A Multidão foi ao Deserto de Bruno Cava: a Eterna Revolta de 2013

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Por: Cesar Sanson | 07 Janeiro 2014

"O relato de Bruno Cava constitui-se, em um fino material bruto que não é, atente-se, escrito da perspectiva de construção de uma nova tradição, da futurologia ou da realpolitik, mas ao contrário, ele se anima que essa ida ao deserto em questão foi marcada pelo desejo de sua transição, não teve patriarcas, profetas (ou profecias) ou mesmo nomes: ele pega uma fagulha específica de 2013 e investe no devir revolucionário e não no futuro revolucionário". O comentário é de Hugo Alburqueque comentando o livro A multidão foi ao deserto de Bruno Cava

Eis a resenha.

"Não seguirás a multidão para fazeres o mal; nem numa demanda falarás, tomando parte com a maioria para torcer o direito". Êxodo 23:2


(texto original da Septuaginta, em grego, retirado daqui).


Bruno Cava realizou o lançamento paulista(no) de seu livro em uma animada roda de conversa no Club Noir, um espaço underground do Baixo Augusta, no meio de Dezembro último. Lá, entre tantas, ouvimos do mestre Paulo Cândido o seguinte: a multidão que foi ao deserto encontrará/construirá sua Jerusalém?  Eis a questão de um milhão de dólares, ou quem sabe de vinte cents, sobre o novo livro do editor Quadrado dos Loucos - o qual reúne quase duas dezenas de posts de Cava durante as manifestações no Rio, alguns artigos e duas entrevistas extensas suas.

Os posts, reunidos em um só livro, tomam a forma de ensaios. Embora percam a dinâmica da forma-blog, ganham um certo ar elegante, literário, nas páginas de um livro; além disso, a composição frenética e contígua de Cava ao longo do segundo semestre de 2013, reunidas em um só espaço, tornam os fragmentos um plano precário e vivo: uma cartografia feita à base de peças de quebra-cabeça prático-teórico - no caso, uma experiência militante em forma litero-filosófica.

Sim, Cava, antes de mais nada, é um marxista, portanto, teoria e prática estão juntas porque nunca estiveram, ou puderam estar, separadas; seu marxismo, contudo, é um envolvimento com o que poderíamos chamar de uso subversivo da teologia-política. De tal forma, certas e canhestras apropriações de Badiou e Negri lhe são inevitáveis - e não à toa, o mestrado de Cava é sobre os dois. E, ainda que esta não seja uma obra acadêmica ou mais conceitual, temos, ao fundo, um pouco do que Badiou fez em seu São Paulo e o que Negri não deixa de fazê-lo, de certo modo, ao propor a possibilidade de um outro estado de exceção, que não aquele de Estado, mas exatamente ao inverso.

Usar a teologia-política, empiricamente, de forma subversiva, no contexto das manifestações brasileiras é, portanto, do que trata o livro - Isto é, se apropriar antropofagicamente da TP contra o Estado e contra o Édipo, quase como se faz em um antídoto: ele é feito, ironicamente, a partir da própria doença, ou veneno, que busca combater para que, assim, possamos resistir. Mas como na construção de qualquer antídoto, estaremos sempre diante de extremos que vão da cura à própria contaminação no processo. Mas Cava vai além e sua aposta é simples: por que não correr o risco? Por que temer a potência do evento? Por que se submeter à negatividade da Lei? Por que não uma anomia verdadeira como o Carnaval? Por que não o corpo no lugar do espírito?

O título do livro, a imagem potentíssima que anima cada um dos seus pedaços, é uma referência ao Livro do Êxodo: o segundo livro da Bíblia, ainda no Velho Testamento, no qual é narrada a fuga dos hebreus para o deserto, escapando da opressão da máquina despótica egípcia. Êxodo, naturalmente, é uma palavra e um conceito helênico: no original, em hebraico, falamos do Livro dos Nomes -- ואלה שמות, Shemot ou "estes são os nomes" -- em razão da tradição hebraica de dar como título de um livro suas palavras iniciais -- mas não só, o nome, já sabiam os antigos hebreus, é o dispositivo mediante o qual podemos receber ordens e podemos ser sujeitos [a um regime de regras], daí o fato do deus não ter nome, mas nomear a todos, competência delegada aos patriarcas e, depois, aos pais.  

O início do Shemot é a declinação de uma série de nomes que suscita uma tradição, e uma hierarquia, em fundação. A fuga do Êxodo fez-se, ou pelo menos foi narrada tal e qual, como empreendimento de Estado, a partir da edificação de um novo reino na chegada à Canaã, ou pelo menos do ponto de vista da realização dessa expectativa: é preciso narrar desde o começo uma nova ordem e uma nova hierarquia, como se a luta resistente contra o Faraó já fosse o prenúncio de uma nova ordem e não a abertura para, quem sabe, o nomadismo.

