Jesus ainda nos pergunta: o que vocês estão procurando?

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15 Janeiro 2021

Publicamos aqui o comentário de Enzo Bianchi, monge italiano fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 2º Domingo do Tempo Comum, 17 de janeiro de 2021 (João 1,35-42). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Neste domingo que se segue à festa do batismo do Senhor, o ordo litúrgico nos propõe o encontro dos primeiros discípulos com Jesus, segundo o relato do quarto Evangelho.

Estamos na semana inaugural da vida pública de Jesus (cf. Jo 1,19-2.12). Dois dias depois do interrogatório de João Batista pelas autoridades sacerdotais provenientes de Jerusalém, Jesus passa e caminha na frente de João e de dois de seus discípulos. E, fixando o olhar em Jesus, o Batista afirma: “Eis o Cordeiro de Deus!”.

É uma verdadeira apresentação de Jesus, a indicação de que precisamente ele é o Servo de Deus, o Cordeiro pascal que traz a libertação ao seu povo (de fato, o termo aramaico talja contém ambos os significados). João, como verdadeiro rabi e mestre, en-sina, faz sinal aos discípulos e, assim, dá uma orientação à sua busca: ele não os se-duziu (trazer a si), não os manteve perto de si, mas os e-duca, os conduz para fora, rumo ao Messias.

Ouvindo as palavras de Batista, os dois imediatamente começam a seguir Jesus, acompanham os seus passos, vão aonde ele vai.

E, de repente Jesus se volta para trás, observa-os com um olhar penetrante e lhes pergunta: “O que estais procurando?”. Pergunta, esta, inevitável para quem quer se pôr no seguimento de Jesus, portanto, uma pergunta dirigida ainda hoje a nós que tentamos segui-lo.

“O que você realmente está procurando? Qual é o seu desejo mais profundo?” Estas são as primeiras palavras pronunciadas por Jesus segundo o quarto Evangelho; não é uma afirmação, não é uma declaração, como talvez poderíamos esperar, mas sim uma pergunta: “O que você procura?”.

Desse modo, Jesus mostra que o seu seguimento não pode ocorrer por encanto, por uma paixão fugaz, por uma simples escolha de pertencimento: o discípulo pode embocar um caminho errado se não souber reconhecer o que e a quem realmente procura – “si revera Deum quaerit”, “se verdadeiramente busca a Deus”, diz a Regra de Bento (58,7) –, se não estiver comprometido a buscar, disposto a deixar as suas seguranças para se abrir ao dom de Deus. Buscar é uma operação e uma atitude absolutamente necessárias para escutar e acolher a própria verdade presente no íntimo, lá onde o Senhor fala.

Os dois discípulos respondem a essa pergunta com outra pergunta: “Rabi, onde moras (verbo méno)?”. Jesus é definido por eles como “rabi”, mestre e guia, portanto querem conhecê-lo na sua morada, na sua habitação, querem morar onde ele mora: não só ouvir um ensinamento, mas ser envolvidos na sua vida. Jesus lhes responde com muita simplicidade: “Vinde ver”, isto é, venham e experimentem, venham e verão com um olhar que poderá até ver a glória de Jesus como Filho de Deus (cf. Jo 1,14; 2,11).

Assim ocorreu o encontro com Jesus, um encontro que mudou profundamente as suas vidas, porque, a partir daquela hora (definida precisamente como a décima hora, ou seja, as quatro da tarde), começam a viver, a morar com ele.

Esses dois primeiros discípulos de Jesus são André e o outro que não tem nome, mas que foi identificado pela tradição no discípulo anônimo, “aquele a quem Jesus amava” (Jo 13,23; 19,26,20,2; 21,7.20), talvez o filho de Zebedeu. Os sinóticos apresentam esse chamado dos primeiros discípulos com um relato muito diferente: na Galileia, às margens do mar, Jesus passa e vê dois pares de irmãos, chama-os para trás de si (“Sigam-me!”), e estes o seguem prontamente, sem dilações (cf. Mc 1,16-20 e par.).

No quarto Evangelho, em vez disso, a vocação é mediada pelo Batista, não é direta. Em ambos os casos, porém, o testemunho é unânime: antes de iniciar a sua pregação, Jesus forma ao seu redor uma comunidade, os chamados a fazerem parte dela se põem no seu seguimento (verbo akolouthéo), e ele lhes pede que compartilhem a sua vida sempre, na perseverança, até o fim.

Certamente, o discípulo anônimo, “aquele a quem Jesus amava”, parece ser o modelo de todo discípulo que permanece com o Senhor mesmo durante a sua paixão, mesmo debaixo da cruz, e permanece como sinal profético até a sua vinda na glória (cf. Jo 19,26; 21,22).

