Novos empreendimentos imobiliários contribuem para a perpetuação das desigualdades sociais. Entrevista especial com Carolina Freitas

"A pandemia renovou o senso de descartabilidade dos trabalhadores. O futuro pós-pandemia só poderá ser consagrado se houver luta por seus direitos", diz a pesquisadora

Foto: Veralana

Por: Patricia Fachin | 21 Mai 2021

 

As principais vítimas da Covid-19 no Brasil, segundo dados da Pnad, trabalham como garis, faxineiras, auxiliares de limpeza, diaristas e cozinheiros. "São justamente essas que figuram entre as categorias de trabalho que, ao mesmo tempo, mais empregam no Brasil e também são as mais mal remuneradas", diz Carolina Freitas em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU, concedida por e-mail.



Autora da dissertação “Mulheres e periferias como fronteiras: o tempo-espaço das moradoras do Conjunto Habitacional José Bonifácio”, premiada pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional - Anpur, Carolina investiga as relações entre exploração do trabalho, financeirização, empreendimentos imobiliários e a perpetuação das desigualdades sociais no país.



Segundo ela, inúmeros serviços fazem com que "um imenso conjunto do proletariado brasileiro" continue "submetido à tarefa de garantir a reprodução diferencial das famílias proprietárias". Ela analisa, especificamente, como isso tem ocorrido nas últimas décadas a partir da construção de novos empreendimentos imobiliários que visam à lucratividade e geram uma série de "serviços de 'facilities & properties'”, que empregam mão de obra mal paga. "Os artefatos, materiais e técnicas arquitetônicas utilizados nos produtos imobiliários que são arrendados por marcas de tipologias e assinaturas arquitetônicas (formadas como capital fictício) exigem um enorme contingente de trabalhadores nesses condomínios residenciais e corporativos de alto padrão. Trabalhadores da manutenção do ar-condicionado, da segurança privada, da faxina, da limpeza de vidros, da jardinagem, da recepção, da lavanderia, são numerosas as atividades hoje arranjadas no setor de serviços de 'facilities & properties', como nomina o mercado".

 

Carolina Freitas (Foto: Arquivo pessoal)

Carolina Freitas é graduada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP e em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo - USP, mestra e doutoranda pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – No artigo “Trabalho doméstico e cativeiro imobiliário”, você cita a atualização da Pnad acerca das categorias profissionais que registraram mais óbitos por Covid-19 no Brasil: garis, faxineiras, auxiliares de limpeza, diaristas e cozinheiros. O que esses dados revelam sobre o Brasil?

Carolina Freitas – A maior prevalência dos óbitos por Covid-19 nas categorias profissionais e responsáveis pelo trabalho de reprodução social – garis, faxineiras, auxiliares de limpeza, diaristas, ou seja, toda a atividade e trabalho coletivo de reprodução social que repõem todos os dias e também através das gerações as condições para que a economia e a produção dos bens e serviços e as relações de produção em geral possam se perpetuar porque dão conta de toda a infraestrutura dessas condições gerais da economia –, sem dúvida tem a sua centralidade revelada na crise sanitária mundial em que a logística do cuidado social global está colocada em xeque. Paradoxalmente, neste momento em que se joga luz sobre essas atividades que são continuamente invisibilizadas, historicamente ocultadas e não têm valor nos termos da economia política, a condição de essencialidade não aparece como um valor positivo, mas, ao contrário, como um valor da decretação da morte e da descartabilidade desses trabalhadores e dessas trabalhadoras.

Então, o vírus aparece como uma espécie de paródia trágica da formação brasileira, porque chega ao país por meio das pessoas das classes médias e altas, da elite brasileira, que estava infectada porque viajava para outros continentes. Em contrapartida, as primeiras vítimas fatais são uma empregada doméstica no Rio de Janeiro e um porteiro em São Paulo. Assim, há todo um padrão de consumo que é resultante de um tipo de acumulação e de concentração de renda que balizou o Brasil e naturalizou que os ricos reproduzam suas vidas dispondo de um contingente de trabalhadores que vão cuidar e manter seus artefatos de consumo: vão cuidar de suas casas luxuosas, vão abrir as portas dos seus carros, dos seus prédios, dos seus elevadores, vão cuidar da sua comida, do seu tempo livre, das suas crianças, dos seus parentes, dos seus idosos. Enfim, um imenso conjunto do proletariado brasileiro está justamente submetido à tarefa de garantir a reprodução diferencial das famílias proprietárias nas suas casas, nos seus clubes, nas suas escolas, nos seus hospitais, nas suas garagens, nos seus condomínios, nos seus salões, nos seus supermercados, nas suas academias e por aí vai. São justamente essas categorias que a Pnad revela que mais morrem por Covid-19, as quais figuram entre as categorias de trabalho que, ao mesmo tempo, mais empregam no Brasil e também são as mais mal remuneradas.