A multidão dessa imagem e dessa passagem é um termo recorrente na Bíblia por força da vulgata, a tradução latina oficial das Escrituras -- obra de Jerônimo de Estridão, santo doutor da Igreja e conterrâneo de Zizek no Mundo Antigo --, que fez qualquer referência a grandes quantidades e a grupos plurais como multitudo, indiferenciando, assim, o majoritário do minoritário o que há, em muitos momentos, sobretudo nos Evangelhos -- e no Apocalipse --, é o ochlos (όχλος), isto é, a própria turba, ou massa. A multidão propriamente dita, um grupo plural e heterogêneo, é o pléthos (πλήθος) e aparece no Velho Testamento -- não à toa, título do Multidão de Negri e Hardt em grego.

A confusão entre a multidão e a turba, na tradução latina, tenha sido feito deliberadamente ou não, esconde um descontinuidade narrativa importante entre o Velho e o Novo Testamento: talvez esconda que a primeira parte das Escrituras trata da luta de uma gente humilhada e escravizada, enquanto a segunda é sobre a forma como se manifesta o ajuntamento humano em torno do messia(ni)s(mo).

No entanto, a multidão, em hebraico, também quase desaparece: normalmente, é uma referência indeterminada como "muitos" -- isto é, para algumas traduções diretas do hebraico, o versículo acima, em vez de "multidão" falará apenas em "muitos". Tenham sido os setenta e poucos rabinos de Alexandria, alguns séculos antes de Cristo, ou Orígenes -- como apontam alguns --, o fato é que a tradução grega das Escrituras é criadora no sentido em que transforma um texto exclusivamente religioso em texto histórico -- sem mudar nada substancial. Os muitos são dispersos, mas a multidão é substantiva e sujeita em uma narrativa histórica -- ainda que seja um conjunto heterogêneo e composto por diferenças intensas, ela é, do ponto de vista da enunciação, bem determinada.

Paradoxalmente, os gregos o fizeram invocam um conjunto determinadamente coletivo, mas não unitário e sintético como, p.ex., povo. E se a tradução do Velho Testamento heleniza uma narrativa hebraica, por outro lado, ela também marca uma semitização do mundo clássico -- processo que se fecha com o Novo Testamento, este sim, já escrito totalmente em Grego. Mas no Apocalipse, essa formidável inversão dos Evangelhos (como bem anotou Lawrence comentado por Deleuze em Crítica e Clínica) a "multidão" que aclama o trono e máquina do Juízo [Final] é, na verdade, uma massa, o ochlos (Apocalipse 7:9-17). No Êxodo, quem foge e luta é uma multidão. E isso não é à toa. A escolha pelo Êxodo, portanto, foi feliz, apesar dos pesares e não se confunde com uma vontade aclamação ou de julgamento.

O problema da nova Jerusalém é bem mais do que especular se, e como, a multidão construirá uma terra prometida -- como se isso fosse sinônimo de saída ou se fosse questão de haver A saída -- depois de ter se retirado das engrenagens da máquina imperial que lhe assujeitava: na verdade, o ponto é se desse movimento ela irá ou não construir uma nova forma Estado -- ou menos, um novo governismo --, a exemplo daquela que lhe manteve cativa, ou assumirá uma liberdade plena. A obra põe essa questão, mas não a responde e se recusa a respondê-la.

O relato de Cava constitui-se, por seu turno, em um fino material bruto que não é, atente-se, escrito da perspectiva de construção de uma nova tradição, da futurologia ou da realpolitik, mas ao contrário, ele se anima que essa ida ao deserto em questão foi marcada pelo desejo de sua transição, não teve patriarcas, profetas (ou profecias) ou mesmo nomes: ele pega uma fagulha específica de 2013 e investe no devir revolucionário e não no futuro revolucionário. Talvez isso irrite. Certamente tem seus riscos e passe por cima de contradições e nuances inevitáveis ao processo em curso -- embora não seja insensível a elas --, mas é de uma intervenção no desejo pelo desejo que ela trata -- não de uma análise de conjuntura, mesmo que fosse a serviço de uma estratégia.

Como Negri e Hardt fizeram em seu Multidão, ao resgatar a potência que existe no Livro do Êxodo -- a fuga, o devir-nômade, a potência revolucionária das minorias etc -- apesar, e a despeito, de suas negatividades, Cava apropria-se do que há de potente em sua experiência justamente por desapropria-la por ação direta: e aí é desimportante se 2013 terminou ou se será um contínuo neste 2014, ou se 2013 não foi 2013, mas que o que está em questão é o que, por excelência, há de imensurável, eterno e incapturável em 2013. Não é de realpolitik, de maioria ou minoria, que essa ida ao deserto trata, mas sim de uma surrealpolitik antropofágica pela graça de um commonismo desde já.

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