Jesus está sempre no meio dos pecadores

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08 Janeiro 2021

Publicamos aqui o comentário de Enzo Bianchi, monge italiano fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste domingo, festa do Batismo do Senhor, 10 de janeiro de 2021 (Marcos 1,7-11). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Com a festa do batismo de Jesus, conclui-se o tempo litúrgico das manifestações, das epifanias do Senhor. Nascido de Maria em Belém, Jesus foi manifestado aos pastores como o Salvador e Senhor, foi manifestado no templo aos pobres de Israel que esperavam o Messias, finalmente foi manifestado aos povos da terra, representados pelos magos, como Rei dos Judeus. Agora, imerso nas águas do Jordão, é manifestado como o Filho amado por Deus, que faz ressoar sobre ele a sua palavra reveladora.

O Evangelho segundo Marcos começa precisamente com o anúncio, por parte de João Batista, da entrada em cena de Jesus: “Vem atrás de mim (opíso mou) alguém que é mais forte do que eu”. O anúncio é surpreendente e escandaloso: entre aqueles que seguem o Batista como discípulos, há um discípulo que, na realidade, é mais forte do que ele, o mestre, o profeta. Entre João e este que vem há até uma relação que não pode nem ser comparada àquela entre um servo e o senhor, do qual aquele desamarra os cadarços das sandálias.

O Batista reconhece e anuncia acima de tudo uma diferença nas respectivas missões: ele imerge na água aqueles que confessam os próprios pecados, mostrando-se dispostos a se converter; Jesus, em vez disso, imergirá no Espírito Santo, na própria força de Deus, inaugurando assim os tempos da salvação definitiva, realizada mediante a efusão do Espírito sobre toda a humanidade (cf. Is 32,15; Ez 36,25-27 etc.).

Eis que aparece o Messias, “ungido” com o Espírito Santo (cf. Is 11,2; 61,1), não com uma unção humana: Jesus, de Nazaré da Galileia. Mas como ele aparece, como vem? Sendo o Cristo, o Filho de Deus, esperaríamos uma vinda carregada de glória, uma manifestação imponente. Ao invés disso, estamos na presença de uma cena na qual não se evidencia nada de divino. Na longa fila de homens e mulheres que se confessam pecadores e necessitados da purificação e do perdão de Deus, está também Jesus. Ele, que é “sem pecado” (cf. 2Co 5,21; 1Jo 3,5), se faz solidário com aqueles que estão em contradição com Deus e com a sua vontade, não se distingue deles ostentando como diferença a sua própria santidade.

Não, sem exibições, sem protagonismo, ele pede a João para ser imerso nas águas do Jordão como os outros penitentes. Mas, para Jesus, o batismo recebido não coincide com a purificação dos pecados, mas sim com o início de uma missão específica de comunhão com os últimos, com os pecadores públicos.

Jesus, cujo nome significa “o Senhor salva”, caracteriza-se pela sua proveniência de Nazaré, vilarejo da sua família e da sua infância, local desconhecido em todo o Antigo Testamento. Por isso, será chamado “nazareno”, “o de Nazaré”, “o profeta de Nazaré” (cf. Mc 1,24; 10,47; 14,67; 16,6). Sim, Jesus de Nazaré é um nome humano, humaníssimo, e talvez seja por isso que, no último século, dentro da espiritualidade cristã e não só, ele goza de uma sorte privilegiada em comparação com os seus outros títulos ou designações: isto não significa desconhecer a sua divindade, mas responde à necessidade de afirmar a sua humanidade, que é, acima de tudo, solidariedade conosco, homens e mulheres.

E eis que aquele que foi anunciado como alguém que batiza é agora batizado, imerso por João. É preciso dizer com clareza: João imerge Jesus no Jordão, o afunda nas águas, de modo que Jesus é como que imerso na morte, afogado e depois reerguido, arrancado do vórtice que submerge. É assim que Jesus desce, chega ao “très bas”, o último lugar que nunca lhe será tirado! Não podemos esquecer que essa primeira manifestação pública de Jesus pareceu escandalosa aos primeiros cristãos, que, aclamando-o na fé como Kýrios, Senhor, temiam que, nesse evento, ele fosse percebido como alguém inferior ao Batista. Assim, progressivamente, não se lembrará mais do fato de que foi João quem imergiu Jesus (como se ele mesmo tivesse se autoimergido!).

Não por acaso, no Evangelho segundo Mateus, o próprio Jesus é apresentado como aquele que deve convencer o Batista a imergi-lo, vencendo a sua relutância: “Por enquanto deixe como está! Porque devemos cumprir toda a justiça” (Mt 3,15).

