Governo de puxadinhos

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02 Setembro 2020

"O puxadinho e o jeitinho – diminutivos tão familiares aos cidadãos brasileiros – são parentes muito próximos: caminham de mãos dadas, um ao lado do outro. Ambos, de resto, se orientam menos pela legislação em vigor (Constituição Brasileira de 1988), do que pelas circunstâncias conjunturais", escreve Alfredo J. Gonçalves, padre carlista, assessor das Pastorais Sociais e vice-presidente do SPM – São Paulo.

Eis o artigo.

À medida que o mandato avança, torna-se cada vez mais evidente que o presidente Jair Messias Bolsonaro vem transformando sua administração num verdadeiro “governo de puxadinhos”. Num primeiro momento, a tropa de choque do clã bolsonarista tentou o confronto direto com os poderes Judiciário e Legislativo, e mesmo com alguns governadores. Fez isso tanto através das redes sociais quanto nas manifestações públicas no cercadinho do palácio do Planalto. Tratava-se de desqualificar, com todas as armas possíveis, as demais instituições do regime democrático e, ao mesmo tempo, distorcer as notícias dos meios de comunicação social. Isso sem falar do retrógado e obscurantista negacionismo, temperado de forte ojeriza contra a ciência, a academia, a pesquisa, a arte e tudo o que cheira a um saber sólido e racional. Ao contrário, em lugar de argumentos, prevalecem os ataques, as ofensas e as difamações mais estapafúrdias.

Diante da resistência encontrada nos poderes constituídos, na mídia e na opinião pública, o capitão resolveu mudar de tática. Ao invés dos encontros frontais, melhor buscar atalhos. Trata-se agora de tentar o “namoro” (metáfora tão cara ao presidente) com as mesmas instituições, vistas antes como barreiras à sua ação política. Por um lado, esse namoro levado adiante nas salas, gabinetes e corredores do Congresso Nacional, passa pela prática do “balcão de negócios da velha política”, na tentativa de semear e colher frutos no chamado “centrão” – erva rasteira e raquítica, mas abundante no terreno do oportunismo. Passa também pela relação “paz e amor”, que busca uma aproximação com o Dep. Rodrigo Maia e com o Sen. David Alcolumbre, presidentes respectivamente da Assembleia Legislativa e do Senado Federal.

Por outro lado, quando o namoro não é bem-sucedido, entra em cena um rígido processo de “vigilância e controle”. Uma espécie de reciclagem e atualização dos métodos, instrumentos e mecanismos utilizados pelos protagonistas da ditadura militar. Essa prática ganha relevância sobretudo quando está em jogo a obsessão de Bolsonaro (entre outros expoentes da extrema-direita mundial) por informações que garantam a blindagem do clã familiar ou a proteção de amigos, seguidores e partidários contra os processos judiciais que pesam sobre boa parte do bolsonarismo. Neste caso concreto, a arma mais eficaz é vigiar de perto os projetos, atuações e passos de cada opositor. Melhor prevenir que remediar!

E a meta é converter em meros “puxadinhos do governo” instituições de peso ligadas sobretudo à área da segurança nacional, tais como a Agência Brasileira de Notícias (ABIN), Procuradoria Geral da República (PGR), o Ministério da Justiça (MJ) ou a própria Polícia Federal (PF). Disso resulta o surgimento inesperado do joio em meio à plantação de trigo, para usar uma linguagem evangélica (Mt 13, 24-30). Onde está o joio? De um lado, na atuação clandestina do “gabinete do ódio”, como oficina e veículo de divulgação de fake news; de outro, no famigerado relatório do MJ sobre os supostos “antifascistas”, o que não deixa de ser uma forma tosca, indireta e às avessas de confessar a própria ideologia política. Ideias e métodos que, diga-se de passagem, pertencem hoje ao lixo mais execrado da história.

O puxadinho e o jeitinho – diminutivos tão familiares aos cidadãos brasileiros – são parentes muito próximos: caminham de mãos dadas, um ao lado do outro. Ambos, de resto, se orientam menos pela legislação em vigor (Constituição Brasileira de 1988), do que pelas circunstâncias conjunturais. O então, o que parece mais comum e mais grave, pelo humor do chefe de plantão. Tanto um quanto o outro, simbolizam uma espécie de extensão da casa ou da lei, no sentido de abrigar familiares, parentes, amigos e companheiros que, de outro modo, teriam que responder judicialmente por seus erros, abusos e crimes. O que, no fim da linha, desemboca na torrente de impunidades de grande parte dos corruptos, dos prevaricadores, dos que não hesitam em mentir para inflar promessas ou desvirtuar fatos e, de um modo geral, da safra de maus políticos. Como dizia Nicolau Maquiavel, “aos amigos, os favores; aos inimigos, a lei”.

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