Peru. Breve resumo da pandemia no começo do caminho

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09 Julho 2020

“Um fato histórico que merece nossa atenção é a solidão dos povos indígenas e do povo em geral, mesmo depois de suas lutas por terras e territórios, porque seus eventuais aliados, que chegaram das cidades com o objetivo de apoiá-los, os abandonaram pouco tempo depois. Foi a reciprocidade e a solidariedade entre pares e iguais e suas lutas para se defender que os permitiu resistir à dominação espanhola-republicada e se adaptar a ela, ao mesmo tempo. Se não fosse por isso, eles teriam desaparecido. Quando essa pandemia fizer parte do passado, seus princípios de organização social serão fundamentais para defender o planeta e criar opções de vida para além da busca pela riqueza empresarial e individual do capitalismo, apresentada como a encarnação da república, da democracia e da liberdade para que o povo não se dê conta do real”, escreve Rodrigo Montoya Rojas, antropólogo, professor da Universidad Nacional Mayor de San Marcos – Peru, em artigo publicado por La Mula, 06-07-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

Honra e glória para Santiago Manuin Valera: admirável dirigente do povo awajun, honrado, valente e digno. Recordo seu gesto em junho de 2009, na Curva do Diabo, próximo de Bagua, com os braços levantados, dizendo aos policiais que não disparassem, mas os policiais o colocaram à beira da morte, com uma rajada de tiros. Felizmente não morreu. Não era simplesmente um Apu ou dirigente de uma comunidade nativa, mas sim mais que isso, era um Pamuk, a mais alta autoridade do povo Awajun. Não pode resistir ao coronavírus.

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Depois de três meses e meio – 105 dias de quarentena, toque de recolher e emergência nacional – o coronavírus dirigiu um dos seus incêndios aos ônibus e micro-ônibus de Lima, depois de passar por mercados, bancos e ruas com vendedores ambulantes.

Corre o governo para tentar apagá-lo com toda a água possível, mas também com uma boa dose de gasolina, pela autorização a todo mundo sair de casa, pela falta de ônibus e pela receita de emergência para que os ônibus levem apenas metade dos passageiros sentados.

A maravilhosa paz artificial das ruas e praias de Lima – cheias de silêncio, tranquilidade e gaviotas – foi destruída em menos de três dias. Antes de o presidente Vizcarra, foram os vizinhos que se mobilizaram, os transportadores de ocasião e o ministro da Defesa que anunciaram o fim da quarentena e a volta à “normalidade”, como 105 dias atrás.

As palavras vazias, uma “nova” ou “outra” “normalidade” servem apenas para que quem as use, engane-se e façam aqueles que as leem ou as escutam acreditar que “nada será como antes”. Esta crise do transporte em Lima vem de longe; entre muitos, citarei somente dois momentos: para beneficiar a indústria automotiva, apresentada como moderna, os operadores do capitalismo, decidiram acabar com os bondes, o melhor sistema público de transporte da história de Lima; 30 anos mais tarde, Fujimori e seus aliados militares abriram as ruas de Lima aos micro-ônibus, separaram Lima de Callao como espaços urbanos independentes, e autorizaram a importação de veículos japoneses e coreanos de segunda mão. Estes dois fatos são parte de um capítulo pouco conhecido da corrupção. Congressistas e afiliados dos partidos Ação Popular, Popular Cristão, Força Popular e os jornalistas do pensamento único, deveriam conhecer ou recordar para tratar de curar a amnésia senil que os devora. O crescimento demográfico de Lima foi e segue sendo o outro lado da tragédia do transporte urbano em Lima e em todo o país.

O governo deveria ter advertido do incêndio que se preparava no transporte e poderia fazer um esforço para colocar nas ruas os ônibus escolares, militares, policiais e do serviço interdistrital e provincial, para aumentar o número de ônibus que se precisa para levar a metade de passageiros habituais em cada viagem. O mesmo ocorreu com a falta de camas nos serviços hospitalares e de espaços para montar hospitais de campanha. A aparentemente generosa Igreja Católica, os ministros de Educação, reitores de universidades e donos de colégios particulares não ofereceram suas salas de aulas e pátios das suas centenas de colégios para instalar hospitais de emergência. Já o governo deixou sem uso o grande prédio de convenções em San Borja e preferiu usar para possíveis emergências a periferia em Villa El Salvador, com os apartamentos vazios, que foram construídos para os jogos Pan-Americanos. Hoje seguimos vendo o doloroso espetáculo de pacientes que depois de muitas horas de espera morrem nos corredores dos hospitais, com o frio do inverno limenho que aumenta a pneumonia.

