“O governo dos EUA tenta nos assustar”, afirma Gleen Greenwald

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Por: Caroline | 03 Outubro 2013

Os drones, a luta contra o terrorismo, a nefasta herança da administração do ex-presidente norte americano George Busch, as zonas obscuras da administração de Barack Obama e a espionagem globalizada montada pelos Estados Unidos a partir do dispositivo Prisma. Glenn Greenwald (foto) conhece esses temas com o rigor e a paixão que o conferem seu compromisso e uma trajetória profissional que vai muito além do caso das revelações do ex-agente da CIA e da NSA Edward Snowden. Gleen Greenwald é o segundo ator central desta trama de espionagem, é este o jornalista que, mês após mês, destila em The Guardian o conteúdo do enorme dossiê que Edward Snowden o entregou em Hong Kong antes de se refugiar na Rússia. Snowden não o elogiou por acaso, Greenwald é um reputado autor de investigações que sacudiu o sistema político norte-americano e o converteu em um dos 50 comentaristas mais influentes dos Estados Unidos.

 
Fonte: http://goo.gl/44tVXd  

Quem conhece seu nome através de Snowden e a tentacular espionagem de Prisma, ignora a sólida trajetória que o respalda. Advogado de profissão, em 2005, Greenwald deixou sua carreira de representante de bancos e de grandes empresas e se lançou em defesa dos direitos cívicos, as liberdades públicas e as investigações de muita importância. Nesse mesmo ano, um caso de espionagem por parte da NAS revelado pelo The New York Times, o impulsionou através de seu blog How Would a Patriot Act, que logo se transformaria em um livro, How Would a Patriot Act? Defending American Values from President. No ano seguinte, este ativista rigoroso publicou um livro feroz sobre a espantosa herança da administração Bush, A Tragic Legacy: How a Good VS. Evil Mentality Destroyed the Bush Presidency. Em 2008, seguiu outro livro sobre os mitos e hipocrisias dos republicanos, Great American Hypocrites: Toppling the Big Myths of Republican Politic, e em 2012, outra obra culminante sobre a forma em que a lei é utilizada para destruir a igualdade e proteger o poder: With Liberty and Justice for Some: How the Law Is Used to Destroy Equality na Protect the Powerful.

Entre livro e livro, Greenwald realizou as investigações explosivas sobre WikiLeaks, Julian Assange, e o soldado Bradley Manning, o militar que entregou a Assange os arquivos secretos. Premiado várias vezes por seu trabalho, Glenn Greenwald define o jornalismo de uma maneira militante: “Para mim, o jornalismo são duas coisas: investigar fatos sobre as atividades das pessoas que estão no poder e estabelecer limites”.

Este é o homem a quem, em maio deste ano - logo após The Washington Post ter recusado publicá-los, Edward Snowden entregou os documentos da abismal espionagem estruturada pela NSA através do dispositivo Prisma com a colaboração das empresas privadas como Google, Facebook, Yahoo!, Microsoft e tantas coisas. Glenn Greenwald vive no Brasil há muitos anos, foi detido e interrogado em Londres durante muitas horas em virtude de uma lei antiterrorista. Ambos sabem que suas conversas e seus gestos são cuidadosamente vigiados. Adaptaram-se a essa vida sem renunciar a continuidade do seu trabalho de denuncia.

Nesta entrevista exclusiva, realizada no Rio de Janeiro pelo jornal Página/12, Glenn Greenwald revela aspectos inéditos sobre Edward Snowden, conta as dificuldades da sua vida e traz um pouco mais sobre o pano de fundo acerca da nova indústria norte-americana: espiar a cada cidadão do mundo.

A entrevista é de Eduardo Febbro, publicada no jornal Página/12, 29-09-2013. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Os Estados Unidos argumentam que a espionagem planetária aponta para a luta contra o terrorismo. Todavia, a leitura dos documentos que Snowden entregou a você não traz este fato.

Se olharmos para os últimos 30 anos e, sobretudo desde os atentados de 11 de setembro, há uma ideia que os norte-americanos querem aplicar: utilizar o terrorismo mundial para que as pessoas tenham medo e assim possam agir de “mãos livres”. Essa é uma desculpa para torturar, sequestrar e prender. Agora estão utilizando a mesma desculpa para espionar. Os documentos sobre a maneira através da qual os Estados Unidos espionam e seus objetivos, pouco tem a ver com o terrorismo. Têm muito a ver com a economia, as empresas, os governos e estão destinados a entender como funcionam estes governos e estas empresas. A ideia central da espionagem é essa: controlar a informação para aumentar o poder dos Estados Unidos ao redor do mundo. Nos arquivos da NSA há documentos sobre o terrorismo, mas não são a maioria. O gasto de milhões de dólares para colecionar toda esta informação contra o terrorismo é uma piada. Espionar a Petrobras, a Al Jazeera e a OEA; esses objetivos nada tem a ver com o terrorismo. O governo está tratando de convencer as pessoas de que se deve renunciar a sua liberdade em troca de mais segurança, trata de assustar e em fazer crer que sacrificar a liberdade é algo necessário para estar a salvo e protegido das ameaças que vem de fora.

O passo dado por Edward Snowden ao fornecer os documentos sobre a maneira que Washington espiava ao planeta inteiro é surpreendente. Como se explica que alguém tão jovem, que formava parte do aparato da inteligência, opte por esse caminho?