Chico de Oliveira, quando descreve o aspecto histórico dos serviços pessoais na Crítica à razão dualista, diz muito precisamente que, longe desses serviços serem uma excrescência, um resto, um depósito do exército industrial de reserva, na verdade, esses trabalhadores são muito adequados ao processo de acumulação e concentração do capital. Quando não existe uma infraestrutura, sobretudo nas cidades – já que o Brasil é um país urbano –, para a industrialização e socialização desses serviços, então a infraestrutura passa a ser esse trabalhador coletivo que, embora não produza necessariamente lucro direto, é a condição para a reprodução das relações sociais de produção e, evidentemente, das relações abismais de classe que vão arregimentar as particularidades históricas do Brasil, sobretudo de gênero e de raça, no interior da classe trabalhadora.

 

 

IHU On-Line – No artigo, você menciona este aspecto de que o trabalho doméstico assalariado é o que “garante a acumulação financeirizada contemporânea, atuando como contratendência infraestrutural da depreciação da propriedade privada imobiliária”. Pode explicar essa ideia? Como isso ocorre?

Carolina Freitas – Há um debate extenso sobre o significado desse processo de mudanças que reforçam o domínio econômico das finanças na acumulação capitalista atual. É possível dizer, rapidamente, que este domínio subordina o trabalho e, por redundância, a vida, a representação do dinheiro, a concentração e centralização de títulos que representam valores produzidos socialmente. Como uma miragem, títulos financeiros se avolumam ficticiamente e, ao mesmo tempo, respondem pela ultraconcentração e centralização de capitais ao redor do globo. O crescente domínio do capital financeiro significa a dissociação mais radical entre a representação do dinheiro e os valores dos bens e serviços que reproduzem a vida e a sociedade.

 

 

Domínio das finanças

O domínio das finanças reconfigurou as empresas, os estados, o trabalho (a sua organização e gestão), o consumo das famílias. E o imobiliário entra aí. O capital excedente transformado em capital fictício encontra no espaço imobiliário uma solução para seguir sendo rentabilizado. É a solução, o ou “ajuste espacial”, nos termos de David Harvey, que o capital dá à sua própria crise de reprodução, em razão da lei tendencial da queda da taxa de lucro, uma dinâmica própria e interna à reprodução do capital; a produção do lastro imobiliário opera como contratendência. Esta é uma primeira afirmação relevante à sua pergunta. A própria produção imobiliária é uma contratendência à crise capitalista.

 

 

 

Capital imobiliário financeiro nas metrópoles

Esta produção imobiliária é um complexo no qual se cria uma materialidade – as construções – que obtém altas taxas de mais-valia pelo trabalho superexplorado nos canteiros e, ao mesmo tempo, forma preços de monopólio sobre pedaços do planeta terra e, com isso, o direito de auferir renda. Na totalidade das transformações urbanas das últimas décadas, há, por um lado, a produção de centralidades do capital imobiliário financeiro nas metrópoles, com a produção fetichizada de novos protótipos arquitetônicos a serem consumidos e a relação complexa, que reside justamente neste espaço construído, entre tipos de rendas – fundiária, financeira, tecnológica, de marca.

O espaço é produzido, como explica o marxismo que se atinou às questões urbanas há décadas, enquanto experiência concreta e imediata. E aí entra novamente a particularidade do imobiliário. A construção civil é um ramo produtivo destacado pela extração de mais-valia absoluta e por ter uma composição orgânica baixa, ou seja, emprega tecnologia, mas esta é mais gerencial do que propriamente de maquinário que substitua o trabalho vivo na produção. Há um amplo e histórico debate a respeito.

 

 

Na formação social brasileira, o enorme êxodo diaspórico do Nordeste ao longo de décadas para conformar a metropolização no Sudeste respondeu a essa demanda de mão de obra nos canteiros, no caso dos homens, e do emprego doméstico no imobiliário urbano, no caso das mulheres. Este trabalho concreto imediato vinculado ao espaço, seja na sua produção, seja na sua reposição, segue sendo realizado e superexplorado por meio de mecanismos diferenciais da força de trabalho vendida no mercado como mercadoria, que segue subordinando trabalhadoras e trabalhadores negros e de origem nordestina.