Estamos em uma parte do caminho da pandemia, em uma primeira curva descendente e por um momento abaixo da R-1, esse terrível indicador do número de infectados por cada um dos infectados. Somente quando atingirmos o R-0 a epidemia será derrotada. Não sabemos quantos danos mais esse vírus pode causar, nem quanto tempo durará; consequentemente, não há como cantar vitória, em qualquer lugar.

O governo concentrou a maior parte de sua atenção no esforço de multiplicar leitos hospitalares e unidades de terapia intensiva (UTI), sacrificando atendimento médico em casa ou pré-hospitalar, deixando de atender em um ou dois hospitais públicos pacientes com doenças não relacionadas ao coronavírus. Esta é uma das fontes da subnotificação de falecidos apresentados oficialmente. Entre os que morreram como suspeitos de terem sido vítimas do vírus, devemos contar alguns que o tiveram e outros que não o tiveram. Também devemos contar aqueles que morreram de outras doenças não tratadas em hospitais. Portanto, a manchete “27 mil mortos” em revistas e jornais é uma irresponsabilidade das manchetes e dos diretores de mídia, porque uma soma como essa tem pelo menos dois componentes além do vírus.

Desconsiderar essa evidência da realidade esconde um desejo inconsciente ou consciente de contribuir com um pouco de água para a fábrica daqueles que desejam que o governo falhe e, talvez, até que caia como os anteriores. Pessoalmente, quero que o governo consiga conter a pandemia e evitar uma segunda onda que seria fatal por duas razões simples: a primeira é que eu gostaria que não houvesse mais vítimas dessa tragédia. Já basta: como sempre, os empresários se aproveitam das oportunidades de lucro que a crise lhes proporciona; do outro lado, todos os marginalizados da formalidade, os chamados informais e/ou pobres são mortos, perdem seus empregos e ficam mais pobres do que já eram. A segunda é que eu não quero ser uma vítima a mais. Tenho razões convincentes para continuar vivendo e outras para me opor inequivocamente à política que o governo segue para favorecer os empresários e sacrificar os pobres, como argumentei em meus artigos anteriores, neste e naqueles que virão.

Nesta breve visão geral, ainda no início do caminho, examinarei: 1) as opções do governo para ajudar empreendedores e pessoas de uma maneira extraordinariamente desigual; 2) as duas faces da lua chamadas solidariedade; 3) mais misérias para aprofundar o poço da vergonha; e 4) a presença das forças armadas e policiais. Muitos outros pontos permanecem, é claro.

 

1. Opções do governo para ajudar de forma extraordinariamente desigual a empresários, de um lado, e a povos indígenas, camponeses e setores populares urbanos de outro

Um mês após o início da quarentena, em meados de abril, o governo ofereceu 30 bilhões de soles (aproximadamente 8,5 bilhões de dólares na cotação atual) para ajudar as empresas; algumas semanas depois, 30 bilhões a mais. Em seguida, milhões e milhões mais se seguiram para impedir que as AFPs corressem o risco de perder seus ativos, para pequenas e médias empresas, para reavivar o turismo e, ultimamente, para as empresas de transporte interprovinciais. As companhias aéreas seguirão e mais algumas surpresas. A palavra subsídio já retornou, na íntegra, na linguagem oficial. O presidente e as autoridades estaduais reconhecem seu compromisso e atenção preferencial à chamada “economia formal” e sua rejeição à “economia informal”, que consideram responsável (pela atual crise econômica. Formal e informal são categorias do discurso cotidiano e não conceitos teóricos sólidos e cientificamente fundamentados. Um comportamento formal significa sério, respeitoso com o protocolo – padrão, etiqueta – socialmente considerado correto. Informal é o contrário. Vestir-se formal ou informalmente é uma opção para aparecer em uma reunião, por exemplo. Para que os acordos feitos em uma reunião sejam considerados compromissos, a reunião deve ser formal. Portanto, informal é o adjetivo reservado para aqueles que não cumprem um compromisso.