Mas eis que André – de acordo com a tradição grega, o primeiro chamado –, encontra seu irmão Simão e imediatamente lhe diz: “Encontramos o Messias, o Cristo”. Ele se sente impulsionado a comunicar a boa notícia do Messias há muito esperado e agora presente, operante no meio do seu povo, sobretudo do seu irmão. Ele o conduz a Jesus, porque Simão compartilhava essa expectativa, estando também ele em busca daquele cuja vinda o Batista anunciava. A espera acabou, a busca teve êxito. A expressão “encontramos”, no plural, já indica o “nós” da comunidade de Jesus, que, a partir deste momento, ressoará em todo o Evangelho para confessar a fé e dar testemunho.

Segundo o quarto Evangelho, Simão não faz nenhuma ação, não toma nenhuma iniciativa, mas está diante de Jesus e ouve as suas palavras inequívocas. Jesus fixa o olhar sobre ele, assim como o Batista o fixara no próprio Jesus, e lhe proclama a sua verdadeira identidade, vocação e missão: “‘Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas’ (que quer dizer: Pedra)”.

Não é simples interpretar a primeira parte dessa declaração: o que significa “filho de João”, dito àquele que é irmão de André, nunca chamado por esse patronímico? Talvez signifique: “Tu és Simão, o discípulo de João Batista”? A questão permanece em aberto, mas, em todo o caso, as palavras decisivas são as que se seguem: “Tu serás chamado Cefas, Pedra”. Assim, Jesus revela quem verdadeiramente é Simão dentro da sua comunidade: é uma pedra, uma rocha imediatamente posta em posição de autoridade, será ele o porta-voz dos Doze (cf. Jo 6,67), será ele o pastor do rebanho do Senhor (cf. Jo 21,15-18).

Mas, se o quarto Evangelho nos fornece essa narrativa “outra” do chamado dos primeiros discípulos, logo depois, no chamado de Filipe que ocorre no dia seguinte, reaparece aquela palavra eficaz dirigida por Jesus ao discípulo: “Segue-me!” (akoloúthei moi: Jo 1,43). Movendo-se das margens do Jordão rumo à sua terra, a Galileia, Jesus encontra Filipe, outro galileu de Betsaida (assim como Pedro e André). Não nos é dito nem onde nem em que situação Jesus lhe dirige tais palavras a ele, mas o essencial é que ele lhe peça que o siga. Filipe prontamente o segue e começa a fazer parte da comunidade dos discípulos, como testemunham também os sinóticos que o colocam entre os Doze (cf. Mc 3,18 e par.).

Vocação, portanto, sem mediações, mas nem por isso menos contagiosa. De fato, assim que Filipe encontra outro galileu, Natanael, proveniente de Caná, ele lhe comunica a boa notícia do cumprimento das Sagradas Escrituras, a Torá de Moisés e os Profetas: “Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei e também os profetas: é Jesus de Nazaré, o filho de José” (cf. Jo 1, 45).

Natanael responde com ceticismo e ironia: “Pode vir algo de bom precisamente dessa periferia, dessa terra impura, de um vilarejo desconhecido da Galileia dos gentios?” (cf. Jo 1,46). Filipe rebate: “Venha e veja! Venha e experimente” (cf. ibid.), eco das palavras dirigidas por Jesus aos dois primeiros discípulos.

De fato, esses são os passos constitutivos da fé: vir ao encontro de Jesus, experimentar e conhecer a sua morada e, enfim, encontrar morada nele. E, enquanto Natanael vai ao encontro de Jesus junto com Filipe, eis que o próprio Jesus mostra, na realidade, que ele o precede no seu itinerário. Ele não afasta quem se aproxima dele (cf. Jo 6,37), apesar das suas perplexidades, mas descreve Natanael como um filho de Israel de verdade, sem falsidade, sem duplicidade (cf. Jo 1,47).

Surpreso com essa afirmação, Natanael faz uma pergunta a Jesus: “De onde (póthen) você me conhece?” (Jo 1,48). Ou seja, de onde você obteve o conhecimento da minha pessoa? Jesus não lhe responde diretamente, mas lhe assegura que o viu e o escolheu antes de qualquer decisão dele de ir ao seu encontro.

Por fim, segue-se uma confissão de fé plena: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (Jo 1,49). Natanael, especialista nas Escrituras, filho de Israel autêntico, confessa imediatamente o senhorio de Jesus, servindo-se de títulos que expressarão a fé da Igreja na paixão e na ressurreição do Senhor.

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