São estes mesmos que criam o mais-valor imobiliário por meio da construção, ou atendem à necessidade de reprodução da materialidade do espaço construído de tal modo que ela não perca valor e não seja depreciada, tanto pelo desgaste do tempo, quanto pela sua “obsolescência de rentabilidade”, quando o capital migra e vai buscar novos espaços para se tornarem centralidades de investimentos. É a combinação produzida entre o moderno e o arcaico neste setor. Ao mesmo tempo que os canteiros se transformaram, como estudos apontam, fica subjacente à noção de “urbanização de serviços” um processo pelo qual o trabalho fica vinculado, em níveis variados, aos custos de manutenção e reprodução desta urbanização. Muito do trabalho tradicionalmente improdutivo vinculado à manutenção, limpeza e gestão predial, por exemplo, passa a ser empresariado e a produzir, ele mesmo, valor, no arranjo de reestruturação da metrópole e de reorganização do setor imobiliário. O tradicional trabalho doméstico assalariado também é uma fronteira desse “empresariamento” e se profissionaliza na toada dessas transformações.

 

 

IHU On-Line - De que modo a arquitetura e os modos de viver e de habitar nas cidades brasileiras ainda hoje reforçam a manutenção de um sistema de trabalho excludente, com uma massa de trabalhadores que recebem baixos salários?

Carolina Freitas – Vivemos uma transição histórica, na qual o espaço imobiliário deixa de ser apenas condição ou meio das relações econômicas, mas passa a ser, ele mesmo, um produto e um ramo de mercado que, no Brasil, assume historicamente uma presença importante, absorvendo capital excedente da indústria e reestruturando as metrópoles brasileiras, sobretudo na transição do país industrial periférico para o país urbanizado de acumulação subordinada ao capitalismo financeirizado global.

Este produto imobiliário arquitetônico, de tipo residencial ou corporativo, será produzido e replicado em diversos lugares, em metrópoles no mundo inteiro. Em substituição à fixidez particular das sedes corporativas nas cidades industriais, hoje os capitais procuram fluidez e despojamento dos custos de capital fixo. Portanto, sedes empresariais precisam de padrões arquitetônicos que se replicam ao redor do mundo (das torres de vidro na Marginal Pinheiros em São Paulo a Dubai), e as cidades globais concorrem entre si para recepcionar infraestruturalmente esses capitais.

O que interessa aqui é que esse fluxo de capital, cujo lastro real de valor pode estar fixado em São Paulo, mesmo que sua propriedade seja de um fundo de investimento norte-americano, este capital, que pode transitar por qualquer parte do mundo, arreda sua valorização na fixidez da construção imobiliária e, com ela, impera a demanda de manutenção deste valor de uso, correspondente ao valor, como comentei na pergunta anterior.

 

 

Serviços de “facilities & properties”

Os artefatos, materiais e técnicas arquitetônicas utilizados nos produtos imobiliários que são arrendados por marcas de tipologias e assinaturas arquitetônicas (formadas como capital fictício) exigem um enorme contingente de trabalhadores nesses condomínios residenciais e corporativos de alto padrão. Trabalhadores da manutenção do ar-condicionado, da segurança privada, da faxina, da limpeza de vidros, da jardinagem, da recepção, da lavanderia, são numerosas as atividades hoje arranjadas no setor de serviços de “facilities & properties”, como nomina o mercado. É a mercantilização do trabalho vista sobretudo por meio da terceirização destas atividades-meio, de manutenção espacial das edificações, de seus sistemas e materiais e que representam os custos de manutenção, sejam eles recursos despendidos de patrimônio familiar ou de capital fixo empresarial.

Em outro aspecto, toda a infraestrutura de produção e circulação das mercadorias é o próprio capital fixo socializado que chamamos de “espaço urbano” e por isso também este espaço opera como meio constitutivo do processo de produção e de valorização. A categoria de entregadores de aplicativo, por exemplo, que cresce vultosamente em número, absorvendo economicamente trabalhadores desempregados, é um tipo de relação imediata de exploração que também está completamente subordinada à renda imobiliária e tecnológica.

