Sócrates e Jesus de novo sob processo

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31 Julho 2020

"Se tivéssemos ouvido mais atentamente Nietzsche, seríamos mais relutantes em acusar os dois maiores condenados da história do mundo - Sócrates e Jesus - de novos crimes", escreve David L. Dusenbury, professor do Centro para o Estudos do Cristianismo da Universidade Hebraica de Jerusalém, em artigo publicado por La Lettura, 19-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Dusenbury é autor do livro "The Innocence of Pontius Pilate. How the Roman trial os Jesus shaped history" (A Inocência de Pôncio Pilatos. Como o julgamento romano de Jesus moldou a história). 

Eis o artigo.

Como se sabe, Friedrich Nietzsche assinou suas últimas cartas como "o Anticristo" (para Cosima Wagner) e "o Crucificado" (ao cardeal Rampolla, secretário de Estado do Vaticano). É difícil isolar a causa do último colapso de Nietzsche, mas sua mente cedeu definitivamente em dezembro de 1888. Já em janeiro de 1889 estava em um estado catatônico do qual não mais emergiria.

Uma década antes de começar a assinar suas cartas como "O Crucificado", Nietzsche escreveu um parágrafo de Humano, demasiado humano, intitulado "Assassínios Judiciais" (Justizmorde). Nessa passagem, ele observa uma notável semelhança entre o que ele chama de "os maiores assassinatos judiciais da história do mundo", com o que ele se refere à morte de Sócrates e Jesus. "Em ambos os casos", diz ele, "quiseram morrer". E, em ambos os casos, foi feito com que "a mão da injustiça humana lhes introduzisse a espada no peito". No final do século XIX, as mortes de Sócrates e Jesus constituem para Nietzsche as penas capitais mais simbolicamente carregadas na história. Isso permanece válido ainda hoje, no início do século XXI.

Diferentemente da maioria dos comentaristas de Sócrates e Jesus, Nietzsche fica intrigado com um traço psicológico que, afirma, pode ser encontrado em ambos. Ele afirma que Sócrates e Jesus tenham dramatizado suas mortes. Por fim, o cálice envenenado de Sócrates e a cruz de Jesus não são penas sentenciadas pelo tribunal, mas epílogos autoinfligidos.

Qualquer moral que os europeus tenham tirados dessas mortes, afirma Nietzsche, eles não a tiraram de dois mártires, mas de dois suicídios. O imaginário europeu está, portanto, à mercê daquelas mortes encenadas de acordo com o roteiro ditado pelas pulsões tanatológicas dos suicídios mais inspirados da história, aquele do "maior dialético das ruas de Atenas" (como Nietzsche, com um sorriso irônico, chama Sócrates, em Humano, demasiado humano), e aquele do "homem mais nobre" (como ele, de maneira totalmente desarmante e sem ironia, refere-se a Jesus no mesmo livro). Ninguém que tenha lido as obras de Nietzsche ficará chocado.

À primeira vista, a reflexão nietzschiana sobre o assassinato judiciário se transforma em uma reflexão sobre o suicídio. Ao mesmo tempo, Nietzsche persiste em querer atribuir as mortes de Sócrates e Jesus à "mão da injustiça humana [Ungerechtigkeit]". Os ordálios legais que são comemorados nas aulas e nas igrejas europeias, e interpretados por filósofos e teólogos, são suicídios secretos. No entanto, como Nietzsche parece insistir em argumentar, o tribunal de quinhentos juízes-cidadãos que condenaram Sócrates (quase metade dos quais eram a favor da absolvição) e o juiz romano que condenou Jesus (depois de tentar libertá-lo) não são inocentes.

