Passaporte vacinal: “Agamben e Cacciari, onde estão os seus argumentos?”

Revista ihu on-line

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Clarice Lispector. Uma literatura encravada na mística

Edição: 547

Leia mais

Mais Lidos

  • “Sínodo é até o limite. Inclui a todos: Os pobres, os mendigos, os jovens toxicodependentes, todos esses que a sociedade descarta, fazem parte do Sínodo”, diz o Papa Francisco

    LER MAIS
  • Por que a extrema direita elegeu Paulo Freire seu inimigo

    LER MAIS
  • Enquanto Francisco visitava a Eslováquia, a comunidade internacional celebra a mulher sacerdote da Tchecoslováquia

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


30 Julho 2021

 

O filósofo Giovanni Boniolo se diverte ao escrever uma “nota” sobre a já famosa “nota” que Massimo Cacciari e Giorgio Agamben escreveram sobre o Green Pass [passaporte vacinal], na qual se levanta a suspeita do avanço de uma ditadura sanitária muito perigosa. Mas o mesmo poderia ser dito sobre a carteira de motorista e uma infinidade de outros documentos, que carregamos junto conosco para ter acesso a uma série de serviços.

Boniolo é professor da cátedra de Filosofia da Ciência e Medical Humanities do Departamento de Neurociências e Reabilitação da Universidade de Ferrara, na Itália.

O artigo foi publicado em Scienza in Rete, 29-07-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Eu li, com uma atitude um pouco ataráxica – devo admitir –, no site do Instituto Italiano para os Estudos Filosóficos, a nota do dia 26 de julho sobre o decreto do “green pass”, escrita por dois renomados intelectuais italianos: um, Giorgio Agamben, com um séquito também internacional; o outro, Massimo Cacciari, muito mais itálico.

Aprecio ambos. Agamben – admito – cria algumas dificuldades de leitura para mim (mais do que quando estudei e trabalhei sobre a dedução transcendental kantiana ou sobre os espaços de Hilbert da mecânica quântica), habituado como estou a buscar passagens inferenciais entre dois enunciados. No entanto, no fim (e deixando de lado, por caridade interpretativa, a tradição “secunda Petri”), tenho uma ideia do que ele quer dizer.

Eu sempre li Cacciari com prazer, sobretudo por esse seu hábito de embelezar o texto com termos alemães. Li-o com prazer desde aquele seu livro de divulgação de história da filosofia, intitulado “Krisis”. Um texto interessante, embora avulso em relação ao debate internacional da época e com algumas amenidades demais sobre Wittgenstein e a matemática. Mas essa era a Itália.

Cheguemos à minha nota sobre a nota deles (não exatamente no sentido denota notae est nota rei ipsius). O que é esta última? Uma invectiva, uma tomada de posição polêmica, um desejo de exemplificar como não se faz filosofia, outra coisa? Eles se dizem e se disseram filósofos e/ou historiadores da filosofia, e isso gera em mim a pré-compreensão hermenêutica de que eles escrevem como tais, ou seja, que trazem argumentos corretos e não falácias, mas – sobretudo – que falam sobre aquilo que sabem (como não apenas os filósofos deveriam fazer, obviamente).

Comecemos a examinar o produto deles. O início é bastante enfático:

“A discriminação de uma categoria de pessoas, que se tornam automaticamente cidadãos de segunda categoria, é por si só um fato gravíssimo, cujas consequências podem ser dramáticas para a vida democrática. Estamos enfrentando isso, com o chamado green pass, com inconsciente leviandade.”

Aqui há duas afirmações: a primeira é totalmente compartilhável, pelo menos para muitos: a discriminação é algo ruim, que deve ser condenado! Depois, passa-se a dizer que ela está sendo enfrentada (em que sentido?) por meio do “chamado” (sic) green pass.