Por trás dessa linguagem coloquial se esconde a economia capitalista considerada séria, boa, ajustada às regras ou convenções sociais; virtudes que mais se destacam se for considerado que as chamadas informais não as receberão. O drama começa se for levado em consideração que antes da pandemia “70% da economia era informal” e que do Estado nunca havia uma vontade “formal” séria de formalizar o informal. Graças aos problemas para que os beneficiários escolhidos pudessem receber os auxílios de 760 soles, as autoridades estaduais descobriram que a financeirização da economia não chegava 40% e também quando viram que a ordem oficial de ficar em casa e ir ao mercado uma vez por semana era aplaudido nos bairros de classe média, mas não nas novas vilas. Funcionários e jornalistas da grande mídia também souberam que menos da metade da população tem uma geladeira e que aqueles que comem com o seu trabalho do dia a dia não têm dinheiro para fazer compras semanais ou mensais como os compradores compulsivos de papel higiênico.

A situação é ainda mais séria se levarmos em conta que o governo irresponsável e a mídia culpam os informais pela crise que o Peru está passando hoje, sem nunca ter perguntado por que os chamados informais foram excluídos dessa maravilhosa economia capitalista formal tão plena de aparentes virtudes.

Enquanto as empresas receberam, estão recebendo e continuarão a receber bilhões de soles de subsídios, empréstimos e ajuda, 50 ou 60% da população, que inclui grande parte das ligações informais, receberá da generosidade do governo – após estudos e cálculos sábios – um vínculo quase universal de 760 soles para cada uma das 6,2 milhões de famílias. Cada família pobre recebeu 7,60 soles por cada um dos 105 dias de quarentena (2,17 dólares) e apenas 1,52 soles por pessoa, pouco menos de meio dólar. Até hoje, 10% dos beneficiários não conseguiram receber esse auxílio. É uma piada de mau gosto? Não. Essa é a realidade bruta e brutal do Peru.

Essa crua realidade, coberta por muitos véus do poder, que reapareceu graças à maldade governamental dessa ajuda de 1,52 soles por dia durante três meses, foi visível em quatro eventos de grande importância simbólica: “Aqui termina Lima”, “Voltem a Lima, não lhes queremos aqui”, uma “bandeira branca” (“Nesta casa não temos o que comer”) e, finalmente, “Desapareçam, aqui os informais-ambulantes são indesejáveis”.

Aqui termina Lima” é a frase que condena a decisão dos jovens mais pobres de Lima de deixar a capital, a pé, primeiro para Huancavelica e depois para quase todo os Andes e parte da Amazônia. A falta de trabalho, a ordem militar de ficar em casa e a fome superavam seu desejo de ficar. É a renúncia simbólica do sonho de Lima como o ideal de uma cidade para viver, descrita em uma velha valsa, El Provinciano, de Laureano Martínez Smart: “As loucas ilusões me tiraram da minha cidade / saí de casa para ver a capital /, como me lembro o feliz dia da minha partida…”. Não direi mais nada, pois dediquei o artigo 2 da minha série sobre a pandemia a essa possível ruptura com o passado.

Volte para Lima, não queremos você aqui” é a frase com a qual as comunidades e as cidades recebem seus próprios parentes e dezenas de milhares de migrantes que retornam à terra onde nasceram, em busca da casa da família, um prato de comida, a paisagem, parte do seu passado. Eles fugiram do vírus e da pobreza brutal em Lima, e, por serem portadores reais ou potenciais do mesmo vírus, eles devem sair. Duas tragédias em uma: por sair e por tentar retornar; Lima no centro dessas tragédias. Na decisão de forçá-los a retornar a Lima, a vontade de sobreviver ao vírus superou a tradição da comunidade ayllu de receber seus entes queridos com algumas folhas de coca e o abraço amoroso de uma vida. Voltarei a explorar essa dupla tragédia em outro artigo.

