Honduras. Outrora migrante indocumentado, hoje candidato a prefeito que espera ajudar a ajustar o país

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25 Novembro 2021

 

Freddy Murio escora-se no quadro da porta de sua casa, seu chapéu e a cinta com uma enorme fivela que o fazem parece como uma versão hondurenha do Marlboro Man. Depois de 12 anos como um construtor civil indocumentado em Nova York, Murio está agora de volta a sua cidade e concorre a prefeito nas próximas eleições hondurenhas.

 

Imagem: Mapa de Honduras | Foto: Wikiemdia Commons / OCHA

 

A reportagem é de Peter Schurmann, publicada por National Catholic Reporter, 22-11-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Como os migrantes que fogem da pobreza, violência e corrupção, que são características cotidianas desta nação centro-americana cheia de problemas, a história de Murio é um exemplo notável do que alguns esperam nos EUA em marcar um novo começo.

“Eu sou um nacionalista”, diz Murio, seu tom firme, mas suave. Católico devoto, seus dedos circundam o crucifixo de ouro em volta do pescoço enquanto pondera se foi deportado ou devolvido voluntariamente. “Voltei porque amo minha cidade.”

Cercado por colinas verdejantes, Yorito – 200 quilômetros ao norte da capital, Tegucigalpa – é um município com cerca de 20 mil habitantes, muitos deles membros da comunidade indígena Tolupán. A maioria aqui trabalha nos campos locais, cultivando abacates, café e criando gado.

 

Imagem: Mapa de Tegucigalpa | Foto: Jaetguz / Wikimedia Commons

 

Há dois anos, o município ganhou as manchetes ao lutar com sucesso contra os planos de estabelecer uma operação de mineração na região, o que os moradores descrevem como uma tentativa de aquisição hostil de sua comunidade. Empunhando pouco mais do que pedras, os moradores se uniram para expulsar a empresa e os seguranças armados que os acompanhavam.

Para Murio, a experiência foi um momento decisivo.

“Não esperava voltar para encontrar uma mineradora na minha cidade. Eles vieram com armas, com facões. As pessoas daqui ficaram traumatizadas”, diz Murio, acrescentando que está determinado a impedir o retorno da empresa.

E essa é uma possibilidade distinta, explica Aura Murillo Torres, 35 anos, moradora de Yorito, que diz que só recentemente se envolveu na política e está apoiando a campanha de Murio. Enquanto fala, ela segura uma pedra muito parecida com as que ela disse que os moradores usaram para despejar a operação de mineração dois anos antes. “Estamos cansados da realidade atual. Todos estão cansados... Queremos ver uma mudança com essas eleições”.

Um estudo de julho divulgado por uma coalizão de organizações jesuítas da América do Norte e Central destaca os devastadores impactos sociais e ambientais da mineração em Honduras, que afetaram de forma esmagadora as comunidades indígenas e afro-hondurenhas pobres, muitas das quais não possuem títulos de terra formais e, portanto, são mais vulneráveis ao deslocamento forçado.

Os autores do relatório concluem que os danos causados pela mineração se estendem a todos os aspectos da sociedade rural hondurenha, impactando a segurança hídrica e alimentar, bem como o bem-estar econômico e a representação política.

“O estado falido em Honduras e suas políticas extrativistas”, escrevem, “produziram uma estagnação e declínio nos indicadores de segurança humana, progresso social e paz”. Essas políticas, além disso, estão em contradição direta com os princípios enunciados na encíclica Laudato Si' do Papa Francisco, de “preocupação pelo bem de todos os cidadãos, especialmente dos mais vulneráveis, bem como pelo bem da terra, nossa Casa Comum”, diz o relatório.

Muitos hondurenhos apontam o golpe militar de 2009 – um golpe no qual os Estados Unidos teriam desempenhado mais do que um papel passivo – como o início de uma espiral descendente que colocou o país entre os mais pobres do Hemisfério Ocidental. O governante Partido Nacional, liderado pelo atual presidente Juan Orlando Hernández, cujo mandato final está chegando ao fim sob uma nuvem de suspeitas sobre supostas ligações com narcotraficantes, manteve seu controle no poder desde então.

Disputando para substituir Hernández à presidência está o candidato do Partido Nacional e prefeito de Tegucigalpa, Nasry Asfura, ou “Papi” como é conhecido, cuja plataforma continuaria as políticas existentes construídas em torno do mesmo modelo extrativista de desenvolvimento econômico que alimentou a violência contínua contra as comunidades agrícolas rurais como Yorito no norte do país.

Essas mesmas políticas também coincidiram com o crescente aumento de migrantes chegando diariamente à fronteira com os Estados Unidos. Um relatório de junho do Instituto de Política Migratória dos EUA observou que um em cada cinco hondurenhos expressa o desejo de deixar o país, com o número de hondurenhos detidos por funcionários da imigração dos EUA e do México chegando a centenas de milhares.

Concorrendo contra Asfura está a candidata da oposição do Partido Libre, Xiomara Castro, esposa do ex-presidente Manuel Zelaya, que foi deposto no golpe de 2009. Castro prometeu estreitar os laços com a China e se afastar do capitalismo de livre mercado que atualmente reina aqui.

“A única oportunidade para o país construir uma base democrática é por meio das próximas eleições”, disse Rixi Moncada, um advogado e parte de um comitê rotativo no recém-criado Conselho Nacional Eleitoral, CNE, responsável por entregar a apuração final dos votos após o encerramento das urnas.