Há formas de exploração para as mesmas funções tradicionais que têm origem na nossa história econômica escravista. As mucamas do período colonial se tornaram trabalhadoras domésticas, como bem discorre Lélia Gonzalez em Racismo e Sexismo na cultura brasileira. Há um forte e evidente predomínio deste assalariamento nos serviços de reprodução social familiar ainda hoje, e há, ainda, como dito, esta incorporação do trabalho de reprodução do espaço nas cadeias de valor. Os empreendimentos imobiliários, me parece, contribuíram para essas novas tendências nas quais o emprego tradicionalmente improdutivo se torna produtor de valor, através da exploração oriunda de um processo de industrialização de serviços urbanos e imobiliários.

 

 

IHU On-Line - Quais são as principais constatações da sua pesquisa sobre as transformações do espaço da periferia e as transformações dos papéis sociais das mulheres, a partir da investigação do Conjunto Habitacional José Bonifácio em Itaquera, zona leste de São Paulo?

Carolina Freitas – Na dissertação, noto que o Conjunto Habitacional José Bonifácio se insere num movimento contemporâneo mais amplo de expansão de investimentos imobiliários em regiões das periferias metropolitanas, onde o preço da terra é historicamente mais baixo. Assim como no arredor do Conjunto José Bonifácio, em muitas outras periferias foram lançados, a partir dos anos 2000, empreendimentos residenciais por meio de linhas de financiamento dirigidas ao chamado segmento econômico, além de empreendimentos do Programa Minha Casa, Minha Vida.

Este espaço do Conjunto Habitacional de escala industrial, de projeto modernista rarefeito da Cohab, que é uma morfologia que está presente numa ampla variedade de cidades e metrópoles, me parece corresponder a uma representação histórico-espacial da família proletária. Um casal com filhos, nesse estudo de caso, a esposa dona de casa ou artesã doméstica, e o marido operário no ABC paulista ou nos corredores fabris da zona leste, em Itaquera, Guarulhos e São Miguel Paulista.

Muito embora haja nestes conjuntos um imperativo da forma arquitetônica, me propus a entender as transformações das funções dessas formas, ao considerar teoricamente a reestruturação do trabalho, da família, e da metrópole nesta circunscrição geográfica, as continuidades e descontinuidades nos dois ciclos de produção imobiliária no Brasil que me propus a comparar, o primeiro no contexto da ditadura empresarial-militar de 1964, a partir da criação do Banco Nacional de Habitação, e o segundo o ciclo mais recente na renovada coalizão entre Estado e mercado na consecução do Programa Minha Casa, Minha Vida e do crescimento do mercado habitacional para a faixa de renda correspondente à chamada classe “C”.

A transformação das funções do Conjunto analisado é complexa e melhor enxergada, na minha opinião, quando analisamos as relações sociais de produção em sentido amplo, não apenas em termos de produção de mercadorias, mas a reprodução ampliada da lógica da mercadoria invadindo os mais diversos âmbitos da vida e da metrópole, constituindo os sujeitos, inclusive.

 

 

Condomínios: somatório de espaços individualizados

Essas alterações nas relações sociais podem ser identificadas a partir da fragmentação do espaço através da propriedade privada. O condomínio aparece não como um compartilhamento da propriedade imobiliária, uma propriedade coletiva, um comum, mas uma somatória de espaços abstratos individualizados que incutem a noção de que o melhor para todos é a coação, o “todos contra todos” em nome da lógica imperativa e disciplinar de preservação do imobiliário e a sua promessa como patrimônio e renda.

Por outra parte, a forma identificada do Conjunto, seu “excesso” e rigidez de forma, é combinado com o “trabalho sem forma”, nos termos de Chico de Oliveira, dos negócios informais das garagens e do trabalho doméstico mercantilizado. Entrevistei mulheres que tinham creches informais em seus apartamentos, cuidando de crianças, de domingo a domingo, 14 horas por dia, filhos de outras mulheres vizinhas com trabalhos intermitentes e noturnos. Também entrevistei jovens mulheres que, com a falta de emprego ali, falaram sobre o desemprego em massa na sua faixa etária e também sobre seus longos deslocamentos diários para outras regiões da metrópole, onde preenchem funções principalmente em áreas que concentram serviços; narram também como o trajeto do deslocamento pelo transporte público segue generalizadamente violento para as mulheres, embora sejam elas que, desde sempre, mas cada vez mais, mais se desloquem pela cidade. A fragmentação e a hierarquização espacial na cidade aprofundam a precariedade e a qualidade espoliativa desses deslocamentos femininos, que combinam a produção e a reprodução social.

