As demandas do Papa Francisco a partir do discurso aos Movimentos Populares. Artigo de Giannino Piana

Foto: Aleteia Image Department | Wikimedia Commons

25 Novembro 2021

 

 

"São muitos os fenômenos denunciados pelo Papa, e que evidenciam o entrelaçamento entre o sistema econômico e o sistema de informação, com fortes repercussões negativas, tanto ao nível da possibilidade de satisfazer necessidades fundamentais - aumentou muito no último período o número de pessoas que morreram por falta dos bens necessários à sobrevivência - tanto no nível das possibilidades educacionais e de aprendizagem da verdade fora das mistificações induzidas pelo poder dominante", afirma o teólogo italinano Giannino Piana, comentando o discurso do Papa Francisco aos Movimentos Populares, em artigo publicado por Rocca, Nº. 23, dezembro de 2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Giannino Piana é ex-professor das universidades de Urbino e de Turim, na Itália, e ex-presidente da Associação Italiana dos Teólogos Moralistas, além de autor de uma importante obra de Teologia Moral Social.

 

Eis o artigo. 

 

Recebendo em audiência no último mês de outubro os representantes dos movimentos populares com os quais tem mantido, desde o início do seu pontificado, uma relação privilegiada, o Papa Francisco aproveitou a oportunidade para fazer um balanço da situação mundial de hoje e ressaltar a urgência de algumas escolhas prioritárias que devem ser realizadas se pretendemos promover uma nova ordem internacional baseada na justiça e na solidariedade entre as classes sociais e entre os povos da terra. A ocasião se apresentou muito oportuna, tendo como interlocutores pessoas excluídas do sistema global, que vivem nas periferias e que tiveram que inventar novas formas de sobrevivência em seus próprios países.

 

Sugestivo é o termo com que o Papa se dirige a eles, definindo-os "poetas sociais", aludindo à sua criatividade e interpretando a sua presença como um "anúncio de esperança", graças ao testemunho que eles propiciam da possibilidade de construir um novo mundo; um mundo não mais "baseado na exclusão e na desigualdade, no descarte ou na indiferença", mas na criação de condições que garantam a todos a possibilidade de uma plena expressão de si, não só material, mas também cultural e espiritual, e dando vida a uma forma de convivência baseada no reconhecimento efetivo da igualdade entre todos os homens e na construção de uma ordem social centrada na consolidação da democracia e na promoção da paz.

 

 

A gravidade da situação atual

 

Segundo o Papa Francisco, a situação socioeconômica e política mundial apresenta aspectos negativos extremamente graves.

Por isso, ele ressalta a necessidade de “refletir, discernir e escolher”, procurando as causas do que aconteceu (e está acontecendo) e identificando rumos concretos para a mudança. Na raiz de tudo está de fato uma cultura que gerou uma mentalidade generalizada, mais imediatamente (às vezes inconscientemente) absorvida do que objetivamente refletida, que produz um embotamento das consciências que torna a gravidade da situação completamente imperceptível.

 

O diagnóstico do pontífice, que inclusive muitas vezes intervém com obstinação (dir-se-ia até mesmo obsessiva) sobre esses temas, inspira-se no recente (e não extinto) fenômeno da pandemia, que tornou mais transparente o que já acontecia há tempo, e que, aliás, acentuou o crescimento.

 

São muitos os fenômenos denunciados pelo Papa, e que evidenciam o entrelaçamento entre o sistema econômico e o sistema de informação, com fortes repercussões negativas, tanto ao nível da possibilidade de satisfazer necessidades fundamentais - aumentou muito no último período o número de pessoas que morreram por falta dos bens necessários à sobrevivência - tanto no nível das possibilidades educacionais e de aprendizagem da verdade fora das mistificações induzidas pelo poder dominante.