Em vez disso, precisamente nessa condição “baixa”, ocorre para Jesus uma manifestação de Deus, uma teofania. Ao sair da água, ele vê os céus rasgados, e o Espírito descendo sobre ele como uma pomba. Ele vê aquilo que os outros não veem, recebe uma revelação que permanece oculta aos outros. Os céus estão rasgados sobre ele, Jesus tem plena comunhão com Deus, a terra e o céu estão em comunicação. A comunhão entre Deus e a humanidade é restabelecida depois que, segundo a tradição judaica, os céus haviam se fechado com o fim da profecia pós-exílica (século V). E é precisamente nesses céus abertos que Jesus vê o Espírito de Deus – o Espírito que tantas vezes descera sobre os profetas, o Espírito que constituía a unção do Servo-Profeta anunciado por Isaías (cf. Is 61,1) – descer sobre ele como uma pomba.

A invocação tantas vezes elevada a Deus pelos fiéis de Israel: “Se tu rasgasses os céus e descesses!” (Is 63,19) é finalmente atendida, e aqui tal cumprimento nos é narrado em primeiro lugar mediante a imagem do voo doce e pacífico de uma pomba. Além disso, precisamente naquela página de Isaías lemos: “Onde está aquele (Deus) que fez sair do mar o futuro pastor do seu rebanho? Onde está aquele que pôs nele o seu santo espírito?” (Is 63,11).

É por isso que Jesus recebe o Espírito no momento em que sai da água. O Espírito que desce sobre ele é esse mesmo Sopro que flutuava, que pairava como uma pomba, sobre as águas da primeira criação (cf. Gn 1,2), e agora desce em Jesus (eis autón), que se torna a Morada, a Shekinah de Deus.

A tentativa de narrar o evento, a ação de Deus, por meio da imagem da pomba, é acompanhada pela palavra pronunciada pela voz que vem do céu: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho meu bem-querer”. Depois de ver, Jesus escuta uma voz (la bat qol, “filha de uma voz”, segundo os rabinos) que lhe diz acima de tudo: “Tu és o meu Filho, o amado”. É a palavra que revela a Jesus a sua identidade mais profunda, palavra que Jesus terá que interiorizar na sua vida humana para responder plenamente à sua vocação, à sua missão, mas, antes ainda, à sua verdade.

Nessa declaração de Deus, que chega a Jesus por meio do Espírito Santo, há o eco de inúmeras declarações de Deus atestadas nas Escrituras de Israel: “Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei” (Sl 2,7); “Eu serei para ele um pai, e ele será um filho para mim” (2Sm 7,14)...

Essa voz implica a paternidade de Deus sobre Jesus e especifica que ele é o único Filho, o Filho amado, como Isaac era para o seu pai, Abraão (cf. Gn 22,2). Um Filho que, porém, ao contrário de Isaac, não será poupado do sacrifício, porque – como dirá Jesus – os pérfidos vinhateiros, ao verem o Filho amado, não o pouparão, como o Pai esperava, mas o matarão e o jogarão fora da vinha (cf. Mc 12,6-8). Eis, portanto, o Filho amado de quem o Pai se compraz, porque é como o Servo no qual ele pôs o seu Espírito (cf. Is 42,1), o Servo eleito, escolhido, mas rejeitado...

Essa primeira cena da vida de Jesus no Evangelho segundo Marcos é posta significativamente em inclusão com o batismo último e definitivo, que Jesus conhecerá como cumprimento da sua missão. Não por acaso, ele interrogará os discípulos Tiago e João perguntando-lhes: “Vocês podem ser imersos na imersão em que eu estou imerso?” (Mc 10,38).

A imersão nas águas da morte, da rejeição e da traição, Jesus a viverá na sua paixão, que será a sua epifania na cruz: Jesus crucificado entre dois pecadores, em plena solidariedade com nós, humanos, assim como iniciara o seu ministério. Então, quando os céus parecem fechados, enquanto ele expira, o véu do templo se rasga (cf. Mc 15,38), porque o Santo dos santos, o lugar da presença de Deus sobre a terra, do diálogo definitivo entre terra e céu, é precisamente ele, Jesus .O véu rasgado é o sinal de que cada ser humano pode ter comunhão com Deus por meio do corpo de Jesus, corpo que doa o Espírito e a vida.

Nesta festa do batismo, nós, discípulos e discípulas de Jesus, somos levados a considerar o nosso batismo não apenas como um evento que marca o início da vida cristã, mas também como uma dinâmica cotidiana que nos pede, no seguimento de Jesus, que morramos a nós mesmos e vivamos do seu Espírito.

Cada um de nós, graças ao Espírito Santo derramado nos nossos corações, Espírito com o qual fomos “ungidos” e tornados cristãos, ou seja, “messiânicos”, já pode se dirigir a Deus balbuciando: “Abbá, Pai” (Rm 8,15; Gl 4,6) e se sentir amado por ele. E Deus tem uma única palavra como resposta aos nossos gemidos e à nossa invocação: “Tu és amado, amada”. É essa palavra que nos sustenta e nos faz caminhar com esperança para a imersão da morte.

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