Bem, quem disse isso? Quando não se trazem dados de apoio, ou argumentos, ou fontes autorizadas, mas se baseia isso apenas no fato de mover emoções no leitor ou no “diz-se que”, cai-se em muitas falácias (por exemplo, em variantes do argumentum ad misericordiam, do argumentum ad judicium, do argumentum ad populum, muito caro, este último, aos populistas de todos os tipos).

Além disso, escreve-se que se faz isso “com inconsciente leviandade”. Estão brincando? Quem faz isso com leviandade? Por favor, nomes e sobrenomes, caso contrário é apenas uma acusação vazia.

“Todo regime despótico sempre operou por meio de práticas de discriminação, talvez no início contidas e depois desenfreadas. Não por acaso, na China, eles declaram que querem continuar com os rastreamentos e os controles mesmo ao término da pandemia. E vale a pena lembrar o ‘passaporte interno’ que os cidadãos da União Soviética deviam mostrar às autoridades a cada deslocamento.”

Mumble, mumble. É verdade que na China eles declaram que querem continuar com rastreamentos e controles mesmo após a pandemia? Quem diz isso? Em qual fonte eles bebem? O que tem a ver o caso da China e o que tem a ver o velho caso da União Soviética com a situação italiana e europeia atual? Se eles não explicam isso, se não argumentam isso, somos autorizados a pensar que estão falando ao acaso.

“Ai de nós se a vacina se transformar em uma espécie de símbolo político-religioso. Isso não só representaria um desvio antidemocrático intolerável, mas contrastaria com a própria evidência científica.”

Seria preciso me explicar quem está transformando a vacina em uma espécie de símbolo político-religioso. Diverte-me muito o reboante estilo oracular que é adotado, mas alguém pode realmente acreditar que isso está acontecendo e – sei lá – talvez me citar a seita que adora tal símbolo? Em todo o caso, mesmo se assim fosse, por que isso representaria um desvio antidemocrático intolerável? Quem diz isso? Com o argumento se justifica tal passagem inferencial? Não nos é dado saber. Os dois redatores talvez prefiram o pensamento entimemático.

No entanto, está fora das minhas capacidades mentais – reconheço – rastrear as partes inferenciais faltantes. Eu até poderia aceitar que um símbolo político-religioso contraste a evidência científica, mas seria necessário me dizer de que modo isso ocorre e, sobretudo, qual significado está sendo atribuído aos termos “símbolo” e “evidência científica”.

A esse propósito, pergunto-me como é que dois autores bastante especialistas (até devido à idade) mencionem termos usados de modo bastante diferente ao longo da história do pensamento filosófico com grande leviandade: democracia, símbolo, evidência etc. O que querem dizer? Seguramente, eles não podem ser indiferentes à precisão definitória que fez e faz uma grande parte da filosofia. Também não podem ter se esquecido de que uma das primeiras coisas a fazer quando se escreve sobre filosofia ou história da filosofia é desambiguar os termos que serão usados, caso contrário, tudo precipita em um falar sem referências, um falar vago. Certamente, a vagueza pode ser um componente de um certo estilo de pensamento, mas talvez, quando se escrevem notas com a intenção de não engambelar o leitor (esperamos), algum momento definitório seria melhor. Mas, tanto faz, cada um tem o seu estilo, e depois o leitor que seja astuto. E se não o for? Problema dele, que se sacie no nada ou de ouropel. Falastrões sempre existiram.

“Uma coisa é defender a utilidade da vacina; outra, completamente diferente, é calar sobre o fato de que ainda nos encontramos em uma fase de ‘experimentação em massa’ e que, em muitos aspectos fundamentais do problema, o debate científico está totalmente em aberto.”

É claro, passar do primeiro enunciado ao segundo seria um non sequitur que talvez apenas alguns totalmente desprovidos de elementos básicos de lógica menor e lógica maior fariam. Mas é verdade que “nos encontramos em uma fase de ‘experimentação em massa’ e que, em muitos aspectos fundamentais do problema, o debate científico está totalmente em aberto”? Aqui, parece-me, está sendo escrito algo de estratosfericamente enganoso e mistificante. Significa não saber (algo desculpável, mas então não se deveria falar daquilo que não se sabe) ou significa não querer saber aquilo que se deveria saber quando se quer escrever (e isso é algo não desculpável para um intelectual) sobre o que é um clinical trial (especialmente nas fases mais avançadas), o que é uma experimentação, o que é o processo de drug discovery, em particular os seus tempos e os seus modos.

