O nome de Deus e a nossa imagem de Deus

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15 Setembro 2021

 

 "Por que, então, esse nome de Deus, com conteúdo e sentido tão denso, não se firmou entre nós? Por que não o utilizamos? Por que o nome bíblico de Deus foi conscientemente deletado dos textos bíblicos e substituído pelo título, Senhor?", escreve Hans Alfred Trein, mestre em Teologia Bíblica com ênfase em Hermenêutica – Leitura Popular da Bíblia, Pastor na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no BrasilIECLB, foi coordenador do Conselho de Missão entre IndígenasCOMIN da IECLB (2003-2014).

 

Eis o artigo.

 

Nomen est omen. Essa fórmula latina significa mais ou menos que nomes sempre indicam para uma essência do ser, um destino, uma história. Por exemplo, muitos nomes de plantas em línguas indígenas contêm a sua indicação terapêutica. A nominação de crianças está ligada ao destino de sua vida. Na cultura guarani o pajé implanta ritualmente o nome à criança, depois de um ano de vida observada. Os nomes (e seus desdobramentos históricos) estão guardados num grande depósito perto do céu, de onde precisam ser buscados pelo karaí. Quando a pessoa guarani fica doente, é porque o nome dela está se distanciando de seu corpo físico e precisa ser re-implantado, para restabelecer a saúde e o equilíbrio. Estudos sugerem que também em nossa cultura os nomes que carregamos estão inevitavelmente ligados ao nosso jeito de ser, ajudam a moldar a nossa personalidade, transportam traços de antepassados nossos ou pessoas que já tiveram os mesmos nomes.

Assim também com o nome de Deus. Cada cultura recebe a sua revelação e lhe atribui um nome que O caracteriza. Os diversos nomes que os povos indígenas usam quando se referem a Deus são fruto da sua prática e da sua experiência. Do Oriente vem um dito de que “O centésimo nome de Deus só o camelo sabe”. Os Tupi-Guarani se referem a Deus como Tupã. Essa pequena palavra concentra dois princípios fundamentais de Deus: “Tu” é uma expressão de admiração, de quem está extasiado diante de tanta grandeza; “pan” é uma pergunta. Assim Tupã pode ser traduzido por “Magnífico! Quem és?”

Em quase todas as traduções bíblicas Deus é chamado de Senhor. Em inglês é a mesma fachada, “Lord”, em francês é “Seigneur”, em russo, “Godspod...” Contudo, essa caracterização do Deus bíblico é inadequada e enganosa. Muitas traduções ainda apresentam a denominação SENHOR em letras maiúsculas, um destaque gráfico que parece querer nos imprimir com mais força ainda a idéia de um Deus-Senhor em nossas almas.

Há centenas de anos, Deus vem recebendo essa máscara de Senhor em nossa tradição cristã. Talvez até com boa intenção, de afirmar Deus acima de tudo, como Senhor absoluto também dos senhores relativos na terra. Mas, como bem diz o ditado popular: “de boas intenções o inferno está cheio!” Então, como livrar a nossa imagem de Deus dessa máscara de Senhor? A sociedade tribal hebréia pode nos ajudar.

Há, no Primeiro Testamento, em Êxodo 3, uma narrativa maravilhosa, na qual Deus mesmo diz a Moisés, quem ele é: JHWH. Esse nome de Deus significa: EU SOU O QUE ESTOU AÍ. Moisés está estarrecido e congelado diante de um arbusto em chamas, de dentro do qual ouve a voz de Deus.

Deus vira a miséria de seu povo oprimido no Egito e “descera”, para convocá-lo a iniciar sua caminhada de libertação. Ele os levaria através do mar e do deserto para uma “terra boa e ampla, na qual correm leite e mel”. Moisés deveria exigir do senhor dominador egípcio, Faraó, a liberação de seus conterrâneos escravos. Diante dessa missão ousada, Moisés foi tomado de uma ansiedade fatal. De um lado, ele sabia que não daria para contradizer Deus; de outro lado, como enfrentar o poderoso Faraó? Por isso, ele, pelo menos, tinha que saber antes, qual era o segredo escondido no nome de Deus. Com muita cautela, Moisés vai tateando na direção do que o move. Ele diz àquela voz de dentro da sarça ardente: “E se os israelitas me perguntarem: ´o que significa o seu nome?´, o que devo responder?” Quando ele fosse apresentar a sua exigência diante do poderoso Faraó, ele também iria querer saber!

