ternura, eu sinto,
são estas partículas que eu tenho.
Doçura de saber que me fizeste.
Deus dos números absurdos,
Do dementemente grande e do dementemente pequeno.
Se é infinito
também será infinita loucura
espontaneidade infinita.
Que um dia tu e eu nos acariciemos
como o fazem com olhos cerrados gemendo os amantes,
num lugar infinito e numa data eterna
mas tão real como dizer esta noite às 8 (...).

(Fonte: CARDENAL, Ernesto. Cântico cósmico. São Paulo: Hucitec, 1996, p. 388-389)

(c) Cantiga 42/3

Somos como essas duas pombinhas de San Nicolás
que quando uma corre
a outra vai atrás
e quando esta é a que foge
aquela a segue
mas uma nunca se afasta da outra
sempre estão em parelha.
Quando Tu de mim te vais
eu sigo atrás de ti
e quando sou eu quem me vou
tu vais atrás.
Somos como essas duas pombinhas
de San Nicolás.

(Fonte: CARDENAL, Ernesto. Cântico cósmico. São Paulo: Hucitec, 1996, p. 391)

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