Diante da ladainha oficial do “Fique em casa”, aqueles que não a possuem ou tentam levantá-la nos morros e bancos de areia – entre papelão, plástico e chapas de madeira compensada – e não têm o trabalho para o dia a dia, apelaram a mostrar uma “Bandeira branca” com a mensagem simples: “nesta casa não temos nada para comer”. Não há nada para explicar. É um tapa na cara dos responsáveis e beneficiários do “desenvolvimento econômico” sustentado do Peru nos últimos 30 anos. Na simplicidade de sua mensagem, essa bandeirinha é uma confissão de não poder fazer mais nada e, ao colocá-la, você está aceitando a vergonha de ter chegado a esse extremo. Não se trata apenas de falta de comida; no fundo, a dignidade de aceitar a vergonha está acima de tudo, a um custo emocional muito alto.

Finalmente, “Desapareça, aqui os informais-ambulantes são indesejáveis” foi a cordial saudação da Polícia a quem, durante a quarentena, ousava sair para as ruas de La Victoria, ao redor do empório comercial de Gamarra, com algumas malas e pacotes de mercadorias para conseguir alguns soles e alimentar as crianças. Conhecemos em Lima essa história da perseguição de vendedores ambulantes; a novidade agora é que, entre eles, havia e há comerciantes proibidos de abrir suas lojas. Cavalos, bombas de gás lacrimogêneo, prisões e requisição de mercadorias reapareceram como parte do antigo roteiro de abuso oficial-formal contra vendedores ambulantes informais. Mais do velho, nada de novo no trato aos peruanos considerados de última categoria.

Cada uma dessas tragédias e abusos sentidos e experimentados por nossos irmãos mais pobres no Peru deixam marcas indeléveis de dor, raiva e desejo de vingança. Quanto tempo leva para que uma conduta oficial como essa faça parte do passado? Quão útil seria para muitos psicanalistas e psicoterapeutas investigarem esses fatos e oferecerem soluções. Os curandeiros e xamãs entendem dessas questões e ajudam as vítimas a sofrer menos.

 

2. Solidariedade? Sim, por reciprocidade entre pares; não, por esmolas e compaixão

Os jornalistas da mídia foram descobrindo o Peru na rotina diária deste toque de recolher de quarentena. Uma das suas últimas descobertas foi a solidariedade, que, em geral, significa pouco ou nada, porque existem dois tipos muito diferentes de solidariedade: uma individual e a outra coletiva. Eles ficaram impressionados com a visível solidariedade na generosidade de um padre que em Iquitos teve a iniciativa de arrecadar fundos para obter uma usina de oxigênio; de um comerciante que continuou vendendo botijões de gás pelo mesmo preço de mercado e se recusou a quintuplicar esse valor; de um produtor de codornas que preferia entregá-las vivas antes que morressem de fome porque ele não tinha como apoiar sua pequena empresa; de um casal oferecendo almoço em uma vila para 40 pessoas que não tinham nada para comer. Certamente, há muitos outros casos como os que acabei de descrever.

Uma panela comum, preparada por grupos de pessoas vinculadas, ou não necessariamente, a um antigo restaurante popular, três ou quatro famílias que se reúnem para preparar um único almoço todos os dias com a contribuição de cada uma das unidades domésticas para economizar as despesas que envolveriam a preparação de quatro almoços separadamente; trocar almoços entre familiares (“hoje é a minha vez, amanhã você”), oferecer almoços para os idosos do bairro que não têm ninguém, etc. Os casos que acabei de mencionar são repetidos em novas vilas e bairros populares, ilustram a solidariedade coletiva entre pares que compartilham relações de parentesco que provêm de comunidades e/ou vilas de origem ou relações fraternas de vizinhança. Na base desse comportamento de solidariedade está o princípio da reciprocidade das comunidades nativas e andinas, dos pequenos clubes de migrantes de tal ou qual comunidade de tal ou qual província, de organizações de bairro em segmentos de assentamentos humanos nos morros e dunas de areias dos subúrbios de Lima. Se os jornalistas perguntassem a essas pessoas vinculadas por uma relação de parentesco e reciprocidade de onde eram, as respostas seriam muito simples: de uma vila ou comunidade. Existe nesse comportamento uma identidade coletiva, mais importante que a individual. Até então, o discurso ocidental e crioulo não atinge sua plenitude: nada de comunidades, apenas indivíduos e nada mais.