“É de tirar o fôlego!” Assim o filósofo ateu, Ernst Bloch, qualificou esta pergunta. O homem pede a Deus que explique o que significa o seu nome – o que é sua essência. Não é um filósofo que pergunta, mas sim uma pessoa humana que se sente fraca e ansiosa diante de sua vocação. A resposta que ouve vale para ele e para seus semelhantes. Ela contém o que Deus considera essencial e decisivo em relação às suas pessoas humanas. A voz de dentro do fogo responde a Moisés: “Eu sou, eu estou aí. Diz aos israelitas: Eu estou aí me enviou a vocês!”

Portanto, JHWH quer ser fundamentalmente compreendido como Eu estou aí. Essa fórmula verbal hebraica não comporta apenas o presente, mas também o futuro – uma peculiaridade importante dessa língua. Então as pessoas ouviam simultaneamente “Eu sou o que estou aí e estarei aí”. A narrativa da sarça ardente conclui com o aviso de Deus: “Este é o meu nome, para todos os tempos. Assim vocês deverão me chamar, de geração em geração”.

Eu estou aí e eu estarei aí. Esse nome condensa, como que num ponto de fusão toda a mensagem da Bíblia. Eu, o seu Deus, quero que vocês arrisquem sair de sua escravidão. Eu farei com que se torne possível o que lhes parece impossível, pois o meu nome é Eu estou aí. Essa é minha essência, meu ser. Eu quero que vocês iniciem a caminhada para a terra da felicidade que eu lhes preparei. Eu os apoiarei em todos os perigos e os guiarei. Nisso vocês podem apostar, pois eu sempre estarei com vocês.

Esta é uma imagem única entre todas as religiões desta terra. Esse nome compreende os reconhecimentos mais profundos, aos quais a fé de Israel conseguiu avançar, em sua longa história. A encarnação desse Deus chama-se Emanuel, “Deus conosco”. Até mesmo os ditos de Jesus, no Evangelho de João, dizendo Ego eimi – “Eu sou” ou na ocasião de sua prisão, Ani Hu – “Eu sou Ele”, considerado uma blasfêmia pelos judeus, relembram e atualizam essa tradição nominal de Deus. A frase final que coroa o evangelho de Mateus refere-se claramente a esse nome de Deus e, desse modo, testemunha que as primeiras discípulas e discípulos reconheciam em Jesus Cristo a encarnação desse Deus-Eu-estou-aí: “E eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mateus, 28.20).

Por que, então, esse nome de Deus, com conteúdo e sentido tão denso, não se firmou entre nós? Por que não o utilizamos? Por que o nome bíblico de Deus foi conscientemente deletado dos textos bíblicos e substituído pelo título, Senhor? As causas devem ser muitas e complexas. Uma delas é que judeus piedosos achavam que o nome de Deus era santo demais. Humanos não podiam tomá-lo na boca. Deixaram o termo JHWH no texto, mas liam Adonai, Senhor. Os tradutores cristãos adotaram essa leitura, quando traduziram o Primeiro Testamento para o grego utilizando o termo Kyrios. Na tradução para o latim já se utilizou o termo Dominus. O mais tardar aí, a mudança lingüística já tinha se processado. Deus passou de solidário a dominador. As pessoas passaram a conceber Deus parecido com os senhores humanos que conheciam.

Entretanto, a língua não vive apartada da realidade; ela expressa a realidade. Portanto, deve ter mais causas atrás desse processo. Menciono duas:

  • Na cidade-estado de Jerusalém, na passagem para a sociedade monárquica, Deus é tirado da tenda que acompanhava o povo em sua caminhada e passa a morar no templo fixo. Este passa a ser declarado como único lugar de adoração.
  • A passagem da Bíblia para o mundo grego com sua sociedade de Estado elaborada e bem estruturada se refletia também numa religião mais estática, firme e ordenada com pretensões de ser eterna: Deus é aquele que controla tudo e que rege as pessoas e o mundo a partir de uma distância inalcançável. A hierarquia estava clara. Deus no céu e o imperador na terra. Não havia espaço para um Deus que acompanha o seu povo na história, muito menos para um Deus que acompanha uma caminhada de libertação das garras do Estado.

