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09 Julho 2021

 

"Nosso principal objetivo não deve ser apenas aquele de regular as relações entre os homens da maneira mais correta possível, mas garantir que todos os seres vivos possam continuar a representar aquela pluralidade de vida que por si só nos permite manter o equilíbrio 'homeostático' de nosso planeta; equilíbrio que tem permitido a existência de seres vivos até agora e do qual depende a possibilidade de qualquer vida futura", escreve Annamaria Anselmo, em artigo publicado por L'Osservatore Romano, 08-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

A palavra complexidade “é uma palavra cuja demasiada plenitude a torna uma palavra vazia. Quanto mais é utilizada, mais aumenta seu vazio”. Assim Edgar Morin começa em um de seus inúmeros escritos para destacar o sentido filosófico, teórico, científico e epistemológico que atribui a este termo de uso comum, termo que hoje, especialmente graças ao nosso "pensador planetário", indica um novo "horizonte de sentido".

Edgar Morin aventurou-se numa empreitada titânica, tendo por objetivo, através de um caminho feito de contínuas "andanças" entre os diferentes âmbitos disciplinares, nos tornar partícipes de uma consciência comum: o "método" que nós, filhos da cultura ocidental, utilizamos para organizar saberes e conhecimento gerou uma estrutura mental que, longe de ser um a priori, é um "a posteriori evolutivo". Como consequência disso, é agora de vital importância assumir finalmente consciência de que o método de conhecimento que aplicamos instintivamente, portanto de forma totalmente irrefletida, nos induz perigosamente a trocar atos práticos como redução, separação, simplificação , descontextualização, rotulagem ou quantificação com atos teóricos, ou seja, com atos de conhecimento.

Para dar conta de tudo isso, Morin elaborou uma síntese do que emergiu na história da Ciência e da Epistemologia desde o século XIX até a atualidade, conseguindo integrar as contribuições dos mais diversos campos do saber que alimentaram a pujança teórico-epistemológica da Complexidade, transformando esta última em uma "palavra-chave" para substituir todas aquelas "palavras-mestras" que muitas vezes enfraqueceram ou mesmo cegaram a nossa pars sapiens em nome de uma "racionalidade" que nada mais era do que "racionalização".

É precisamente da racionalização que Morin quer nos alertar, das ideias “demoníacas”, das quais somos artífices e vítimas, que desencadeiam aqueles processos de desatenção seletiva, de remoção, de normalização, nos quais ele mesmo tropeçou; processos gerados pela exigência integralmente humana de se defender das angústias provocadas pela incerteza, que impulsionam cada indivíduo a buscar "certezas", "ordem", "definitividade", tudo que possa evitar os dolorosos banhos da realidade na concretude da vida e possa poupar o esforço de repensamentos e questionamentos, fundamental para manter constante a regeneração e para contrastar, tanto quanto possível, a inexorável degeneração.

No horizonte de sentido produzido pela racionalização, a pars demens de cada indivíduo é sacrificada no altar de uma isolada pars sapiens que nada tem de humano, que não permite à razão reconhecer os seus próprios limites e apreender a relação dialética e dialógica entre amor, poesia e sabedoria; o rompimento de laços, relações e entrelaçamentos em nome de uma simplicidade que deveria garantir aquela objetividade à luz da qual tudo pode ser "explicado", nada mais é que uma mutilação da realidade, que continua a gerar abordagens e atitudes deletérios.

Na introdução aos volumes de sua obra mais importante, La Méthode, Morin traça o percurso para enfrentar o declínio causado pela incapacidade de gerir a “complexidade” por meio de uma verdadeira revolução cultural. A própria estrutura da obra reflete o seu projeto de meta-pan-epistemologia, ou seja, de uma epistemologia que vai além da tradicional, mas que também a inclui fazendo-a dialogar com outras formas de organização dos conhecimentos.

O principal objetivo polêmico da obra de Morin é o método cartesiano “que surge como Minerva armada da cabeça aos pés”; é o método que deve conduzir a uma ideia clara e distinta, a um conhecimento certo e universal e, sobretudo, é o método que tem alimentado a "Escola do luto", isto é, aquelas instituições que se preocupam em formar operários especializados, convencidos de que conhecer perfeitamente uma peça do grande quebra-cabeça multidimensional e em evolução que é a realidade, torna-os homens inteiros capazes de dominar e manipular o espaço e o tempo.

Morin direciona os holofotes sobre a revolução de tipo ontológico que desintegrou os "pilares da certeza" sobre os quais se alicerça a imagem da Natureza que a ciência clássica nos transmitiu: o segundo princípio da termodinâmica, as geometrias não euclidianas, a física quântica, a deriva de continentes, o universo em expansão são eventos que trouxeram à luz um mundo "nada razoável, ordenado, adulto"; que parece estar "ainda nos espasmos da gênese e já nas convulsões da agonia".

Dado que a natureza da Natureza em todos os níveis se revelou sistêmica, histórica, dinâmica e até organísmica, uma revolução epistemológica se tornou mais necessária do que nunca, que Morin levou adiante graças às contribuições de cientistas como Wiener, Von Foester, Prigogine, Maturana, Varela, Lovelock, grandes pensadores contemporâneos que dotaram a epistemologia complexa de uma riqueza de termos, adequados para apreender o que emerge da interação entre os esquemas de organização e as estruturas dos sistemas que constituem a realidade; que permitiu substituir o conceito de elemento simples pelo de organização autopoiética; o conceito de causalidade linear com o de causalidade recursiva; a visão hierárquico-piramidal com uma visão reticular.

A imagem da rede autopoiética tornou visível e compreensível a ligação do homem à Natureza e a todos os outros seres vivos, fazendo-o adquirir aquela identidade planetária com base na qual não é apenas filho juntamente com os outros de uma única Terra-Pátria, mas também pertencente a uma única "comunidade de destino".

Assim, chegamos à última etapa da revolução promovida por Edgar Morin, a revolução que diz respeito à Ética, a mais significativa porque nos faz tocar na necessidade e urgência de nos formar e nos equipar adequadamente para enfrentar os novos "desafios da complexidade". Doravante, nosso principal objetivo não deve ser apenas aquele de regular as relações entre os homens da maneira mais correta possível, mas garantir que todos os seres vivos possam continuar a representar aquela pluralidade de vida que por si só nos permite manter o equilíbrio “homeostático” de nosso planeta; equilíbrio que tem permitido a existência de seres vivos até agora e do qual depende a possibilidade de qualquer vida futura. Nesse sentido, a antropoética tradicional deve se tornar ecoética, baseada não em hipotéticos contratos sociais entre seres humanos entre si contemporâneos, mas na consciência de sermos os únicos responsáveis, como seres presentes e conscientes, pela possibilidade de um futuro para todos os demais seres vivos.

 

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