Cestas de alimentos que são distribuídas aos pobres por meio de iniciativas oficiais, particulares ou individuais, são oferecidas de cima para baixo, no espírito de compaixão das igrejas, quando os pobres sofrem catástrofes como terremotos, inundações, secas, epidemias e pandemias. A vergonha na distribuição de cestas de alimentos encomendadas pelo governo aos 196 prefeitos provinciais e 1874 distritais merece atenção e explicação especiais. O governo cometeu um erro grave ao confiar nos prefeitos como representantes do povo. Em grande parte dessas prefeituras, a representação é mais ficção do que realidade. Os partidos, como pequenas máquinas eleitorais, não representam. Aqueles com projetos pessoais claros vencem engajando em uma coalizão temporária um grupo de aliados individuais com seus próprios interesses pessoais. Qual era o sentido de dar esmolas de uma cesta de alimentos por três ou quatro dias a distritos remotos? Cada prefeito nomeou uma pessoa encarregada e uma comissão para comprar a comida, preparar as cestas e distribuí-las. Dessa maneira, pôs-se a mesa, ou a arca, onde os justos pecam, de acordo com a sabedoria da Igreja Católica. O gato chamado despenseiro! Com exceções óbvias, é claro.

Se o governo tivesse reunido suas propostas de ajuda (auxílio e cestas básicas) com a plena participação e organização dos povos, outros teriam sido os resultados. Já sabemos que do poder – de cima para baixo – há uma distância e desconfiança de tudo o que se assemelha a uma organização autônoma e básica, com seus próprios líderes escolhidos por eles e sem a intervenção de agentes da lei. O poder teme que “terroristas” e “inimigos da democracia” aninhem-se em cada organização de base. Daí a necessidade de controlar e monitorar.

Um fato histórico que merece nossa atenção é a solidão dos povos indígenas e do povo em geral, mesmo depois de suas lutas por terras e territórios, porque seus eventuais aliados, que chegaram das cidades com o objetivo de apoiá-los, os abandonaram pouco tempo depois. Foi a reciprocidade e a solidariedade entre pares e iguais e suas lutas para se defender que os permitiu resistir à dominação espanhola-republicada e se adaptar a ela ao mesmo tempo. Se não fosse por isso, eles teriam desaparecido. Quando essa pandemia fizer parte do passado, seus princípios de organização social serão fundamentais para defender o planeta e criar opções de vida para além da busca pela riqueza empresarial e individual do capitalismo, apresentada como a encarnação da república, da democracia e da liberdade, para que o povo não se dê conta do real.

 

3. Outras misérias em plena pandemia

Durante a quarentena, muitos abismos se abriram para ver o Peru em panos menores, com seus grandes trapos sujos cuidadosamente escondidos, e os pequenos, sempre visíveis. São muitos. Conformo-me com apresentar os casos das clínicas médicas, os comerciantes fiéis a sua necessidade de ganhar dinheiro sem escrúpulo algum, o vírus da corrupção em funcionários civis, policiais e militares, e a reaparição de ladrões com e sem gravata, de colarinho branco e grisalhos.

A Clínica San Pablo agora deve se chamar Clínica San Pablo Omeprazol 165. A evidência é esmagadora: ela cobrou 165 soles por um comprimido de omeprazol que custa 1 sol e algo em farmácias e 1 sol em hospitais públicos. Seus proprietários queriam aumentar o preço 165 vezes. Todas as clínicas particulares cobraram e estão cobrando preços astronômicos para receber pacientes com o coronavírus, 10 mil soles por dia, 50 mil a serem recebidos, até meio milhão ou mais durante todo o período de internação. Não entregar o corpo do falecido até que sua família pague a dívida foi a maior pérola da clínica San Pablo Omeprazol 165. Sabemos que o atendimento em clínicas particulares é muito caro. As novidades são cinco; 1) quão caro é isso; 2) A Superintendência Nacional de Saúde, que deveria exercer controle em defesa dos pacientes, só está pintada na parede; 3) que eles têm acordos com o Ministério da Saúde; 4) a surpresa das surpresas, as empresas deste medicamento privado teriam sido golpeadas com a pandemia e, portanto, deveriam receber a ajuda do governo; 5) finalmente, que o governo emprestou a várias das grandes clínicas, dezenas de milhões de soles como parte de seus planos de reanimar a economia. Se eles se beneficiaram e estão se beneficiando com a pandemia, por que pediram empréstimos e por que o governo os concedeu? Leitoras e leitores: este é o Peru! O que lhes parece?!