 

O Papa Francisco não deixa de estigmatizar em primeiro lugar o forte aumento das desigualdades sociais, tanto nas relações entre os povos como entre as classes sociais (e acrescentaríamos, olhando para a nossa casa, também nas relações entre os sexos: basta pensar na ainda marcada desigualdade dos direitos das mulheres) e entre as gerações. Não é verdade o que muitas vezes se afirma de que a Covid-19 teve as mesmas consequências em todos os segmentos da população. A mudança no modo de vida, que envolveu todos, teve (e ainda tem) repercussões distintas em função do pertencimento a diferentes áreas geográficas e diferentes categorias sociais. A este respeito, o Papa recorda como a pobreza se manifestou sobretudo onde faltam as estruturas básicas; onde a vida se desenvolve em contextos desprovidos de bens elementares para a satisfação das necessidades básicas; ou, ainda, onde ainda não existam - e isto é particularmente válido para crianças, adolescentes e jovens - formas alternativas de intervenção educativa e cultural através do uso das redes sociais.

 

Ao flagelo da crise alimentar - milhões de crianças cuja única refeição era garantida na escola começaram a passar fome devido ao seu fechamento – associa-se assim a impossibilidade de usufruir de serviços de formação que ajudam a pessoa a crescer; enquanto - e isto é válido praticamente para todos os sujeitos pertencentes às diferentes categorias sociais - se manifestou um estado de isolamento e ansiedade pelo futuro devidos à ausência de um contato direto com os outros. A tecnologia, onde existe e pode, portanto, ser utilizada, embora represente um importante instrumento de comunicação e ensino – por exemplo, na educação a distância que também foi praticada entre nós de forma não homogênea nos vários contextos familiares e geográficos - não é (e não pode ser) um substituto das relações diretas, que despertam um envolvimento das pessoas emocionalmente mais rico.

 

O Papa não deixa de assinalar que nesta situação de negatividade também há sinais altamente positivos, devido à presença daqueles que ele não hesita em definir como verdadeiros "mártires" da solidariedade, referindo-se não apenas ao pessoal da saúde de quem ressalta a grande dedicação na época da pandemia, mas também aos expoentes do movimento popular (e, de forma mais geral, a todos os membros de grupos e associações socialmente engajados) que lutaram para garantir que a ninguém faltasse pão. A referência à bem-aventurança de quem tem fome e sede de justiça e dos agentes da paz (Mateus 5, 6 e 9) não é acidental: indica a existência de sinais que vão na direção oposta da lógica dominante e que permitem “sonhar juntos um novo mundo".

 

Um apelo sincero

 

Infelizmente - ainda é o Papa Francisco quem aponta - esses estados de grave mal-estar e flagrante injustiça são ignorados pela maioria das pessoas no Ocidente devido à falta de interesse da mídia e dos formadores de opinião. O provincianismo dos vários instrumentos de comunicação social e, mais radicalmente, a persistência de uma forma de etnocentrismo que está longe de ser posta de lado, são as razões para o obscurecimento do problema. Basta considerar a pouca visibilidade atribuída às tragédias que se repetem todos os dias - das guerras civis às condições de verdadeira miséria, para não falar dos genocídios - em que dezenas de milhares de pessoas perdem a vida, e compará-lo com o destaque desproporcional atribuído a episódios bem menos relevantes que acontecem em nossa casa para percebermos um comportamento feito de dois pesos e duas medidas; comportamento que sugere a percepção generalizada da atribuição de um grau inferior de humanidade aos habitantes do Terceiro Mundo, considerados homens de segunda classe ou sub-homens.

 

O Papa está ciente da necessidade de uma mudança dos estilos de vida pessoais, que não deixa de exortar, mas destaca a importância de que seja acompanhada por uma mudança estrutural, isto é, que se promova uma verdadeira e radical alternativa aos modelos socioeconômico imperantes. As desigualdades atuais não são o resultado exclusivo de egoísmos individuais, por mais importantes que sejam; nascem também por existir um sistema que produziu verdadeiras "estruturas de pecado" das quais só podemos nos libertar através da criação de um sistema baseado no reconhecimento da igualdade e no respeito pela justiça.

 

Daí o sincero apelo do pontífice aos governos e às elites para que implementem uma série de iniciativas que promovam um verdadeiro "serviço aos povos que pedem terra, teto, trabalho e uma vida boa ", reagindo às formas de privilégio e de exploração ainda amplamente vigentes.

