Escravidão, a origem do racismo

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30 Junho 2021

 

"O paradoxo da época pós-nazista é um racismo sem raças, para o qual não é mais suficiente aquela que os estudiosos chamam de 'definição restrita'. Situa-se nessa nova direção de estudo a pesquisa de Aurélia Michel, antropóloga francesa especializada em América Latina, sensível às questões da desigualdade, que em seu livro Il bianco e il negro. Indagine storica sull'ordine razzista", escreve Donatella Di Cesare, filósofa italiana, em artigo publicado por La Stampa, 29-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Hoje não se pode ignorar a dupla condenação que atingiu o racismo: a da ética, que em Nuremberg pronunciou um juízo inapelável, e a da ciência, que indicou que a "raça" nada mais é do que uma invenção. O resultado evidente dessa dupla condenação está na transformação em tabu da palavra "raça" que, tornando-se suspeita, é sistematicamente evitada e só aparece entre aspas, para se tomar distância dela. Não é por acaso que muito poucos admitem ser "racistas".

Isso significa que o racismo não existe mais? Que se trata de um fenômeno do passado, definitivamente superado, do qual eventualmente reaflora alguma "regurgitação"? Nesse caso, só sobreviveria em alguma franja da extrema direita ou em algum marginal grupo supremacista, que, em última análise, não têm influência efetiva dentro da sociedade democrática.

Infelizmente, porém, este não é o caso. O racismo pode conviver com a democracia; se reajusta alavancando-se na indiferença, no tédio, na ignorância. É uma violência de baixa intensidade, às vezes hilária, despreocupada e não menos cruel, que atinge os mais frágeis, os imigrantes, os estrangeiros, os pobres, os sem-teto, os portadores de deficiência, os diferentes. É um fazer de conta que se acredita que os atos perpetrados são inofensivos e causa ressentimento quando são reconhecidos como ódio. Piadas, alusões, insinuações, deslizes, subentendidos, que expressam, no entanto, o desejo obscuro de humilhar e podem facilmente levar à violência aberta.

 

O ensaio da historiadora Aurélia Michel sobre as
raízes modernas do ódio aos negros
(Foto: Divulgação/Einaudi)

O paradoxo da época pós-nazista é um racismo sem raças, para o qual não é mais suficiente aquela que os estudiosos chamam de "definição restrita". Situa-se nessa nova direção de estudo a pesquisa de Aurélia Michel, antropóloga francesa especializada em América Latina, sensível às questões da desigualdade, que em seu livro Il bianco e il negro. Indagine storica sull'ordine razzista (O branco e o negro. Investigação histórica sobre a ordem racista, em tradução livre), recém-publicado pela editora Einaudi, remonta às origens da discriminação. A tese básica é que "a instituição raça" substitui a mais antiga "instituição da escravidão". Em outras palavras: quando, no limiar da modernidade, a escravidão entra definitivamente em crise, outra forma seletiva, mais sutil e perversa, se insinua e se firma até se tornar o critério da arquitetura política e da ordem do mundo.

Nesse sentido, para além da biologia, a “raça” existe e é aquele procedimento único que caracterizou a ocidentalização do mundo. De um lado o branco e do outro o "negro", termo de origem portuguesa, que mescla duas metáforas discriminatórias, a mais antiga da cor e a da escravidão. A palavra "negro" assume um valor decisivo porque, se por um lado indica a equivalência entre escravos e africanos, por outro marca o ponto de virada, o momento em que a "raça" substitui a escravidão. Assim, Michel pode reiterar: “é por terem escravizado os africanos que os europeus se tornaram racistas”. Entende-se então por que, após um primeiro capítulo dedicado à economia escravista, e sua história de repressão, assumem grande importância aquelas partes do livro em que é reconstruída a relação entre a Europa e os continentes africano e americano. Que crimes perpetraram portugueses e castelhanos nas rotas do Atlântico meridional no século XV? O "tráfico de negros", aquele capítulo sombrio e terrificante da história europeia, não é contado por um interesse de tipo antiquário, mas porque, apesar das rebeliões, revoltas e finalmente da revolução haitiana de 1794, o império da escravidão nunca realmente acabou. Aliás, é graças à nova discriminação da "raça" que pode perpetuar-se, contribuindo assim para a construção do "reino do Branco".

O que Michel pretende mostrar, portanto, é a centralidade, a violência e a continuidade da discriminação em nossa história. A aparente saída da escravidão da antiguidade conduz a uma nova ordem "racial" que nunca foi tocada, nem mesmo depois de 1945. O nó que resta é a exclusão do parentesco. Nessa ordem, o outro não é o inimigo, mas o não-parente. O que é muito mais grave. A "brancura" ainda é o cânone econômico, ético e político do mundo ocidental e ocidentalizado. O "negro" deve permanecer em seu lugar, ocupar posições sociais subordinadas, funções econômicas marginais, sem pretender ser aceito como igual. Está eternamente em processo de civilização. Sua própria "cultura" é uma ameaça. Podemos também ajudá-lo a "integrar-se", podemos também considerá-lo nosso "amigo", mas nunca lhe daremos a cidadania. Porque não ama nossa nação o suficiente e ainda tem que provar - mesmo que seja menor de idade - que não solapa em sua base a "brancura" ocidental.

Esses mecanismos implacáveis sobrevivem, portanto, até mesmo na atual democracia. Isso leva Aurélia Michel a dizer que “a raça é uma ordem social global, a nossa ordem global”. No geral, o livro, que pode ser considerado uma apaixonante reconstrução histórica da "raça", oferece perspectivas inéditas e ajuda a pensar sobre uma questão complexa. Talvez o único ponto que se possa criticar é que, nessa visão, outros motivos são deixados de lado, como o da religião (como no caso do antijudaísmo ou da islamofobia), que também continua a desempenhar um papel importante na discriminação. 

 

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