Agamben e os caminhos que conduzem ao desejado paraíso

O Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch (Fonte: Pixabay)

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24 Agosto 2021

 

“O jardim edênico perdido se asfixia no passado, ao passo que o Reino, carregado de um desejo revolucionário, espera, altivo, entusiasmado, explodir nas mãos do futuro. O espírito da Utopia moderna antecipado pelas inquietações teológicas do jardim e o Reino”, escreve Esteban Ierardo, filósofo e escritor, em resenha do livro de Giorgio Agamben, intitulado El Reino y el Jardín, na versão em espanhol, publicada por Clarín-Revista Ñ, 22-08-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis a resenha.

 

O sonho do paraíso sempre seduz. Um lugar de felicidade, abundância, longe de toda carência e doença. O paraíso, quanto mais ausente, mais é desejado. O filósofo italiano Giorgio Agamben sempre é atraído pela biopolítica, a questão da soberania e as leituras da tradição ocidental, das quais surgem as páginas de El Reino y el Jardín, publicado recentemente [em espanhol] por Sexto Piso, e traduzido por Ernesto Kavi.

Um ensaio sobre a genealogia do paraíso que parte da interpretação de Wilhelm Fraenger a respeito do tríptico de O Jardim das Delícias, de Bosch, no Museu do Prado. O jardim do artista holandês seria a expressão do desejo utópico de uma vida comunitária. A indagação prossegue com os meandros técnicos da origem do termo paraíso em diversas linguagens e culturas, e os primeiros tratados sobre o paradisíaco no imaginário cristão, o do doutor da Igreja Efrém da Síria, entre os gregos, e o de Ambrósio, bispo de Milão, entre os latinos.

Na última etapa do Império Romano, os bispos reunidos em seus concílios mostravam maior preocupação com a natureza do Deus Trinitário, o das três pessoas divinas do Pai, o Filho e o Espírito Santo. O paraíso terá então seu lugar às margens da especulação teológica, estará impregnado pela questão da natureza humana, sua queda e a aberração do pecado e sua corrupção.

A violação por Adão da proibição de comer um fruto formulado por Deus, gerou a perda do jardim edênico. Impôs ao humano o castigo por seu mau uso da liberdade, sua expulsão do paraíso por seu pecado original. Desde então, o cristão se tornou obcecado pela salvação em um além celestial como via de retorno à felicidade antes de sua queda.

Assim, na perspectiva da tradição do Ocidente, o paraíso perdido é “o que constitui o mitologema original da cultura ocidental, uma espécie de traumatismo originário que marcou profundamente a cultura cristã e moderna, condenando à derrota qualquer busca de felicidade sobre a terra”.

O pecado original adquire uma condição de excepcionalidade porque a infração de Adão não se reduz a um indivíduo ou a um grupo ou coletividade determinada, mas afeta a natura hominis, a própria vida humana em todas as suas funções, fundamentalmente seu poder de reprodução, o que explica que o próprio pecado seja transmitido de geração em geração. Assim, a natureza humana está corrompida, não pode conservar nenhuma relação com o paraíso. A felicidade é ocultada.

Santo Agostinho versus Pelágio

Ponto em que Agamben se interessa pela disputa entre Santo Agostinho, o grande teólogo da Patrística, o primeiro período da teologia católica, e Pelágio, o monge britânico acusado de heresia por sua negação do dogma do pecado original. Pelágio propôs que o homem não está condenado ao pecado original, porque, por meio da graça que Deus lhe conferiu, pode escolher não pecar. Mas triunfou Agostinho e sua insistência em que o humano contaminado pelo pecado original confirma a expulsão do belo paraíso, que é apenas uma ferida e uma luz desvanecida.

Mas na construção do imaginário do paraíso, ele se bifurca em um jardim perdido e um paraíso a ser restaurado como um Reino utópico, redentor, em alguma esquina do futuro.

Antes de percorrer este caminho, Agamben investiga a visão de paraíso de Escoto Erígena, o brilhante teólogo irlandês do século IX, muito estimado por Borges, e o paradisíaco em Dante. Erígena propôs uma atrevida tese, só mais tarde retomada pelo humanismo renascentista do século XVI.

O paraíso está livre do pecado e da narrativa da queda do Gênesis bíblico, razão pela qual o homem nunca perdeu o paraíso, mas nunca o habitou. Só quando o homem recuperar sua verdadeira natureza original, poderá entrar na embriaguez paradisíaca ainda vedada.

O paraíso para Dante se desdobra em paraíso terrestre e paraíso celeste, conforme expõe em seu famoso tratado De Monarchia. A primeira forma do paradisíaco, a terrena, só poderá ser desfrutada pelo homem alcançando a felicidade na vida civil neste mundo.

E no capítulo final de sua pesquisa, Agamben aborda a ideia do jardim convertido em Reino. Desde os primeiros padres da Igreja, o paraíso terreno se identifica com o Reino, que emergirá no final dos tempos, segundo a tradição apocalíptica. Então, a verdadeira Jerusalém surgirá quando a Jerusalém celestial se plasmar na terra, na qual os justos viverão felizes por mil anos.

A consumação do Reino milenar. O paraíso convertido em Reino, segundo a perspectiva de Irineu, que Agamben recupera, significará que “a terra será renovada e Jerusalém será reconstruída segundo o modelo da Jerusalém que está no alto”.

A espera do Reino milenar investe o paradisíaco com uma potencialidade política, transformadora, revolucionária, recorda Agamben. O Reino precisa previamente da consumação da justiça e, portanto, da superação do mundo corrupto, injusto e decaído. Nisso confiavam os famosos movimentos milenaristas medievais.

E esse aspecto do paraíso transformado na ideia da espera do Reino milenar se estende, de forma subterrânea, na cultura moderna secularizada até permear a visão marxista. Por isso, Agamben observa que Walter Benjamin sugere “que na ideia de uma sociedade sem classes, Karl Marx secularizou a ideia do Reino messiânico”, algo que também já havia sido lembrado, em seu existencialismo cristão, por Nikolai Berdiaev.

O jardim edênico perdido se asfixia no passado, ao passo que o Reino, carregado de um desejo revolucionário, espera, altivo, entusiasmado, explodir nas mãos do futuro. O espírito da Utopia moderna antecipado pelas inquietações teológicas do jardim e o Reino.

 

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