Há exemplos na história em que as pessoas sacrificavam seus próprios interesses para acabar com as injustiças. As razões pelas quais atuam assim são complicadas, complexas. Neste caso, há duas coisas importantes: uma é que Snowden valoriza o ser humano e os direitos. Snowden tinha as coisas claras: ou continuar com este sistema, perpetuar este mundo destruindo a privacidade de centena de milhares de pessoas no planeta, ou, melhor, romper o silêncio e atuar contra estes abusos. Creio que Snowden comprovou que se houvesse seguido permitindo a existência deste sistema não poderia continuar vivendo com a consciência tranquila o resto da vida. Ter a dor, a vergonha, o remorso e o arrependimento como sentimento para o resto de seus dias lhe dava medo. Era muito grave para guardá-los em sua consciência. Viu que não havia muitas opções e que deveria tomar partido. Outro ponto importante é que Snowden tem 30 anos, sua geração cresceu com a Internet como uma parte central de suas vidas. As pessoas um pouco mais velhas não se dão conta da importância da Internet para a existência dessas pessoas. Snowden me disse que a Internet ofereceu a sua geração todo tipo de ideias, campos de exploração, contatos com outras pessoas no mundo e uma capacidade de entendimento até então inéditos. Então decidiu protegê-lo. Não queria viver em um mundo em que tudo isso desapareceria, e onde as pessoas não pudessem mais usar a internet.

Mas Snowden foi, contudo, um homem do sistema.

Sim, mas era muito jovem quando começou. Tinha 21 anos. Com o passar do tempo foi mudando seus pontos de vista sobre o governo dos Estados Unidos, a NSA, a CIA. Snowden mudou de forma gradual, progressiva. Começou a se dar conta de que essas instituições que pretendiam fazer o bem não estavam fazemos o bem, mas sim o mal. Snowden me disse que, a partir de 2008 e 2009, já pensava em converter-se em um filtrador de documentos. Como muitas outras pessoas do mundo, Snowden também pensou que a eleição de Barack Obama iria conduzir à atenuação dos abusos. Confiava nisso. Pensou que Obama reverteria o processo, que seria diferente e melhor, mas se deu conta de que não era assim. Essa foi uma das razões. Tomou consciência de que Obama não consertaria nada, ao contrário, Obama seguiu perpetuando o império norte-americano.

O poder dos Estados Unidos é praticamente ilimitado, devido ao controle das tecnologias da informação. Muitos pensam que, de alguma maneira, Obama é pior que Bush.

É difícil de dizer que Obama é pior que Bush. Não faz falta que Obama diga “Espiemos mais”. Obviamente, Obama tem uma parte de responsabilidade no crescimento deste sistema de espionagem. Obama continuou com as mesmas políticas de antes, mas mudou o simbolismo e a imagem. Creio que o escândalo que provocou a filtração destes documentos transformou a visão que as pessoas tinham de Barack Obama. Snowden e eu passamos muito tempo em Hong Kong falando sobre o que iria ocorrer com as revelações. Não podíamos calcular as consequências. Tínhamos consciência da importância, mas pensávamos que poderia haver uma reação apática. Mas desde que se publicou a primeira história o interesse segue crescendo. Isto está se convertendo em um obstáculo para os governos que seguem abusando de seu poder, atuando em segredo. Mas há indivíduos como Snowden, como o soldado Bradley Manning, ou entes como WikiLeaks, que agem sobre a luz da informação. Julian Assange é um herói pelo trabalho que realizou com a WikiLeaks. Em muitos sentidos, foi ele quem tornou isto possível, foi Assange quem concebeu a ideia segundo a qual, na era digital, era muito difícil para os governos proteger seus segredos sem destruir outras privacidades. Essa é a razão pela qual o governo dos EUA está em guerra contra as pessoas que fazem isto: querem assustar outros indivíduos que estão planejando fazer o mesmo no futuro. Eu me apoiei na coragem de Snowden para publicar esses documentos. Edward Snowden é hoje uma das pessoas mais procuradas do mundo, é provável também que passe os seus próximos 30 anos na prisão.  O feito de Snowden é uma das coisas mais admiráveis que eu vi alguém fazer em nome da justiça.

Os governos da Argentina, do Brasil, assim como em outros Estados no mundo, estão pressionando para romper o cerco da espionagem e o controle quase absoluto que os Estados Unidos têm sobre a Internet. Qual é, para você, a solução?

Eu acredito que a solução seria criar um lobby entre os países, que eles se unam para pensar em como construir novas plataformas para a Internet que não permitam que um país domine completamente as comunicações. O problema encontra-se também no fato de que os países começam a ter mais controle sobre a Internet, e isso pode fazer com que caiam na tentação de fazer o mesmo que os Estados Unidos: tentar monitorar e utilizar a Internet como forma de controle. Há uma consciência real de que a Argentina e o Brasil estão construindo uma Internet própria, o mesmo que a União Europeia, algo que até agora só havia sido feito pela China. Mas este risco está na possibilidade de que estes governos imitem os Estados Unidos: criar seus próprios sistemas não para permitir a privacidade de seus cidadãos, mas para comprometê-la. Isso é um perigo. É importante ter a garantia de que o controle que ostenta os Estados Unidos sobre as comunicações não termine em uma transferência a outros poderes. Li um documento no diário The New York Times em que se mostrava o imenso poder e influência que os EUA têm graças à detenção do controle dos serviços da Internet. De fato, os Estados Unidos inventaram a Internet. Muitos países se deram conta de que não seriam capazes de garantir sua confidencialidade se seguirem usando sistemas que se apoiem em servidores norte-americanos.

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