Teologia e hermenêutica: da “Teologia como hermenêutica” ao “momento” hermenêutico da Teologia

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17 Agosto 2021

 

"Não se pode falar da teologia cristã independentemente da realização histórica do reinado de Deus (momento teórico da práxis) nem se pode reduzir a teologia enquanto intellectus a mera interpretação de sentido, por mais que esse seja um momento fundamental de seu desenvolvimento (momento hermenêutico da intelecção)", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ao comentar o livro Teologia e Hermenêutica: da “teologia como hermenêutica” ao momento hermenêutico da teologia (Vozes, 2021, 184 p.).

 

Eis o artigo.

 

Francisco de Aquino Júnior é presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE, doutor em Teologia pela Westfälische Wilhelms-Universität Münster – Alemanha, professor de Teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e do PPGTEO da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). É autor do livro: Teologia e Hermenêutica: da “teologia como hermenêutica” ao momento hermenêutico da teologia (Vozes, 2021, 184 p.).

A presente obra é resultado da pesquisa do estágio pós-doutoral em Teologia, realizado na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) sob a supervisão do Professor Dr. Nilo Ribeiro. Ela se insere no contexto mais amplo de estudos acerca do estatuto teórico da teologia que tem ocupado as pesquisas do autor nas últimas duas décadas, concentrando-se na problemática da “relação” teologia-hermenêutica. Para o autor não parece evidente nem tranquila a tese hegemônica e mesmo convencional da teologia como hermenêutica. Problematizando esta questão - Aquino Júnior - esclarece que certamente, a teologia tem um momento hermenêutico constitutivo e, nesse sentido, não há problema em falar da “teologia como hermenêutica”. Mas que seja pura e simples hermenêutica e, no mínimo discutível e exige um estudo mais aprofundado tanto das teorias hermenêuticas quanto das teorias hermenêuticas no contexto mais amplo e complexo dos debates acerca da intelecção humana.

A discussão sobre o estatuto teórico da relação teologia-hermenêutica é o objeto deste trabalho que está estruturado em duas partes: 1) o debate sobre a hermenêutica na filosofia (p. 17-106); 2) A relação teologia-hermenêutica (p. 107-172).

Na primeira parte, o autor, retoma o debate sobre a hermenêutica na filosofia moderno-contemporânea. Primeiro numa aproximação histórica a partir de Paul Ricouer (p. 19-23), apresentando as diversas posições e esboçando o status questionis do debate sobre a hermenêutica (p. 23-64). O autor salienta que a primeira preocupação que domina a história recente da hermenêutica tende a ampliar progressivamente a visada da hermenêutica, de tal modo todas as hermenêuticas regionais sejam incluídas numa hermenêutica geral. Trata-se, segundo Aquino Júnior de um movimento de desregionalização da hermenêutica, ligados de modo particular aos nomes de Friedrich Schleiermacher (p. 26-29) e Wilhelm Dilthey (p. 29-34). A segunda preocupação tem um caráter propriamente ontológico onde o compreender deixa de aparecer como um simples modo de conhecer para se tornar uma maneira de ser e relacionar-se com os seres e com o ser (movimento de radicalização), fazendo com que a hermenêutica se torne não somente geral, mas fundamental. Martin Heidegger (p. 35-40) e Hans-Georg Gadamer (p. 40-44) marcam uma nova etapa no movimento hermenêutico. Eles rompem com a concepção anterior da hermenêutica como epistemologia ou como modalidade de teoria do conhecimento. E, nesse, sentido, sua contribuição não pode situar-se pura e simplesmente no prolongamento do empreendimento de Schleiermacher e Dilthey. Ela consiste num esforço gigantesco de cavar por debaixo do próprio empreendimento epistemológico, a fim de elucidar suas condições propriamente ontológicas.

Frente a isso, o autor destaca que Paul Ricouer diz surgir uma nova questão: ao invés de nos perguntarmos se sabemos, perguntaremos qual modo se ser desse ser que só existe compreendendo. Isso porque a posição de Ricouer acerca do estatuto teórico da hermenêutica foi se desenvolvendo e se definindo no contexto de seu debate crítico-criativo com a história da hermenêutica e com as correntes e os autores com os quais foi se confrontando em sua atividade filosófico ao longo da vida. Para Ricouer, a história da hermenêutica, no fundo, é a história de um problema não resolvido ou de uma aporia. E sua contribuição consistiria na superação desse problema ou dessa aporia, conduzindo a reflexão hermenêutica até o ponto em que ela recorra, por uma aporia interna, a uma reorientação importante, o que significaria uma nova fase da história da hermenêutica (p. 45-64).