Essa alteração marcou profundamente o testemunho bíblico de Deus. Ao redor de cinco mil vezes, JHWH foi alterado para Kyrios, para Dominus. Ao redor de cinco mil vezes, os textos bíblicos não lembravam mais a gente do Deus que está aí, acompanhando solidariamente nos processos e na caminhada de libertação, como um relampejo de animação e esperança, mas sim ferindo as almas com a imagem de um Deus-senhor, dominador. O Deus hebreu tinha se tornado um Deus como o de qualquer outra cultura opressora. Nele não há mais nada de solidário e libertador. Ele serve para manter a ordem estabelecida, o status quo. A religião passou a servir para legitimar a sociedade de Estado. Estudiosos e letrados ajudaram a construir esse retrocesso.

Em nossa tradição judaico-cristã houve dois acontecimentos históricos, em que a imagem de Deus foi substancialmente pervertida:

  • Um deles se dá na história de Israel, quando da passagem das sociedades tribais para o reinado. Passagem de sociedades nômades para sedentárias. Passagem da tenda para o templo. Os textos de 1 Samuel atestam que JHWH estava sendo substituído pelo rei, o Deus-conosco estava sendo substituído por um senhor. Ali começava a sociedade de Estado. A partir desse momento Israel se estruturava numa organização política semelhante aos outros povos vizinhos, com seus exércitos. Não era mais JHWH o Senhor dos Exércitos; essa função agora passava para o rei.
  • O segundo acontecimento histórico é do século IV, quando o cristianismo passa de religião perseguida para religião oficial do Estado. Sob o imperador Constantino se dá essa mudança. A lição que se pode aprender dela é que um aparente privilégio, o de não ser mais perseguido, o de ser reconhecido, até mesmo participar do poder, é a tentação para a arapuca fatal. Fatal, porque ela perverte o caráter revolucionário da fé hebréia, profética, cristã primitiva. Fatal, porque amordaça sua essência libertária. A partir desse momento, o exercício da religião se dá dentro dos parâmetros ordenados da sociedade de Estado. Deus é Senhor!

Se, de um lado, temos que ser realistas, lidar com o Estado, entrar em relação com ele, negociar, lutar por pequenos avanços, de outro lado, a nossa missão genuinamente cristã não se esgota nessa atividade. O nosso horizonte é muito maior. Trabalhando com sociedades indígenas estamos trabalhando com sociedades organizadas de forma tribal. Se o antropólogo Pierre Clastres tem razão, que as sociedades indígenas não são apenas sociedades sem Estado, mas sociedades que não permitiram o surgimento do Estado, muito mais ainda temos a aprender delas para a essência daquela fé que tinha JHWH como Deus solidário e presente.

Uma pergunta recorrente e renitente passou a vigorar com insistência, desde que a cristandade aceitou arranjar-se dentro do brete das sociedades de Estado. Ela tem traços de teodiceia. Afirmando Deus como Senhor, todo-poderoso, absoluto não consegue responder aos aflitos: “Como pode Deus permitir?” JHWH não se apresentou com o atributo de todo-poderoso absoluto que impede a desgraça e o mal. Apresentou-se como acompanhante solidário, também quando passamos pelo vale da sombra da morte. Em Jesus, Deus passou por todos os estágios possíveis e comprovou a seriedade de ser Aquele que está aí.

O Deus bíblico é um Deus peregrino é aquele que promete: “Eu estarei convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”, um Deus-a-caminho-com-suas-criaturas. Ele não se deixa aprisionar por nenhuma ideia, teoria ou instituição. O outro, cognominado Senhor, é um ídolo feito por mãos humanas, fica ocupando nossas cabeças e corações, tirando do nosso horizonte que o sentido da criação é uma grande festa de alegria com a participação de todas as criaturas.

Deus se nos revelou nos dois testamentos: Eu estou aí e estarei convosco até a consumação dos séculos. Este é o Seu nome para sempre, e assim ele será lembrado por vocês em todos os tempos.

 

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