Por que o índice de preço dos alimentos bateu recorde em setembro de 2021? Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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11 Outubro 2021

 

"A sociedade global está envolta num círculo vicioso, pois quanto mais alimentos são produzidos maiores são os custos ecológicos e maior é a dificuldade para colocar comida na mesa da população mundial", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia, em artigo publicado por EcoDebate, 08-10-2021.

 

Eis o artigo.

“De pé ó vítimas da fome; De pé famélicos da terra”

A Internacional

 

O Índice de Preços dos Alimentos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) está em alta e o século XXI tem mostrado um crescimento da carestia, ao contrário do século passado. O Índice de Preço dos Alimentos da FAO (FFPI) atingiu valor recorde (em termos reais) em setembro de 2021.

O artigo “Rising Prices on the Menu”, de HELBLING e ROACHE (03/2011), mostrou que o preço dos alimentos caiu pela metade ao longo do século XX, embora a população tenha crescido 4 vezes e o PIB mundial tenha aumentado cerca de 18 vezes entre 1900 e 2000. Ou seja, além do maior volume de população, o poder médio de consumo per capita mundial cresceu cerca de 4,5 vezes no século XX, enquanto os preços da comida se reduziam. A abundância de energia e os baixos preços dos hidrocarbonetos explicam grande parte da queda do preço dos alimentos.

Mas o quadro mudou. Houve dois picos do Índice de preços no século XX, o primeiro logo depois da 1ª Guerra Mundial e da chamada pandemia da “Gripe Espanhola” (por volta de 1919 e 1920) e o segundo no período 1974-1975, devido ao primeiro choque do petróleo ocorrido na época da guerra do Yom Kippur. A regra é energia barata comida barata e energia cara comida cara.

O gráfico abaixo mostra o Índice de Preço dos Alimentos da FAO (FFPI), em termos nominal e real, de 1961 a 2021. Nota-se que, na virada do século, o Índice estava pouco abaixo de 70 pontos, em termos reais (para a média de 2014 a 2016 = 100 pontos). Nos anos seguintes, a despeito de algumas oscilações, a tendência é de alta. Em meados de 2008, antes da crise financeira do Lehman Brothers, o Índice chegou a 128,9 pontos. Caiu um pouco com a crise econômica de 2009, mas voltou a subir em 2010 quando atingiu o valor de 129,4 pontos em dezembro, o maior valor do século até então e só menor do que o Índice de 1974.

Com o fim do superciclo das commodities houve redução do preço dos insumos agrícolas e, principalmente, houve queda do preço do petróleo. O FFPI caiu para cerca de 90 pontos entre 2015 e o primeiro semestre de 2020. Mas o preço global dos alimentos começou a subir ano passado e, desde 1974, atingiu o maior valor da série em setembro de 2021, com 130,0 pontos.

 

Gráfico do Índice de Preço dos Alimentos da FAO (Foto: EcoDebate)

 

Os 130 pontos do Índice de Preços de Alimentos da FAO, em setembro de 2021, significou alta de 1,5 ponto (1,2%) em relação a agosto e 32,1 pontos (32,8%) em relação ao mesmo mês do ano passado. O aumento mais recente do FFPI foi em grande parte impulsionado pelos preços mais altos da maioria dos cereais e óleos vegetais. Os preços dos lácteos e do açúcar também ficaram mais firmes, enquanto o subíndice de preços das carnes permaneceu estável.

Um dos fatores estruturais que explicam esta alta da carestia é o preço do barril do petróleo que dobrou nos últimos 12 meses, passando de menos de US$ 40 no final de outubro de 2020 para cerca de US$ 80 em outubro de 2021, conforme mostra o gráfico abaixo.

 

(Foto: EcoDebate)

 

Sem dúvida, o FFPI e o preço dos combustíveis fósseis apresentam alta correlação, conforme mostra o gráfico abaixo. O baixo preço do petróleo na última década do século passado coincide com o baixo preço dos alimentos. Porém, desde 2002, os preços de petróleo começaram a subir atingindo um pico em 2008, caindo em 2009 devido à crise financeira internacional e voltando a subir em 2010. Entre 2015 e o primeiro semestre de 2020 as duas séries apresentaram valores mais baixos. Mas a subida do preço dos combustíveis fósseis no segundo semestre do ano passado coincide com o aumento do Índice de Preços dos Alimentos em 2021.

 

(Foto: EcoDebate)

 

O gráfico abaixo mostra que a variação do preço do petróleo explica dois terços (66,7%) da variação do preço dos alimentos. Evidentemente, existem outros fatores que pressionam o preço da comida e o agravamento do aquecimento global, a degradação ambiental, assim como os eventos climáticos extremos, são fatores que aumentam o custo da produção de alimentos. Portanto, o aumento da demanda por alimentos (em função do crescimento populacional) e a pauperização dos ecossistemas são fatores de pressão sobre o preço dos bens de subsistência.

Relação entre o preço dos alimentos e preço do petróleo: meses de 01/1990 a 09/2021

 

Gráfico da relação entre o preço dos alimentos e o preço do petróleo (Foto: EcoDebate)

 

Fonte: elaborado por JEDA com base no Índice de Preço real dos Alimentos da FAO (aqui) e Preço do barril do petróleo (WTI, disponível aqui

 

O aumento do preço global dos alimentos, evidentemente, afeta os preços nacionais, embora o Brasil seja um grande produtor de bens de subsistência. Os preços nacionais são pressionados em função de 5 fatores, que, inclusive, foram agravados pela pandemia da covid-19: aumento dos custos de produção e transporte; desorganização da cadeia produtiva global (gerando gargalos na produção e distribuição); aumento do preço do petróleo; danos causados pela crise ambiental; e desvalorização cambial.