Em seguida, numa aproximação crítico-sistemática a partir de Xavier Zubiri (p. 65-106), Aquino Júnior tratando da problemática da intelecção humana e discutindo o estatuto teórico da hermenêutica no contexto mais amplo do debate sobre a intelecção. A questão teórica que está em jogo aqui é se a intelecção pode ser identificada sem mais com hermenêutica. Noutras palavras, trata-se de saber se intelecção é sinônimo de hermenêutica ou se a intelecção não é um processo mais amplo e complexo, do qual a hermenêutica constitui um de seus momentos fundamentais: um momento fundamental, mas apenas um momento. Isso levou o autor a tomar a hermenêutica como momento do processo intelectivo e situar a própria intelecção no contexto mais amplo da ação humana. Assim, sem comprometer a especificidade e irredutibilidade da intelecção e de seu momento hermenêutico, superar os dualismos epistemológicos sentir x inteligir e intelecção x ação e expressar a unidade estrutural fundamental práxis-intelecção-hermenêutica. Em suma, o autor mostra que Zubiri oferece um quadro teórico quer permite assumir o momento hermenêutico da intelecção, sem reduzi-la a pura interpretação (práxis-intelecção-hermenêutica), este novo quadro permite uma nova abordagem da relação teologia-hermenêutica no contexto mais amplo da problemática da intelecção da realização histórica do reinado de Deus (reinado de Deus-teologia hermenêutica).

Nesta primeira parte Francisco de Aquino Junior oferece, portanto, os pressupostos filosóficos necessários para a discussão acerca do estatuto teórico da relação teologia-hermenêutica que é objeto de estudo da segunda parte deste livro (p. 107-172). A segunda parte do livro está dedicada à problemática da relação teologia-hermenêutica, abordando e confrontando duas posturas teóricas distintas: “teologia como hermenêutica” segundo Claude Geffré e hermenêutica como “momento” da teologia a partir de Ignacio Ellacuría. Se Geffré fala de uma virada hermenêutica da teologia, Aquino Jr, a partir de Ellacuría, fala da necessidade de uma virada práxica da teologia que, assumindo com seriedade o momento hermenêutico da teologia, situe o fazer teológico em sua totalidade no contexto mais amplo da realização histórica do reinado de Deus, oferecendo, assim, uma nova perspectiva de abordagem da problemática da relação teologia-hermenêutica: hermenêutica como momento da teologia e teologia como momento da realização histórica do reinado de Deus.

Deixando de lado uma concepção mais técnico-instrumental da hermenêutica comum a toda a tradição teológica, o autor aborda, portanto, duas concepções da relação teologia-hermenêutica: teologia como hermenêutica segundo Claude Geffré (p. 109-137) e hermenêutica como momento do fazer teológico a partir de Ignacio Ellacuría (p. 138-172). Aquino Jr destaca que a partir da segunda metade do século XX foi se impondo no âmbito da teologia uma concepção de intellectus como hermenêutica. Isso se desenvolve primeiro nos estudos da Sagrada Escritura, inclusive nas instâncias oficiais da Igreja, mas, aos poucos, vai se difundindo e se impondo também na área da dogmática, de modo que a teologia em sua totalidade vai sendo cada vez mais compreendida como hermenêutica. Uma das referências mais importantes e fundamentais na compreensão da teologia como hermenêutica é o teólogo francês Claude Geffré. Além de assumir essa compreensão da teologia, dedica-se por longos anos à sua formulação e justificação teórica. A seu nome está vinculada a tese da “virada hermenêutica da teologia”. Aquino Júnior esboça e problematiza sua compreensão de teologia apresentando sua tese da virada hermenêutica da teologia (p. 112-116), e, indica os pressupostos teóricos (p. 116-123) e as implicações teológicas (p. 123-131) dessa tese discutindo alguns pontos que a seu ver parecer problemáticos ou não suficientemente elaborados (p. 131-137).