Significa não saber (algo desculpável, mas então não se deveria falar daquilo que não se sabe) ou significa não querer saber aquilo que se deveria saber quando se quer escrever (e isso é algo não desculpável para um intelectual) o que aconteceu no mundo da pesquisa desde o sequenciamento do vírus e das suas variantes, além das forças (públicas e privadas) que foram postas em campo para encontrar uma solução.

Certamente, o debate científico está em aberto, como sempre e como em todas as ocasiões. Mas de que abertura eles estão falando? Se isso não for indicado, corre-se o risco de fornecer uma ideia incorreta de como se desenvolve a discussão científica. Não tenho conhecimento de que haja um debate científico aberto na Nature, a revista que os dois renomados autores citam e que me leva a pensar que leem regularmente (ou estão blefando e, na realidade, nunca leram a Nature?), sobre a “experimentação em massa” e muitos de seus aspectos fundamentais.

“E como poderia ser de outra forma? O vacinado não pode só contagiar, mas também pode adoecer ainda: na Inglaterra, de 117 novas mortes, 50 haviam recebido as duas doses. Em Israel, calcula-se que a vacina cobre 64% de quem a recebeu. As próprias empresas farmacêuticas declararam oficialmente que não é possível prever os danos da vacina em longo prazo, não tendo tido tempo para realizar todos os testes de genotoxicidade e de carcinogenicidade. A Nature calculou que será fisiológico que 15% da população não tomem a vacina. Então, deveremos ficar com o ‘pass’ até quando?”

Finalmente dados!!! Mas escolhidos como? Interpretados como? Em inglês (sei, porém, que eles apreciam mais o alemão que falam fluentemente), eles têm um belo termo: cherry-picking. Com isso, estigmatiza-se a prática (obviamente falaciosa) de escolher os dados (tirados de onde? Diga-me a fonte, por Deus!) que mais servem e de interpretá-los como mais agrada.

Os nossos dois filósofos e/ou historiadores da filosofia têm a capacidade de fazer uma revisão exaustiva da literatura epidemiológica e, portanto, de comunicar de forma correta aos cidadãos alguns dados plausíveis e não escolhidos ad hoc? Se não a têm (como eu suspeito), então estão prestando um desserviço aos seus leitores.

Além disso, se eles usam tal afirmação como a premissa de um raciocínio, estão prestando outro desserviço. Como eles deveriam saber, tendo estudado filosofia em algum lugar, a partir de uma premissa fraca ou vaga segue-se pelo menos uma conclusão fraca ou vaga, e a partir de uma premissa falsa segue-se aquilo que se quer.

E depois: “A Nature calculou que será fisiológico que 15% da população não tomem a vacina”. Sinto muito por eles, mas a Nature não calcula nada: é uma revista! (Ah, talvez eles estejam usando uma sinédoque ou uma metonímia, peço desculpas pelo pouco saber retórico que eu tenho).

O conselho editorial da Nature pode ter decidido publicar um trabalho (referenciado, mas nem por isso contendo verdades, principalmente quando se fala de previsões que, como os nossos dois autores sabem, são sempre probabilísticas, com tudo aquilo que isso envolve) em que, com base em um modelo matemático e nos dados disponíveis, pode-se inferir essa conclusão.

Aqui se abre uma série de problemas epistemológicos não banais, que ambos deveriam conhecer, tendo uma preparação filosófica. Mas, acima de tudo, por Deus, diga-me qual artigo você leu, a que autor você está se referindo, que edição da Nature está sob a sua atenção etc. Caso contrário, também se cai na falácia do argumentum ad verecundiam, e isso não é bom. Não é bom quando o leitor astuto descobre isso, e é ainda pior quando o leitor não astuto não descobre.