 

O apelo sincero do Papa Francisco traduz-se numa série de pedidos de vários tipos em que retorna a fórmula incomum (e forte) "Quero pedir em nome de Deus", um verdadeiro catálogo de propostas que tocam algumas temáticas fundamentais que revelam questões críticas da situação socioeconômica e política atual e que são reconduzíveis a algumas áreas da vida associada.

 

A primeira dessas áreas refere-se à questão econômica e comercial. Para além do discurso básico sobre o sistema mencionado acima - um sistema que, como nos lembra Fratelli tutti, não é apenas eticamente inaceitável, mas que também se revelou (e está se revelando cada vez mais) economicamente improdutivo - o papa se detém em duas repercussões concretas que derivam deste sistema e que se tornaram particularmente evidentes neste tempo de pandemia: a questão das patentes e aquela relativa às estruturas monopolistas para os alimentos.

 

Sobre a primeira, o pedido é a liberalização das patentes para permitir que todos os países, inclusive os mais pobres, tenham acesso às vacinas. O quanto essa meta ainda esteja distante é comprovada pelas estatísticas que nos são oferecidas todos os dias pela mídia, que denuncia o baixíssimo percentual de vacinados em alguns países do Terceiro Mundo.

 

A segunda repercussão - a questão das estruturas alimentares - não é menos importante e, embora já esteja em curso há algum tempo, também se tornou ainda mais evidente por ocasião da atual pandemia.

 

A presença de formas cada vez mais centralizadas (e quantitativamente reduzidas) de estruturas monopolísticas apenas penaliza os pobres, privando-os de bens essenciais para a sobrevivência (é dramático constatar o quanto o fenômeno da fome cresceu nos últimos anos!).

 

A segunda área de interesse é a área política. Nesse âmbito, o apelo papal faz-se sentir com particular participação. Ao lado da questão ecológica amplamente tratada pela Laudato sì', e aqui retomada pelo viés da necessidade de parar com a poluição das águas e a intoxicação da terra pelas empresas petrolíferas, e àquela da crescente dívida dos países pobres com a solicitação aos países ricos de perdoá-lo, permitindo que os primeiros deem vida a processos de desenvolvimento humanizadores, palavras pesadas são usadas para condenar não só as agressões, os embargos e as soluções unilaterais que agravam os conflitos, mas também a fabricação e o tráfico de armas, que alimentam a violência e as guerras.

 

As responsabilidades dos países ricos, não excluindo a Itália, são muito relevantes a este respeito: devemos todos fazer um sério exame de consciência pela conivência que, direta ou indiretamente, emprestamos a essas operações por não reagir com energia suficiente às escolhas ligadas às orientações básicas do atual sistema econômico e político.

 

Finalmente, a última (mas não em ordem de importância) área de interesse diz respeito ao uso da tecnologia.

 

A este respeito - como já foi referido - não há preconceito negativo do Papa Francisco contra novos instrumentos de comunicação, mas ele põe em julgamento, por um lado, a exploração que muitas vezes se faz através deles da fragilidade humana, tanto criando condições de trabalho alienantes, tanto manipulando a verdade – basta pensar nas chamadas fake news – e dando espaço à lógica da pós-verdade e da desinformação; e, pelo outro, exorta as gigantes das telecomunicações que liberalizem o acesso aos conteúdos educacionais e a um intercâmbio ampliado que favoreça formas de aprendizagem e de confronto cultural até mesmo para sujeitos pertencentes aos povos e às classes sociais mais desfavorecidos.

 

Um apelo do Papa Francisco dirigido sobretudo aos poderosos da terra; mas também um apelo que envolve a todos - não é por acaso que os pedidos papais foram formulados por ocasião do encontro com os movimentos populares - porque nos faz sentir o peso da responsabilidade de cada um na mudança das atuais estruturas da sociedade, de forma a favorecer o desenvolvimento de uma convivência mais solidária e um mundo mais pacífico.

 

 

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