Centro Alternativa de Cultura - CAC na Amazônia: ‘cuidadania’ nas práticas de educação popular

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Por: Viviane Aparecida Ferreira de Lara Matos | 07 Outubro 2021

 

A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria. (Paulo Freire)

No dia 30 de setembro, os populares Juscelio Pantoja e Suelem Velasco, do Centro Alternativo de Cultura - CAC, de Belém - Pará, assessoraram a segunda oficina do ciclo de estudos e debates TransFORMAR comunidades: construção de metodologias populares, com trabalhadores(as) da Política Nacional da Assistência Social, promovido pelo CEPAT.

A iniciativa conta com a parceria e o apoio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, Curso de Serviço Social e Núcleo de Direitos Humanos da PUCPR, Observatório Nacional Luciano Mendes de Almeida - OLMA e Departamento de Ciências Sociais, da Universidade Estadual de Maringá.

Jucelio e Suelem compartilharam a experiência de trabalho do CAC com 14 comunidades na periferia de Belém, Ananindeua e Barcarena. A instituição promove um trabalho que alcança mais de 600 crianças e adolescentes e 90 mulheres que lutam por seus direitos e resistem em seus territórios urbanos, rurais e tradicionais.

O CAC é um centro social da Rede de Promoção da Justiça Socioambiental da Companhia de Jesus, presente na Amazônia, articulado nacional e internacionalmente para a promoção e defesa dos direitos humanos. Com 30 anos de história, é uma entidade de referência na formação político-cidadã e na articulação dos povos quilombolas, ribeirinhos, indígenas, pequenos agricultores e dos diversos movimentos sociais.

O CAC nasceu em solidariedade às crianças, em primeiro lugar, pois havia um alto índice de repetência escolar identificado pelos educadores. Suelem relata que os primeiros objetivos eram que as crianças não abandonassem a escola e, na sequência, tivessem um aproveitamento melhor dos conteúdos acadêmicos. Contudo, logo se depararam com as desigualdades sociais das comunidades que visitavam e, com o passar do tempo, mergulharam na educação popular, deixando o velho assistencialismo de lado e apostando em uma ação social transformadora, com o protagonismo das crianças e mulheres.

Para o CAC, o processo educacional parte da riqueza cultural e dos valores das comunidades, que são levados em conta no momento do planejamento traçado para cada lugar. Faz parte da metodologia fazer uma escuta ativa, com a realização de vários encontros nos territórios que vão atuar.

A primeira escuta é a das crianças, com uma metodologia chamada brincação. É no encontro, na brincadeira e no embalar das canções que as crianças revelam a sua visão de mundo e suas inquietações. Segundo Manoel de Barros, o pensamento da criança é sistematizado a partir das brincadeiras. É assim que ela vê o mundo. E quando vê o mundo e expressa sua leitura dele, transforma isso em um ato político. Então, brincar é exercer a cidadania.

Em seguida, a equipe realiza rodas de conversa com os participantes da comunidade e dialoga acerca dos modelos de comunidade e sociedade de crianças e adultos, com o objetivo de alinhar os sonhos das diferentes gerações da comunidade, em busca do bem viver.

 

Alguns participantes da segunda oficina online do ciclo de estudos e debates "TransFORMAR comunidades: construção de metodologias populares"

 

As ações nas comunidades acontecem com a integração da rede social que está em torno do centro social, composta por vários(as) atores(as) sociais, sendo eles(as) dos movimentos sociais, das comunidades religiosas, das políticas públicas, das universidades e lideranças comunitárias.

O alinhamento político se dá a partir da formação política-cidadã pautada na educação popular, com a troca de conhecimentos e sonhos através de um programa de formação chamado Escola Popular, que acontece na entidade. Desse modo, tecem a rede social de apoio e de ação.

Um dos princípios pedagógicos do trabalho nas comunidades é a pedagogia do encantamento, seguindo Paulo Freire, com a leitura de mundo a partir de duas visões: as bonitezas ou as feiuras. Segundo Jucelio, o sistema capitalista neoliberal nos ensina a ler o mundo a partir de suas feiuras, como as desigualdades sociais, o desemprego, a violência, as violações de direitos e os problemas ambientais. Já a educação popular nos ensina a ler o mundo a partir de suas bonitezas. Então, o processo de ensinar e aprender não pode se dar fora da boniteza e da alegria. Sendo assim, a pedagogia do encantamento está em buscar o poder e a força daquilo que a sociedade capitalista diz que é feio e que não tem potência em nossas comunidades.

A metodologia do CAC está presente no ato afetivo de se encontrar, ou seja, no encontro com as pessoas. Por isso, seus membros o identificam como a Casa do Encontro, inspirados nas ações e nas cartas encíclicas do Papa Francisco, como a Laudato Si e a Fratelli Tutti. Segundo Suelem, o ato de se encontrar é outra chave de leitura para a saída das feiuras do capitalismo e de suas expressões sociais, como as situações de ódio, a falta de projeto político para o país, questões cruciais que estamos enfrentando atualmente no Brasil.

As mulheres se destacam nas ações do CAC. Elas assumem a liderança nas ações de organização e resistência nas comunidades, com no desenvolvimento do protagonismo da infância e no fomento ao trabalho. Com autonomia e autogestão, as mulheres promovem a Ciranda das mulheres sábias, oficinas e cursos de geração de renda, como o artesanato, feiras agroecológicas, mandalas das ervas medicinais, hortas e jardins suspensos. O CAC aposta no feminino porque compreende que as relações machistas do sistema capitalista neoliberal estão falidas e há urgência de surgir uma nova sociedade, onde a vida humana e das florestas sejam preservadas.

A espiritualidade é uma das dimensões do ser humano e está presente nas relações sociais. Para os educadores sociais, viver o ecumenismo é princípio inerente das relações sociais e humanas na rede que o CAC estabelece. Não como doutrina ou culto, mas como força pulsante e cuidado com a pessoa humana. É com a espiritualidade dos povos tradicionais que se fortalecem para as ações. Há um provérbio do povo negro que diz vocês não dão passos para trás para ganhar fôlego para caminhar. Vocês dão passos para trás para ganhar impulso.

O impulso desse momento é o exercício de desenvolvimento nas e com as pessoas e comunidades da cuidadania, conceito próprio que utilizam para definir o cuidado com a comunidade humana e com a comunidade da natureza, aqui, em específico, o cuidado com a Amazônia. É a corresponsabilidade no cuidado da casa comum, dos seres que habitam nela e da realidade política que estamos vivendo, buscando uma alternativa econômica para a sociedade que almeja a justiça socioambiental.

Esses princípios são forjados pela resistência dos povos tradicionais em seus territórios e estão em sinergia, vislumbrando novos horizontes nessa Amazônia de tantos desafios, por meio da educação popular.

 

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