Os antigos suicídios que a cultura europeia santifica como martírios não são simplesmente suicídios. As mortes históricas de Sócrates e Jesus permanecem, para Nietzsche, assassinatos judiciais. Isto é interessante. Nietzsche é um dos poucos filósofos modernos (Søren Kierkegaard é outro) a refletir sobre o fato de que a cultura europeia foi inaugurada, mesmo que apenas simbolicamente, por esses dois processos. (Embora também existam importantes tradições judaicas e islâmicas sobre esses processos e essas mortes). George Steiner escreveu há mais de vinte anos que "por incrível que pareça, até agora nenhuma análise completa foi realizada sobre esses temas centrais". Até onde eu sei, isso ainda é verdade.

O reconhecimento de Nietzsche da "injustiça humana" que encerra os dois processos parece sugerir que, em sua opinião - o aviso de um crítico frenético da herança platônico-cristã -, a cultura europeia é inaugurada por um par de ordálios legais em que pessoas inocentes são condenadas. Não pode deixar de ter efeitos profundos e generalizados na Europa que seu drama da verdade tenha começado não uma, mas duas vezes, com uma testemunha inocente em um tribunal - o significado grego de "mártir" - que é condenada à morte. O espelhamento desses eventos é acentuado pelo fato de que Sócrates, o protomártir da filosofia europeia, e Jesus, o protomártir da teologia cristã, são figuras liminares condenadas pelo mais alto crime político (a traição) e pelo mais alto crime religioso (a blasfêmia)

Sócrates nunca deixa de ser um problema para Nietzsche. Em um de seus livros de 1888, Crepúsculo dos Ídolos, ele reafirma a sua teoria inicial. "Sócrates quis morrer", escreve Nietzsche meses antes de seu colapso. "Não foi Atenas, mas ele próprio que se entregou o cálice de veneno". O Sócrates nietzschiano é um decadente, e a filosofia platônica é para ele uma tradição que anula a vida. Mas Nietzsche nunca assina suas cartas como o "Anti-Platão" ou o "Envenenado". Ele é "o Anticristo" e - como ele próprio se define, misteriosamente, durante as últimas horas de semi-lucidez - "o Crucificado".

Vamos nos deter apenas no significado que Nietzsche dá do legado de Jesus na história europeia. A primeira coisa a dizer é que Nietzsche é um filólogo de primeira linha. Sua psicologia é modelada pelos textos greco-romanos pré-cristãos (e anticristãos). Isso o impede de ver o cristianismo segundo o modelo estereotipado do Iluminismo: como a fé mais sangrenta da história humana (la plus sanguinaire, como dizia Voltaire). Além disso, isso impede Nietzsche de ler os Evangelhos como um drama sombriamente hierárquico ou patriarcal. Como os críticos pagãos do cristianismo nos primeiros séculos de nossa época - como Celso, que zombava da importância das mulheres nos evangelhos - Nietzsche reconhece que os evangelhos, nesse contexto, não representam nada disso.

Jesus é um "grande simbolista", escreve ele, e o "decadente mais interessante" na história. Jesus é uma figura de tolerância irracional e amor sem limite. No Anticristo, Nietzsche esboça sua morte da seguinte maneira: "Esse ‘feliz mensageiro’ morreu como viveu [...] A prática da vida é o que ele deixou como legado para os homens: sua compostura diante dos juízes, [...] sua compostura na cruz. Ele não resiste. [...] E ele ora, sofre, ama com eles, naqueles que o machucam”.

O amor sem limites é decadente - "contra a vida" - e o cristianismo é, para Nietzsche, uma "negação da vontade de vida transformada em religião". No entanto, quando Nietzsche vê pela primeira vez esse amor nas últimas horas de Jesus, este último se torna puro - divino, até. "Ele, na verdade, foi um homem divino", nos diz no Anticristo (através das palavras de um criminoso moribundo). Infelizmente, o Evangelho de Nietzsche morre com Jesus. Os evangelhos canônicos são algo completamente diferentes das "boas novas" de Jesus - embora também sejam o non pus ultra da decadência.

