Relatório do Ministério da Justiça sobre antifascistas

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25 Agosto 2020

"Mais do que um combate a um inimigo real, trata-se de criar artificialmente, e difundir repetidamente, o medo de fantasmas, no sentido de legitimar o ódio e a difamação, o autoritarismo e a intolerância", escreve Alfredo J. Gonçalves, cs, padre, vice-presidente do SPM.

Parece coisa da ficção ou do 007: o Ministério da Justiça do governo brasileiro cria um tal de “relatório sobre servidores antifascistas” (lista, dossiê!). Seria boa matéria para a extensa obra A comédia humana, do escritor francês Honoré de Balzac. Para começar, uma administração que leva adiante semelhante iniciativa, explícita ou implicitamente, confessa o próprio pensamento de caráter fascista. Linha de pensamento que, entrelaçada com o integralismo de Plínio Salgado, o Estado Novo, de Getúlio Vargas, e a ditadura militar, traz à tona e tenta reciclar o que há de pior e de mais retrógrado na história recente do país.

Esse fio condutor procura alinhavar a década de 1930 com o regime de exceção de 1964 a 1985, desfraldando a bandeira da “Terra, Família e Propriedade”. Move-se em meio a trevas sombrias de um anticomunismo ultrapassado, que só assusta os iletrados contumazes. O mesmo vale para o famigerado lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Mais do que um combate a um inimigo real, trata-se de criar artificialmente, e difundir repetidamente, o medo de fantasmas, no sentido de legitimar o ódio e a difamação, o autoritarismo e a intolerância. Daí a manutenção de um pano de fundo onde predominam, de maneira igualmente artificial, a falta de transparência, a mentira travestida de notícia, associadas a uma confusão turbulenta, combativa e acintosa. A fumaça impede avaliar a proporção efetiva do incêndio.

Evidente que, onde os contornos são nebulosos e os fatos se misturam aos boatos, a penumbra substitui a luz do sol, criando um terreno fértil para o desfile de fantasmas. A noite costuma ser propícia às mais exóticas fantasmagorias. A face desfigurada desses espectros, rondando as casas e propriedades das pessoas de bem (e sobretudo de “bens”), torna-se um dos ingredientes indispensável para o fortalecimento da extrema direita, tanto em certos países da Europa, quanto nos Estados Unidos e no Brasil. Tais fantasmas adquirem características bem precisas, de acordo com os interesses pessoais, familiares, corporativos ou partidários de tiranos e ditadores. Nos relatórios sobre os antifascistas (lista ou dossiê!), isolada ou conjuntamente, podem ser classificados, como “vírus chinês, comunistas de esquerda, imigrantes e refugiados mesclados com terroristas, servidores que se opõem ao governo, jornalistas e intelectuais, cientistas e ambientalistas, artistas, ativistas”, enfim, todo aquele que ousa pensar, refletir e que, por isso mesmo, é capaz de formar um juízo crítico alternativo.

Os fantasmas nascem, crescem e se multiplicam, de modo particular, no decorrer das campanhas eleitorais. A busca da vitória nas urnas exige, entre outras coisas, a desqualificação do oponente. Na impossibilidade de confrontá-lo com argumentos racionais, devido à pobreza intelectual, apela-se para a fábrica de mentiras. O objetivo é transformar o adversário em inimigo – seja de Deus, da nação, do povo ou do bem... Por isso deve ser abatido a qualquer custo. Vencido o pleito, a fábrica de mentiras se converte em “gabinete do ódio”. Não é novidade, afinal, que os espectros são capazes de se metamorfosear, o que exige uma instância governamental para vigiar e controlar seus passos (ou voos, quem sabe!), suas palavras e escritos, suas posições políticas. Numa palavra, todo regime autoritário precisa ter à mão um “bode expiatório” para sacrificar no momento exato. Sobre ele joga-se a culpa por qualquer tipo de desordem social e política. Isso requer nutri-lo com requintes de crueldade.

Disso resulta que a prática policiesca da campanha tende a perpetuar-se durante o exercício do poder. O que vale especialmente para os mandatos passíveis de reeleição. É o que tentam Trump nos Estados Unidos e Bolsonaro no Brasil, com tempos diferenciados, mas com instrumentos e mecanismos semelhantes. Explica-se, dessa maneira, a obsessão de ambos pelo rígido controle das informações, venham elas através do FBI, da ABIN, da Polícia Federal ou, quem sabe, dos relatórios do Ministério da Justiça. O que importa é conhecer de antemão o que pensam, fazem e escrevem os opositores. Em cada um deles esconde-se um fantasma inimigo!

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