Neste contexto, Aquino Júnior toma a compreensão de teologia de Ignacio Ellacuría como uma contribuição muito importante no debate acerca do estatuto teórico da relação teologia-hermenêutica. Seu diálogo crítico-criativo com Zavier Zubiri, particularmente com sua concepção de intelecção como “inteligência sentiente”, leva-o a desenvolver uma concepção de teologia que possibilita superar o reducionismo idealista da teologia a hermenêutica sem, contudo, contudo, negar um momento propriamente hermenêutico no que fazer teológico. Diante disso, Aquino Júnior apresenta a tese de Ellacuría – da teologia como intelecção do reinado de Deus (p. 139-161), explicitando os pressupostos filosófico-epistemológicos de sua concepção de teologia (p. 161-171) e indicando uma nova perspectiva para o problema do estatuto teórico da relação teologia-hermenêutica (p. 171-172).

Concluindo (p. 173-179), o autor ressalta que a discussão acerca do estatuto teórico da relação teologia-hermenêutica não é uma discussão gratuita nem mera especulação abstrata. Diz respeito ao estatuto teórico da teologia enquanto intellectus, tanto em seu caráter de “momento da práxis” quanto em seu caráter específico de “apreensão da realidade”. Não se pode falar da teologia cristã independentemente da realização histórica do reinado de Deus (momento teórico da práxis) nem se pode reduzir a teologia enquanto intellectus a mera interpretação de sentido, por mais que esse seja um momento fundamental de seu desenvolvimento (momento hermenêutico da intelecção). É nesse sentido que Aquino Júnior fala e defende a necessidade de uma passagem da “teologia como hermenêutica” para o “momento hermenêutico da teologia”, indicando com Zubiri e Ellacuría, uma nova perspectiva para o problema do estatuto teórico da relação teologia-hermenêutica, segundo o quadro teórico: práxis-intelecção-hermenêutica. Isso, porque tendo passado pela “virada hermenêutica da teologia” (Geffré), e preciso passar por uma “virada práxica da teologia” (Ellacuría). E tanto em razão do caráter e do dinamismo da atividade intelectual (momento da práxis) quanto e razão da eficácia do fazer teológico e da teologia (realização do reinado de Deus).

****

Com as palavras de Dr. Nilo Ribeiro Junior no Prefácio desta obra (p. 7-11) recomendamos este livro substancioso denso, direto e claro de Aquino Júnior. Ribeiro Junior qualifica a reflexão de Aquino Júnior dizendo que na primeira parte da investigação, o leitor perceberá o acento crítico com que o autor propugna sua releitura da hermenêutica filosófica. Isso porque por um lado, a obra de Aquino Júnior permite uma retomada do estatuto geral da hermenêutica filosófica de corte ontológico lida à luz dos últimos passos da retomada hermenêutica ricoeuriana. Isso se faz por meio de uma bela contextualização da história do problema. Por outro lado, o autor nos apresenta uma outra perspectiva, em certo sentido pós-ontológica da hermenêutica, o que impacta imediatamente na maneira de se poder pensar criticamente o estatuto da Teologia da Libertação, bem como de uma radical revisão da hermenêutica teológica à luz dos novos instrumentais prático-teóricos de que Aquino Júnior se faz defensor. Já na segunda parte da obra, como recorda magistralmente Aquino Júnior, o chão teológico latino-americano lida com uma maneira (extra) ordinária de pensar Deus a partir do sentir e da carnalidade dos pobres. Disso decorre que sua reflexão teológica se apoia na perspectiva eminentemente práxico-libertadora ao seguir de perto uma releitura de grandes nomes da filosofia latino-americana, respectivamente Xavier Zubiri e Ignacio Ellacuría, no contexto da ênfase no momento hermenêutico da teologia. Dessa feita, o leitor não terá como não se deixar confrontar pelo caráter pós-critico da intriga que se deve estabelecer a partir desta obra: entre a teologia cristã da libertação e a hermenêutica filosófica contemporânea. Em suma, eis que a obra de Aquino Júnior permitirá ao leitor ter contato com a genialidade de um outro pensamento teológico para além do ser e que, portanto, leva em conta o fato de a Revelação do Deus de Jesus implodir os cânones de uma hermenêutica teológico-bíblica da viragem moderna dessa ciência interpretativa. Em contrapartida, trata-se de uma outra teologia que se faz com uma outra-(mente), isto é, uma teologia outramente hermenêutica que eleva em consideração a mente correlativa de um modo de um agir ou de uma práxis cravada na Revelação e na hermenêutica que passa, necessariamente, pelo crivo da carne, do corpo de Deus, isto é, da Palavra que se faz carne na palavra-carne dos pobres a quem se destina a boa-nova da salvação em meio à vulnerabilidade do Deus de Jesus crucificado, morto e ressuscitado pelas vítimas da história.

 

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