De fato, no Brasil, a fome atingiu 19,1 milhões de pessoas em 2020, parte de um contingente de 116,8 milhões de brasileiros que convivam com algum grau de insegurança alimentar — número que corresponde a 55,2% dos domicílios, segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, realizado pela Rede PENSSAN.

No dia 19/03/2021, o presidente Jair Bolsonaro reconheceu a gravidade da situação e disse: “O caos vem ai, a fome vai tirar o pessoal de casa”. Mas como as políticas públicas não resolveram a questão da fome, as manifestações do dia 02 de outubro foram marcadas por protestos contra a inflação, o aumento dos combustíveis – especialmente o aumento do preço do botijão de gás – e o aumento do preço dos alimentos. Uma foto da capa do jornal Extra viralizou nas redes sociais, mostrando pessoas em desespero disputando ossos e pelanca no caminhão da “xepa da carne” no Rio de Janeiro. O pé e o pescoço de galinha viraram itens essenciais na mesa da população mais pobre do país. A perspectiva para o final de 2021 é de mais carestia e fome.

Assim como existe uma correlação entre o preço do petróleo e o preço dos alimentos, há também uma correlação entre o aumento do preço dos alimentos e a ocorrência de protestos em todo o mundo, segundo estudos do NECSI (New England Complex Systems Institute). A última onda de aumento do preço dos alimentos desencadeou a Primavera Árabe. Para agravar a situação atual, o Brasil vive uma crise hídrica, uma crise energética e em várias regiões ocorrem tempestades de areia em decorrência de eventos climáticos extremos. A combinação de crise econômica, crise social e crise ambiental prejudicam sobremaneira as condições de vida da população brasileira.

Não faltam alertas. Esta semana foi divulgada a Declaração de São Paulo sobre Saúde Planetária que diz: “A humanidade, e de fato toda a vida na Terra, está em uma encruzilhada. Nas últimas décadas, a escala dos impactos humanos nos sistemas naturais da Terra aumentou exponencialmente a ponto de exceder a capacidade do nosso planeta de absorver nossos resíduos ou fornecer os recursos que estamos usando. O resultado é uma vasta e acelerada transformação e degradação da natureza. Isso inclui não apenas a mudança climática global, mas também a poluição em escala global do ar, da água e do solo; degradação das florestas, rios, sistemas costeiros e marinhos de nosso planeta; e a sexta extinção em massa da vida na Terra” (The Lancet, 05/10/2021).

A Declaração de São Paulo sobre Saúde Planetária é uma chamada global à ação da comunidade de saúde planetária que traça um caminho para apoiar um mundo pós-pandêmico mais justo e resiliente. As recomendações transversais da Declaração foram elaboradas durante o Encontro e Festival Anual de Saúde Planetária 2021 em São Paulo, Brasil, concluindo com uma consulta global de cerca de 350 participantes de mais de 70 países. Lembrando que alimentação saudável é parte essencial da Saúde Global.

O mundo precisa acordar e tomar uma atitude séria na COP26 que começa no final de outubro em Glasgow, no Reino Unido. A humanidade já ultrapassou os limites da resiliência do Planeta e os diversos e simultâneos desastres ecológicos dificultam cada vez mais a produção alimentar. O relatório do IPCC “Climate Change and Land”, divulgado em 08/08/2019, mostra que a produção e o consumo de alimentos contribuíram para o aumento das emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEE), perda de ecossistemas naturais e diminuição da biodiversidade. O sistema alimentar responde por cerca de 30% de todas as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e 80% do desmatamento global. A agricultura e a pecuária ocupam cada vez mais espaço no mundo e ao acelerar o aquecimento global e suas consequências desastrosas encarecem o preço dos alimentos (Alves, 12/08/2019).

A sociedade global está envolta num círculo vicioso, pois quanto mais alimentos são produzidos maiores são os custos ecológicos e maior é a dificuldade para colocar comida na mesa da população mundial. O caminho atual é insustentável e o aumento do Índice de Preço dos Alimentos da FAO é o reflexo da insustentabilidade do modelo de vida predominante na dinâmica que sustenta a economia internacional, com suas desigualdades, monopólios e a tendência de crescimento desregrado e ilimitado.

O recorde do FFPI da FAO, em setembro de 2021, é apenas um alerta. Infelizmente, a perspectiva é de novos aumentos nos meses vindouros e outros recordes poderão ser registrados se não houver mudança de rota, diminuição do consumo global e, acima de tudo, rápida redução das emissões de gases de efeito estufa e restauração dos ecossistemas.

 

Referências

 

ALVES, JED. Relatório do IPCC e o efeito perverso entre produção de alimentos e mudanças climáticas, Ecodebate, 12/08/2019. Disponível aqui.

ALVES, JED. O preço dos alimentos bate recordes e aumenta a fome, Ecodebate, 14/04/2021. Disponível aqui.

HELBLING, Thomas & ROACHE, Shaun. Rising Prices on the Menu, FMI, F & D, v. 48, março de 2011. Disponível aqui.

Myers et. al. The São Paulo Declaration on Planetary Health. The Lancet, 05/10/2021. Disponível aqui.

Renata Lo Prete. O Assunto #415: Comida cara, tensão social em alta, G1, 22/03/2021. Disponível aqui.

 

 

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