Aquilo a que os evangelhos "nos introduzem", escreve Nietzsche, é "um mundo que parece ter saído de um romance russo, no qual os rejeitados da sociedade, as doenças nervosas e uma ‘infantil’ idiotice parecem ter se encontrado". O “romance russo” evocado aqui é sem dúvida um daqueles de Fiódor Dostoiévski, desde que Nietzsche se deparou com um dos romances de Dostoiévski em Nice em 1887 (enquanto escrevia O Anticristo em 1888). Fascinado por seu contemporâneo ortodoxo, Nietzsche leu avidamente diversos romances de Dostoiévski, definindo Humilhados e Ofendidos como "um dos livros mais humanos já escritos" (um grande elogio, o que vem do autor de Humano, demasiado humano). Mas Nietzsche percebeu que a mentalidade cristã de Dostoiévski entraria logo em conflito com o que ele chamava de seu "instinto mais elementar".

E o que há nos Evangelhos - aquela coleção canônica de "romances russos" - que Nietzsche considera tão repugnante? Mais precisamente, o que há na política dos evangelhos que o aterroriza? É ele mesmo quem nos diz. "Não vamos subestimar o destino funesto que do cristianismo se insinuou até na política!", adverte aos europeus do século XIX. "Hoje ninguém mais tem coragem de se gabar de direitos particulares, direitos de supremacia [Herreschafts-Rechte]". Os efeitos políticos do cristianismo são prejudiciais à hierarquia, porque o cristão "é por profundo instinto um rebelde contra tudo que é privilegiado - ele vive, sempre luta por ‘direitos iguais’".

O que os evangelhos representam é uma fé cujos instintos mais elementares levam ao reconhecimento do doente, do pobre e do marginalizado. Para Nietzsche, esse é o legado do cristianismo na Europa. "O movimento cristão, como movimento europeu", escreve ele, "é desde o início um movimento coletivo de todos os tipos de elementos de rejeição e de descarte". O que ele mais detesta é o que chama de "tendência democrática dos instintos cristãos".

Pode haver mais de um bom motivo para prestar atenção a um dos inimigos mais resolutos do cristianismo, assim como para "transvalorizar" o cristianismo europeu para o século XXI. Nietzsche "o filólogo" tem certeza de que o cristianismo primitivo "não era ‘nacional’, não era condicionado pela raça [nicht rassebedingt]". Pelo contrário, ele encontra motivos para rir do fato de que o cristianismo "se dirigia para todo tipo de deserdados da vida".

Aquela tendência própria do século XXI de denunciar a herança cristã - e a herança platônico-cristã - como hierárquica, patriarcal e assim por diante, poderia não convencer em termos históricos. E poderia enfraquecer ainda mais uma tradição europeia cujo instinto mais elementar é - retomando a frase de Nietzsche - "lutar sempre por ‘direitos iguais’". Se tivéssemos ouvido mais atentamente Nietzsche, seríamos mais relutantes em acusar os dois maiores condenados da história do mundo - Sócrates e Jesus - de novos crimes.

O clássico

Durante sua atividade como filósofo, Friedrich Nietzsche (1844-1900) tratou em várias oportunidades de Sócrates e, sobretudo, de Jesus e do cristianismo. No mestre de Platão, o pensador alemão via o iniciador da decadência ocidental, devido à abordagem socrática que privilegia o raciocínio sobre os instintos vitais. Mas a sua polêmica mais violenta, expressa em particular no texto O Anticristo, escrito em 1888 e publicado em 1895, foi dirigida não contra a figura de Jesus, mas contra o cristianismo, no qual via uma religião dos fracos, fundada no rancor, votada à renúncia em relação à vida e à negação do corpo. Na sua opinião, pastores e sacerdotes constituem uma casta dedicada ao controle das consciências através do conceito de pecado, enquanto a visão igualitária inerente à doutrina cristã lhe parecia mentirosa e inatural, destinada a desembocar no fenômeno moderno do socialismo, ao qual ele se opunha enfaticamente.

 

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