Muitas mulheres entrevistadas são empregadas no quadrante sudoeste na cidade de São Paulo, que foi reconstruído e reproduzido para apropriação do capital financeiro-imobiliário ao longo de décadas – algo espacialmente muito diferente do espaço rígido concebido pelo Estado na periferia no ciclo anterior de produção, verificado no Conjunto no extremo leste.

Também foi constatada uma inversão importante na história do espaço, sentida pelas moradoras: há mulheres que chefiam suas famílias, saindo ou não do Conjunto para trabalhar, e homens que significaram o ciclo industrial anterior (como trabalhadores e como mutuários dos apartamentos) permanecendo ali pela aposentadoria ou desemprego.

 

 

Em resumo, de tudo isso, extraio que o espaço concebido pelo regime ditatorial tinha formas e funções correspondidas, uma lógica implícita do espaço que organizava a vida familiar do operariado e a divisão sexual do trabalho característica da sociedade industrial e o salário familiar masculino.

As formas determinam e são determinadas hoje pelo avanço da produção imobiliária na metrópole e pelo estabelecimento do condomínio como forma de propriedade privada individual. Ao mesmo tempo, as funções que as mulheres desempenham como principais responsáveis pela reprodução social – e, portanto, principais alvos de sua crise – se plasmam nesta concepção precária originalmente concebida como espaço habitacional industrial da Cohab. A urbanização de baixos salários correspondeu à responsabilização das famílias pelo trabalho não pago correspondente à superexploração da força de trabalho. A transição para a sociedade urbana contemporânea produziu um novo tipo de espaço como produto mercantil e exige trabalho de reprodução desse espaço, sobretudo sob a forma de “serviços”. Trata-se de uma reformulação do trabalho aplicada expressivamente às mulheres, é uma “urbanização de serviços” da reprodução social também.

 

 

IHU On-Line - Que relações estabelece entre processos de exploração do trabalho, opressão dos trabalhadores e espoliação urbana, imobiliária e financeira? Como essas questões se inter-relacionam e como podemos percebê-las na sociedade brasileira?

Carolina Freitas – Na verdade, tratamos como aspectos distintos estes termos que, na realidade, se confundem e se imiscuem. Apenas numa relação interna, em que são postos de maneira relacional, podemos diferir o problema da exploração, da opressão e da espoliação. São momentos concretos, é verdade, mas também simultâneos, que se codeterminam socialmente. Não penso que podemos tratá-los de maneiras distintas, porque esculpem a mesma totalidade que constitui a classe trabalhadora brasileira na sua materialidade.

A opressão – de raça, gênero, sexualidade, nacionalidade, entre outras – é uma operação de diferenciação da força de trabalho na conversão de elementos naturais em elementos sociais e de elementos sociais em naturais. Esta diferenciação não se dá apenas no nível da oferta desta mercadoria que é a força de trabalho no mercado, onde a força de trabalho feminina e negra vale menos. Ela vale menos desde antes das trocas no mercado. A opressão é esta diferenciação anterior à troca, uma acumulação primitiva relacionada à corporificação e desumanização, portanto, dos trabalhadores, de tal modo que o valor auferido para que uma trabalhadora negra possa sobreviver no Brasil seja efetivamente menor que outros trabalhadores.

É um fetiche complexo que se perpetua como estratégia de reprodução do capital, na medida em que essas diferenciações também se internalizam ao próprio conjunto geral daqueles e daquelas que vivem de trabalhar e os coloca uns contra os outros. Como o capital depende relutantemente da reprodução geracional e diária da força de trabalho, não pode deixar de despender recursos para sua manutenção, mas atua permanentemente para rebaixá-los e isso se dá pela dominação racial e de gênero e pelos níveis espoliativos de vida, como os descritos acima.

Nisto incorre a espoliação, a expropriação pela acumulação global de capital, não imediata das relações de exploração do trabalho, já que estes trabalhadores mais oprimidos estão fadados, na sociedade urbana, a viver impositivamente menos e pior, habitar precariamente, despender mais montante salarial em moradia, estar sob a mira do terrorismo de Estado por estarem circunscritos a certos territórios controlados, serem alvos das contrarreformas de Estado, como a trabalhista, da previdência e a Emenda Constitucional do Teto dos Gastos etc., ou seja, são reféns dos mecanismos de captura e concentração do mais-valor produzido socialmente.