Moncada, uma ex-funcionária do governo Zelaya, lembra-se de ter caminhado três dias para entrar na Nicarágua após o golpe de 2009, uma experiência que ela diz que a fortaleceu contra as táticas de medo e intimidação que se tornaram marcas da política eleitoral hondurenha.

Ainda, ela admite, salvaguardar a integridade das próximas eleições, agendada para 28 de novembro, não será tarefa fácil. “Ninguém está preparado para a criminalidade”, disse ela, referindo-se a atual violência política que ela vê como uma extensão do golpe. “Nós estamos preparados para o processo.”

Mais de 20 ataques contra candidatos e seus familiares foram registrado desde que a campanha iniciou em fevereiro, incluindo o recente assassinato de um candidato a prefeito.

Gustavo Irias, diretor-executivo da ONG CESPAD, a qual defende as comunidades marginalizadas de Honduras, disse que, independentemente de quem vencer, o fator crítico para a nação é assegurar a legitimidade do voto, iniciar a reconstruir a confiança dos hondurenhos em seus líderes e em sua democracia, uma confiança que foi ceifada em 2009.

“Esse á a chance para Honduras recuperar seu sentido enquanto nação”, disse Irias.

Nem todo mundo é tão otimista.

“Nada vai mudar”, insiste o morador de Tegucigalpa Victor Manuel Mayorga, servidor público que diz não ter podido se aposentar porque o governo roubou os fundos de pensões do estado. Aos 79 anos, Mayorga faz parte de uma pequena minoria de idosos em um país onde a média de idade é de apenas 24 anos.

Sentado na praça central da capital, à sombra da Igreja de Santa María de los Dolores, construção do século XVIII – uma das igrejas mais antigas da América Central – ele lamenta a falta de educação e saúde e acusa funcionários de todas as tendências políticas de abandonar o país.

“Acredito na democracia, mas em Honduras ela está rompida. Está rompida desde o golpe”, diz ele.

Os bispos hondurenhos, por sua vez, pedem aos moradores que superem esse sentimento de apatia e frustração, ao mesmo tempo que pedem aos eleitores que evitem candidaturas “manchadas” por ligações com traficantes de drogas, uma tarefa difícil em um país onde a influência de oligarcas e cartéis está intrinsicamente entrelaçada com a política partidária.

Os líderes da Igreja também estão alertando sobre as campanhas de compra de votos que oferecem modestos pagamentos em dinheiro ou outros programas sociais em troca de lealdade partidária. O financiamento de um desses programas, “Bono Vida Mejor”, ou Benefício Vida Melhor, acabou de ser aprovado pelo governo e distribuiria pagamentos em dinheiro de cerca de 300 dólares para as famílias que encaixam nos critérios, “dinheiro para financiar campanhas políticas e comprar consciências nas eleições gerais”, de acordo com o CESPAD.

De volta a Yorito, os moradores estão bem familiarizados com o programa Bono Vida, lembrando eleições anteriores onde, sob o mesmo programa, as autoridades ofereceram fertilizantes às famílias locais em troca de seu apoio, que famílias de fertilizantes dizem já pertencer a eles.

Enquanto passeamos pela cidade, Aura Murillo aponta para uma cerca de concreto em ruínas, em torno a um campo de futebol. O muro está inacabado, seus fundos desapareceram, um pequeno exemplo da corrupção galopante – estudos estimam que 10,3 bilhões de dólares foram perdidos para a corrupção no país entre 2014 e 2018 – que continua a consumir os alicerces da sociedade hondurenha.

Mas em lugar de desespero, os residentes aqui expressam uma determinação corajosa de mudar as coisas. “Estamos trabalhando pelo básico”, diz o mecânico Cesar Nahun Aquino, “para nos livrarmos de eleições corruptas, para recuperar a transparência e reconstruir a economia local para que beneficie a comunidade”.

Aquino diz que a única maneira de começar a transformar as condições é a partir do zero. “Temos que começar pela nossa região, pelo nosso município, antes de começarmos a mudar o país”.

Sentado à sombra de seu pátio, Murio conta a história de uma lenda local envolvendo um macaco que vive do outro lado do morro em frente a sua casa. De acordo com a tradição da cidade, o macaco entra furtivamente nas casas à noite para roubar os moradores. É uma analogia apropriada.

Ainda assim, apesar da experiência de sua comunidade, Murio está concorrendo pelo Partido Nacional – o mesmo partido que impulsiona o boom da mineração no norte de Honduras. É, ele insiste, a única maneira de Yorito começar a recuperar sua autonomia, usando as alavancas de poder disponíveis para arrancar o controle daqueles que fariam mal à comunidade para encher seus bolsos.

Refletindo sobre seu tempo nos Estados Unidos, ele diz: “viver em Nova York foi como uma escola para mim. Lá, aprendi o que significa construir uma comunidade”.

Ele agora toma essas lições de volta para casa, seu caminho cambiante, por assim dizer, o fluxo de migrantes que se dirigem desesperadamente na direção oposta. Às vésperas das próximas eleições, ele ecoa o sentimento daqueles em sua cidade que conseguiram afastar os poderes constituídos.

“Queremos viver em paz. Queremos ser capazes de resolver nossos próprios problemas. Este é um tempo de esperança”.

 

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