De todos os modos, a partir do fato de que “a Nature calculou que será fisiológico que 15% da população não tomem a vacina” não se infere minimamente a situação problemática que eles temem: “Então, deveremos ficar com o ‘pass’ até quando?". Onde está a estrutura argumentativa? A que se refere o “então”?

Eu não entendo – perdoem-me a pouca compreensão. Seguramente, isso se deve às minhas escassas capacidades mentais, mas a passagem do fato (suposto e bastante vago na sua fundamentação) de que 15% da população não tomará a vacina ao fato de que sempre devemos ter o green pass não é tão claro para mim. Certamente deve ser para eles, e eu amaria que eles me explicassem, como um simples cidadão que teme pela democracia do país onde vive.

“Todos estão ameaçados por práticas discriminatórias.”

“Todos” quem? Um uso não circunstanciado do quantificador universal é retórica e logicamente perigoso, como os medievais já nos ensinaram e como seguramente sabem os dois autores que às vezes fazem um amplo uso dos medievais. Além disso, a generalização (inclusive esta) está muitas vezes errada, e os dois filósofos (e/ou historiadores da filosofia) autores da nota deveriam saber disso, tendo tido (penso eu) um percurso educacional que também envolvia a leitura (obviamente em grego) de Platão e Aristóteles, mestres da distinção e inimigos das generalizações banais.

“Paradoxalmente, as pessoas ‘habilitadas’ pelo green pass mais ainda do que os não vacinados (que uma propaganda de regime gostaria de vender como ‘inimigos da ciência’ e talvez defensores de práticas mágicas), já que todos os seus movimentos seriam controlados e nunca se poderia chegar a saber como e por quem.”

Fala-se de propaganda de regime. Mas de que regime eles estão falando? Onde está esse regime? Quem o constitui? Quem organiza tal propaganda?

Um filósofo político astuto (mas também um historiador da filosofia política) não cairia em tais leviandades mistificadoras, nem mesmo comentáveis dentro de um discurso político sério que não se baseie em uma retórica oracular vazia.

Além disso, é verdade que “todos os seus movimentos seriam controlados e nunca se poderia chegar a saber como e por quem”? Vocês têm certeza, especialmente em tempos de tecnologias da informação, de que o “como” e o “por quem” estarão para sempre envoltos em um mistério? Vocês têm certeza de que entenderam como elas funcionam?

“A necessidade de discriminar é tão antiga quanto a sociedade e certamente já estava presente também na nossa, mas o fato de torná-la lei hoje é algo que a consciência democrática não pode aceitar e contra o qual se deve reagir imediatamente.”

Certamente, a necessidade de discriminar é antiga e criticável. Certamente, ela também está presente na nossa época. Mas quanta água (argumentativa) passa entre o fato de o green pass ser obrigatório ao fato de ele se tornar um perigo para a democracia (a propósito, em que acepção eles entendem “democracia”? Definamos alguns termos, por favor!).

Não faria mais sentido, talvez, fazer uma comparação indicando corretamente similaridades e dissimilaridades com a carteira de habilitação (um documento que discrimina quem pode dirigir de quem não pode, e que envolve um evidente rastreamento) ou com a carteira de vacinação exigida para visitar certos países extraeuropeus (um documento que discrimina e que envolve um evidente rastreamento)?

Não faria mais sentido, talvez, falar daquilo que se sabe, talvez sem tantos tons oraculares e com mais argumentações? Nós somos cidadãos que não precisam de besser-wisser aforismáticos, mas de intelectuais que nos ensinem a bondade do pensamento bem estruturado que se move e avança graças ao seu método histórico: problemas, soluções e suas justificativas racionais bem construídas.

Já somos adultos e não precisamos de evocadores sem inferências nem argumentos.

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Passaporte vacinal: “Agamben e Cacciari, onde estão os seus argumentos?” - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV