Grandeza e miséria da vocação

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22 Janeiro 2021

Publicamos aqui o comentário de Enzo Bianchi, monge italiano fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 3º Domingo do Tempo Comum, 24 de janeiro de 2021 (Marcos 1,14-20). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Cada um de nós, sobretudo se for idoso mas não acometido de demência senil, vai muitas vezes ao encontro das suas recordações do passado, em particular daquele que foi o início, o começo de uma história, de um amor que o marcou por toda a vida e que ainda o faz vibrar. O cristão também faz essa operação de buscar no passado, quase para reviver a hora da conversão; ou, melhor, para muitíssimos, a hora da vocação, quando nos tornamos conscientes com o coração de que talvez um aviso nos era dirigido, de que talvez o Senhor queria que nos envolvêssemos na sua vida mais do que até então. Nós a chamamos, justamente, de hora da vocação.

A página do Evangelho deste domingo, no qual voltamos a ouvir o Evangelho de Marcos, quer ser justamente uma história de vocação na qual quem predispõe tudo para ouvir o chamado de Jesus pode se espelhar, ou pode ser a oportunidade para o recordar como um evento do passado, que ainda pode ter ou não mais força, até mesmo significado.

Jesus volta à Galileia, a terra da sua infância, para começar a proclamar uma mensagem que ele sentia dentro de si como uma missão de Deus Pai. Ele começa essa vida de pregação e de itinerância depois que João, o seu rabi, o seu mestre, aquele que o educou na vida conforme a aliança com Deus e também o imergiu nas águas do Jordão (cf. Mc 1,9), foi posto na prisão por Herodes, foi reduzido ao silêncio, ele que era a “voz” (cf. Mc 1,3; Jo 1,23). É o fim de quem é profeta, e Jesus logo se encontra diante dessa que é uma “necessitas” humana: se ele continuar no caminho do seu mestre, mais cedo ou mais tarde conhecerá a perseguição e a morte violenta.

Jesus começa a proclamar a boa notícia, o Evangelho de Deus, na consciência de que o tempo da preparação, para Israel o tempo da espera dos profetas, que o tempo da paciência de Deus alcançou o seu cumprimento, como o tempo de uma mulher grávida. No fim da gravidez, há o parto, e assim Jesus anuncia: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!”.

Eis a síntese da sua pregação: há o início de um tempo novo em que é possível fazer Deus reinar na própria vida; para que isso ocorra, é preciso se converter, voltar para Deus e depois crer na boa notícia que é a presença e a palavra do próprio Jesus.

É apenas um breve versículo que expressa essa novidade, mas é o início de um tempo que dura até hoje e aqui: é possível que Deus reine sobre mim, sobre você, sobre nós, e é assim que o reino de Deus vem.

Agora, graças à presença de Jesus, à sua vida e à sua palavra, é possível que cada pessoa deixe que só Deus reine sobre si, e não os ídolos ou outros senhores. Mas, para que isso ocorra, é preciso a fé: “Crede, tende fé-confiança!”. Essa palavra de Jesus, capaz de sacudir os corações adormecidos hoje como então, é dirigida a nós que sempre somos tentados a confiar nas nossas obras, acabando assim por esvaziar a fé.

A nós que perguntamos: “O que devemos fazer para realizar as obras de Deus?” (Jo 6,28), Jesus responde: “Crede!”, para nos ensinar que “esta é a obra de Deus: crer naquele que ele enviou” (Jo 6,29). Sim, que o cristão nunca se esqueça de que as muitas obras boas são sempre obras “nossas”, mas todas encontram a sua raiz vivificante e o seu sentido na única obra de Deus, a fé. “Tudo é possível para quem crê” (Mc 9,23), dirá Jesus com força...

Diante dessa alegre notícia, mas também dessa nova possibilidade oferecida pela presença de Jesus, estamos nós, homens e mulheres que ainda hoje escutamos o Evangelho. O que fazemos? Como reagimos? Talvez estejamos vivendo cotidianamente, voltados ao nosso trabalho, à nossa ocupação cotidiana para ganhar a vida, não importa qual seja; ou estamos em um momento de pausa; ou estamos conversando com outros...

Não há uma hora marcada: de repente, no nosso coração, sem que os outros se deem conta de nada, uma chama se acende. “Quem sabe? Ouço talvez uma voz? Conseguirei responder ‘sim’? Será para mim essa voz que me chama a ir? Onde? Para seguir quem? Jesus? E como faço? Será possível?”.

Tantas perguntas que se cruzam, que desaparecem e voltam em ondas. Mas, se forem ouvidas com atenção, então pode ser que nelas se escute uma voz mais profunda do que nós mesmos, "mais íntima do que o nosso íntimo” (Agostinho), uma voz que vem de um além de nós mesmos, mas através de nós mesmos: a voz do Senhor Jesus! É assim que começa uma relação entre cada um de nós e ele, sim, ele, o Senhor, presença invisível mas viva, presença que não fala de modo sonoro, mas atrai...

Aqui, no Evangelho segundo Marcos, esse processo de vocação é sintetizado e, por assim dizer, estilizado pelo autor, que narra apenas o essencial: Jesus passa, vê e chama; alguém escuta e leva a sério a sua palavra: “Segue-me!”, e se envolve na sua vida. E isso é verdade para todos e é inútil dizer mais: seria apenas uma busca de processos psicológicos...

Mas o essencial foi dito, de uma vez por todas: uma vez acolhida a vocação, abandonam-se as redes, isto é, o ofício, abandonam-se o pai e a barca, isto é, a empresa familiar, e assim nos despojamos e seguimos Jesus.

Obedecer ao chamado do Senhor coincide com um renascer a uma vida nova, com um recomeçar. E todo nascimento exige uma boa separação: só quem fez uma boa separação, de fato, será capaz de dar vida a uma nova união, com Cristo e com a comunidade dos irmãos e das irmãs.

Mas atenção: a vocação é uma aventura cheia de grandeza, mas também de miséria! Para compreender isso, é suficiente seguir nos Evangelhos a história desses quatro primeiros chamados. O primeiro, Pedro, sobre o qual Jesus depositara muita confiança, vivendo perto dele, muitas vezes não entende nada dele (cf. Mc 8,32; Mt 16,22), a ponto de Jesus ser obrigado a chamá-lo de “Satanás” (Mc 8,33; Mt 16,23); às vezes está distante de Jesus a ponto de contradizê-lo (cf. Jo 13,8); às vezes o abandona para dormir (cf. Mc 14.37-41 e par.); e enfim o renega, diz que conhece a si mesmo e que nunca conheceu Jesus (cf. Mc 14,66-72 e par.; Jo 18,17,25-27).

André, Tiago e João, em muitas situações, não compreendem Jesus, entendem-no mal e não conhecem o seu coração. Os dois filhos de Zebedeu, em particular, são duramente repreendidos por Jesus quando invocam um fogo do céu para punir quem não os acolheu (cf. Lc 9,54-55); e sempre eles, no Getsêmani, dormem junto com Pedro.

Mas há mais, e Marcos ressalta isso de modo implacável, com um contraste que não poderia ser mais claro: aqueles que aqui, “abandonando tudo, seguiram Jesus”, na hora da paixão, “abandonando Jesus, fugiram” (Mc 14,50)...

Pobre seguimento! Sim, o meu seguimento, o seu seguimento, caro leitor ou leitora. Não temos realmente muito do que nos orgulhar... Devemos apenas invocar muita misericórdia da parte de Deus e agradecer-lhe porque, apesar de tudo, ainda estamos a caminho atrás de Jesus e ainda tentamos, dia após dia, viver com ele.

E não esqueçamos: a promessa de Jesus é mais forte do que as nossas infidelidades, do que as infidelidades dos seus discípulos. É por isso que, depois da aurora da Páscoa, eles ainda serão pescadores de homens e anunciadores do Reino, capazes de transmitir a todos a boa notícia. De fato, quem ouviu a boa notícia e a ela aderiu com toda a sua vida será sempre capaz – apesar de si mesmo! – de anunciar aos outros o Evangelho do Reino que vem e que, em Jesus ressuscitado, se faz próximo de todos e de cada um.

 

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