Para tentar entender o drama da saúde no Peru, temos o dever de introduzir algo fundamental na análise: antes das clínicas que atendem à saúde, as clínicas privadas são empresas capitalistas cujo objetivo é muito simples: ganhar dinheiro, crescer e ganhar mais dinheiro, até quanto o bolso dos pacientes e de suas companhias de seguros aguentem. Como empresas capitalistas, para crescer, elas se multiplicam e unem forças no que hoje é chamado de “integração vertical” com parceiros muito fortes dentro e fora do país: uma clínica pertence a uma companhia de seguros, ao mesmo tempo, a um grupo de negócios, que trata de comprar o maior número de farmácias, laboratórios e empresas de serviços de exames médicos (ultrassom, tomografia, ressonância magnética etc.) e controla o maior número possível de farmácias.

Como não pode haver clínicas sem médicos, os primeiros passos dados pelos médicos para formar pequenas clínicas os levaram a se tornar grandes e médios empresários. Nesse salto, eles perdem a medicina como vocação de serviço público e as empresas privadas ganham como fonte de acumulação e riqueza pessoal.

O problema da falta de oxigênio para os hospitais públicos e o duríssimo drama de ver pacientes sufocados até morrer nos corredores do hospital mostraram, por um lado, a enorme incompetência dos funcionários do Ministério da Saúde para garantirem o oxigênio necessário e, por outro, a miséria moral dos empresários em tirarem proveito da pandemia para ganharem mais dinheiro, levando o princípio do comércio capitalista ao limite: compre para vender e ganhe vendendo o máximo possível na medida em que os consumidores possam suportar. Ninguém lhes ensinou que vender oxigênio a hospitais e pacientes para salvar vidas não é o mesmo que vender papel higiênico. No pequeno lote de oxigênio, também existem monopólios cujos proprietários desconhecidos têm grandes lucros.

Quando o governo abriu a caixa do Tesouro Público para tentar apagar os incêndios causados pelo coronavírus, foram postas mesas ou arcas em cada dependência do estado para que funcionários de vários ministérios, regiões ou prefeituras e chefes de polícia ou das forças armadas façam compra a gosto, com preços superfaturados. O jornalismo teve acesso a muitos casos de corrupção que conhecemos desde que o dinheiro chegou aos ideais de vida, coração e alforjes dos espanhóis-cristãos em 1532.

O que é comum nos casos que acabei de mencionar é que as queixas são extintas e os escândalos desaparecem. A Clínica San Pablo Omeprazol 165 publicou um aviso fazendo mea-culpa. Parece que está tudo lá. Alguma sanção, multa ou processo judicial? Isso não é discutido. Parece que em tempos de pandemia ninguém deve ser punido. Nesse caminho, a corrupção continua a pavimentar e ampliar seu caminho.

 

4. Presença das forças armadas e da polícia em todo o país

A quarentena contra o coronavírus foi anunciada em março, ao mesmo tempo que uma declaração de emergência e o toque de recolher no país, com o objetivo de imobilizar a população, suspendendo alguns dos direitos constitucionais dos cidadãos. À medida que o vírus se espalhou, o número de soldados e policiais nas ruas aumentou e algumas centenas de reservistas do Exército foram até chamados a serviço. A presença policial e militar tem aumentado a ponto de ver os ministros da Defesa e do Interior como quase porta-vozes do governo anunciando medidas que, dias depois, o Presidente da República confirma. Eles também aparecem em campanhas oficiais de propaganda e em muitos meios de comunicação como heróis sacrificados nas linhas de frente da guerra contra o coronavírus.