A exploração está no nível imediato da troca salarial e este salário, que está na quina entre a produção e o consumo, é o momento preponderante das expropriações constitutivas do modo de produção capitalista porque é nesta troca desigual em essência, pela qual o trabalho produz mais do que aufere, que se origina o lucro. Qual preço salarial cada trabalhador possuirá ao vender sua capacidade de trabalho está determinado pelos níveis e qualidades de opressão e espoliação a que estão submetidos; por sua vez, os níveis de reprodução por meio do salário também determinam estas condições de espoliação urbana, imobiliária, financeira e de discriminação de raça e gênero, por exemplo.

 

 

IHU On-Line - Por que, na sua avaliação, o espaço periférico da metrópole se revela hoje como fronteira para a expansão do capital?

Carolina Freitas – O mecanismo de diferenciação espacial através da transformação das funções e das estruturas em certas localidades a pretexto de torná-las novas centralidades na metrópole tem avançado para periferias, onde o preço da terra historicamente é mais baixo. Este avanço subsume a situação passada de muitos lugares. Agora, novos planos de reestruturação urbana de regiões periféricas surgem, depois que investimentos imobiliários foram feitos, pelo menos, desde a década de 1990 nas periferias em São Paulo, para a implementação, por exemplo, de grandes redes varejistas e comerciais.

Os instrumentos urbanísticos contemporâneos flexibilizam o que se pode construir numa certa localização, normalmente justificando-se pelo suposto fato de que o Estado não tem orçamento para “melhorar” as regiões periféricas da cidade. Sob o pretexto ilusório de “progresso”, atende-se ao capital privado, desde o desenho, a concepção dos projetos, o preço do direito de construir etc. A lógica da contabilidade dos seus ganhos é imperativa. Esta preponderância diretiva do capital privado nos planos urbanísticos e este avanço da apropriação privada de capital nas fronteiras urbanas são parte das transformações urbanas.

A valorização imobiliária em Itaquera nos anos do boom imobiliário, na região do meu estudo de mestrado, é acompanhada por um processo anterior, iniciado até os anos 2000, com incidência em diversas periferias metropolitanas, de expansão de lançamentos imobiliários residenciais privados para o chamado “segmento econômico”. Uma coalizão conjuntural que associou o financiamento público da produção e do consumo dessas habitações, a partir do Minha Casa, Minha Vida, mas também outras linhas de financiamento pela Caixa Econômica Federal, combinada com uma renovada concentração e centralização de capital no setor imobiliário, com significativa abertura de capitais na bolsa, com a desregulamentação da sua atuação e a criação de uma legislação que assegurou juridicamente seus negócios, também atuou fortemente na transformação de regiões periféricas.

 

 

IHU On-Line - Alguns estudos mostram que a pandemia atingiu em cheio os trabalhadores domésticos e dos setores de alojamento, alimentação e comércio, que estão precisando dos programas de auxílio do governo para sobreviverem. Que futuro vislumbra para essas categorias pós-pandemia?

Carolina Freitas – De acordo com o que especialistas, incluindo os do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos - Dieese, apontam em seus estudos técnicos, o Auxílio Emergencial aprovado em 2021 é insuficiente para estes segmentos de trabalhadores, que ficaram mais desempregados nestes respectivos setores, justamente porque estão mais vulneráveis à rotatividade, aos baixos salários, aos contratos flexíveis, revigorados pela contrarreforma trabalhista aprovada no governo Temer. No caso das trabalhadoras domésticas, são pelo menos seis milhões de pessoas, 92% destas, mulheres, 68%, negras, segundo a Pnad de 2018. Destes setores que você menciona, 1,5 milhão de trabalhadores no emprego doméstico e 1,5 milhão da alimentação e alojamento tinham sido demitidos durante a pandemia até janeiro deste ano, segundo a Pnad Contínua.

O hiato entre a prestação do Auxílio Emergencial em 2020 – cinco parcelas de R$ 600,00 e quatro parcelas de R$300,00 – e a prestação do auxílio em 2021, que teve âmbito e valores restringidos, certamente devasta e não livra das cicatrizes dos dados pavorosos a nossa realidade: quase 40 milhões de brasileiros em trabalhos informais e sob maior risco sanitário e de vida, quase 15 milhões de pessoas desempregadas, quase 60 milhões em estado de insegurança alimentar.

Na medida em que a pandemia for controlada e a vacinação avançar, a perspectiva parece ser de retomada desses setores e de recontratação. Mas não considero que estes serviços serão mais valorizados por terem sido mais afetados nestes dois anos críticos. A pandemia, como disse no início, renovou o senso de descartabilidade desses trabalhadores. O futuro pós-pandemia só poderá ser consagrado se houver luta por seus direitos.

 

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