O momento de pagar a dívida ecológica

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29 Setembro 2020

“Hoje, o mundo volta a decidir entre o fascismo e a revolução ou, como dizia o velho ditado, entre a barbárie e o socialismo. Um socialismo renovado, nem desenvolvimentista, nem autoritário, nem antropocêntrico, que não gira em torno do trabalho assalariado, que combina a socialização da propriedade e da riqueza com modos de vida mais frugais e sustentáveis, centrados no cuidado, que garante os direitos fundamentais e a participação política em nível planetário”, escreve Adrià Rodríguez, “filho” do 15M espanhol, artesão da comunicação, ativista climático e pelo direito à cidade, em artigo publicado por El Salto, 28-09-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Wall Street é uma forma de organizar a natureza - Jason W. Moore

Em 1896, o físico e químico sueco Svante Arrhenius publicou um importante artigo científico em que alertava para a correlação entre o aumento do CO2 atmosférico e o aumento da temperatura do planeta. Arrhenius se referia especialmente à atividade dos vulcões e na época ninguém pensava que as fábricas de Manchester, consideradas por Alexis de Tocqueville “canos sujos dos quais fluía ouro puro”, poderiam estar gerando o mesmo efeito.

No entanto, como escreveu Arrhenius, a indústria, as máquinas e os meios de transporte movidos a combustíveis fósseis como o carvão já começavam, pouco a pouco, a preencher a atmosfera da Terra, embora suas consequências ainda demorariam décadas para se tornarem evidentes.

Durante séculos, a civilização fundada em combustíveis fósseis vem retirando carbono da terra e bombeando para a atmosfera, preenchendo-a pouco a pouco. Em poucos anos, estamos queimando os fósseis que se formaram nos últimos 440 milhões de anos. O capitalismo é uma força geológica e é por isso que alguns estão começando a falar da era do capitaloceno.

Recordo-me que, há anos, as previsões sobre a então chamada mudança climática apontavam datas distantes: 2050, 2100. “Não estarei mais vivo para ver isso”, muitos diziam. Mas de repente, em junho de 2019, uma imagem abalou o mundo, com certeza você irá se lembrar: a imagem de um trenó na Groenlândia surfando em um lago de água. Até então as evidências da crise climática eram pouco visíveis, mas em 2019 vimos como se derretia sob os nossos pés o solo sobre o qual a sociedade capitalista se sustenta. O futuro está aqui, batendo à porta. Chegou o momento de começar a pagar a dívida ecológica.

O conceito de Custo Social do Carbono avalia os custos sociais e econômicos da emissão de mais uma tonelada de CO2 na atmosfera. Durante décadas, esse elemento foi ignorado porque a desestabilização climática ainda não era suficientemente evidente. Hoje é inevitável. Aqui, a lógica de crescimento do próprio capitalismo se choca consigo mesma. O investimento de hoje é a crise do amanhã, o emprego predatório de recursos hoje é uma aposta segura no desemprego do amanhã.

Cada tonelada de CO2 emitida por um metabolismo insustentável gerará amanhã precariedade, desemprego, inundações, incêndios de sexta geração e eventos climáticos extremos, perdas de milhões de dólares, destruição de infraestrutura e ativos financeiros, escassez de recursos básicos, pragas e pandemias. O crescimento de hoje é, em definitivo, a crise do amanhã. Pela primeira vez na história vivemos inseridos no imediatismo.

O capitalismo sempre delegou ao futuro os custos ecológicos de sua própria lógica de acumulação. Hoje, os custos já são mais do que evidentes, por isso o capital procura postergar o pagamento desta dívida, mas, neste caso, como esgotou o fator tempo, porque se tornou imediato, procura postergá-lo no espaço.

A nova corrida espacial nada mais é do que uma forma de refinanciar essa dívida que já começa a ser paga. Algumas das pessoas mais ricas do planeta, como Jeff Bezos e Elon Musk, estão empenhadas neste empreendimento. Embora seja verdade que enquanto apontam para o céu, constroem paraísos na Terra, mansões em forma de bunkers em lugares como a Nova Zelândia, para se protegerem dos resultados de suas próprias ações. Não devem estar tão convencidos de sua particular utopia.

O decrescimento foi muito criticado, em parte porque foi interpretado como uma simples redução do PIB. Decrescimento é a redução do fluxo global de energia e recursos e é um horizonte inevitável, não apenas como uma opção política, mas como realidade material, entrópica, do capitalismo. O decrescimento será sim ou sim. Mas será caótico, injusto e violento, como estamos começando a experimentar com esta pandemia ou com as catástrofes climáticas na Califórnia, Ártico, Amazônia, Índia e Sudão. Ou será ordenado, justo e democrático.

Hoje, o mundo volta a decidir entre o fascismo e a revolução ou, como dizia o velho ditado, entre a barbárie e o socialismo. Um socialismo renovado, nem desenvolvimentista, nem autoritário, nem antropocêntrico, que não gira em torno do trabalho assalariado, que combina a socialização da propriedade e da riqueza com modos de vida mais frugais e sustentáveis, centrados no cuidado, que garante os direitos fundamentais e a participação política em nível planetário. Um socialismo que, como disse [Jorge] Riechmann, “só pode chegar de bicicleta”.

Alexis de Tocqueville disse que “estamos dormindo sobre um vulcão” para fazer referência às tumultuosas forças revolucionárias de 1848 que, segundo ele, poderiam minar a ordem liberal. Hoje, o vulcão que está minando toda a ordem, inclusive a liberal, é o vulcão Arrhenius, uma máquina de cuspir “sangue, lama e CO2” e que está desestabilizando o clima à beira da sexta extinção em massa. Para acalmar este vulcão pode ser que se requeira, mais uma vez, uma revolução.

 

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