Uma novidade que pode ser importante no futuro do Peru é a participação ativa das Forças Armadas no esforço do governo de rastrear as pessoas infectadas através de seus telefones celulares para tentar isolá-las e impedi-las que continuem infectando outras pessoas. É o exemplo chinês. Digo isso porque um debate político sobre a estreita colaboração de empresas do Google, Facebook e Amazon com alguns governos interessados em intervir em processos eleitorais para favorecer um candidato à presidência, como no caso de Trump nos Estados Unidos, já está aberto no mundo. Esse ponto é muito importante no relacionamento tenso e do atual governo dos Estados Unidos com a China e a Rússia, enquanto a União Europeia tenta neutralizar o poder dessas empresas de oferecer os dados que eles têm dos cidadãos para fins ocultos ou insuficientes. Claro. Consequentemente, a pandemia ofereceria a possibilidade de controlar cada vez mais os cidadãos, especialmente aqueles que têm uma visão crítica da política em seus países.

Bloquear o caminho para ladrões e criminosos comuns que, durante e após a quarentena, continuaram fazendo seu trabalho ou deixaram um ímpeto renovado para compensar os meses perdidos foi e continuará sendo, obviamente, um dos pontos centrais do trabalho policial. Também é importante acompanhar de perto, prender, multar e fichar cidadãos que, poucas horas depois do toque de recolher, escolheram se encontrar, festejar, beber, jogar uma partidinha de futebol ou simplesmente protestar contra a imposição desse toque de recolher e expressar sua raiva contida pelo confinamento. Eles voltaram a fazer o habitual na perseguição aos vendedores ambulantes que saíram às ruas para tentar vender algo para comer, tratá-los como informais, dispersá-los com bombas de gás lacrimogêneo, empurrá-los com cavalos e, em alguns casos, espancá-los e confiscarem suas malas com mercadoria para vender. Esse comportamento no meio da pandemia, quando a fome, a perda de empregos e a dor pela perda de entes queridos doem intensamente, deixam uma marca que ficará gravada em suas memórias.

A questão do heroísmo na primeira linha de combate na guerra contra a pandemia merece alguns esclarecimentos: a primeira linha corresponde às equipes médicas que trabalham nas diversas instâncias do sistema hospitalar (intensivistas, clínicos gerais, anestesistas) acompanhadas por enfermeiros especializados, técnicos de laboratório, técnicos ou tecnólogo, assistentes, pessoal de limpeza e lavanderia, etc. Essa primeira linha é o ponto de maior contágio e de perda de dezenas de vidas por trabalhar sem a devida proteção. Na segunda linha, a polícia parece tentar manter a ordem nas ruas, mercados, bancos, ônibus e micro-ônibus, muito mais desprotegida do que as equipes médicas. Na terceira linha, aparecem oficiais e soldados do Exército, com tarefas de controle em apoio à polícia. Nas três linhas, existem centenas de mortos, são vítimas que merecem nossa gratidão e lembrança. Devemos ver as 10.589 vítimas da contagem oficial da pandemia até ontem, 5 de julho, e as que se somam quando os números vierem à luz, como irmãs e irmãos, porque são como nós, nascidos e nascidas no mesmo solo ou terra natal, e não como simples números em uma tabela estatística oficial.

Mais tarde, tentarei abordar dois conjuntos de problemas pendentes: o primeiro, apresentado com a frase vazia “outra normalidade” e comandada pelo Confederação Nacional de Instituições Empresariais Privadas do Peru – Confiep com o velho princípio do nascimento do estado nacional italiano: “Você precisa mudar as coisas um pouco para que tudo siga igual”, proposto no romance o Gatopardo, do romancista italiano Guiseppe Tomasi de Lampedusa. O romance está disponível na Internet, na versão .pdf, e o filme com o mesmo nome, dirigido por Luchino Visconti, pode ser visto gratuitamente on-line em espanhol.

O segundo bloco, o mais difícil, tem a ver com as lições da pandemia de repensar o Peru como um país, começando pelo sistema de saúde. Já é possível pensar seriamente sobre como gostaríamos que fosse o sistema de saúde no Peru.

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