O Brasil teve uma semana de recordes negativos e de perdas para a covid-19. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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02 Junho 2020

"O Poder Central continua abastecendo a população de notícias falsas e exemplos contrários ao que recomenda a Organização Mundial de Saúde (OMS). Vários municípios começaram a flexibilizar a quarentena antes de ter a possibilidade de contágio sobre controle. Neste quadro, tudo indica que a pandemia vai continuar avançando", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 01-06-2020.

Eis o artigo.

A pandemia segue avançando no território brasileiro em ritmo 3 vezes mais rápido do que na média mundial. Enquanto o país ultrapassou a marca de meio milhão de pessoas infectadas e se aproxima de 30 mil mortes, o presidente da República e seus seguidores, ao invés de combater o coronavírus, atacam as instituições democráticas e promovem aglomerações em meio à quarentena.

Na 22ª Semana Epidemiológica (de 24 a 30 de maio), em somente 7 dias, o Ministério da Saúde registrou mais de 150 mil novos casos (fora toda a subnotificação existente). Este número é quase duas vezes o número de casos da China (país de 1,44 bilhão de habitantes). Apenas no dia 30/05, foram registrados mais de 33 mil casos, cifra superior a todos os casos acumulados da Indonésia (que tem uma população de 273 milhões de habitantes). O Brasil consolidou o 2º lugar isolado e absoluto no ranking global de pessoas infectadas pelo coronavírus.

No ranking global de óbitos o Brasil pulou para o quarto lugar, mas deve alcançar o 2º lugar isolado em no máximo 15 dias, ficando atrás apenas dos EUA. Ao registrar mais de 6,8 mil falecimentos em 7 dias, deixou para trás todos os 5,2 mil óbitos da Índia (que tem uma população de 1,38 bilhão de habitantes).

O gráfico abaixo mostra os valores diários das variações dos casos e das mortes no Brasil de 17 de março até o dia 30 de maio. Nota-se que, a despeito das oscilações dos fins de semana, existe uma clara tendência de aumento. O número médio de casos diários já superou a marca de 20 mil e o número de mortes foi aumentando todas as semanas, passando de cerca de 200, para 400, depois 800 e agora tem ultrapassado constantemente os 1 mil óbitos em 24 horas.

Número de casos e de mortes pela covid-19 no Brasil. (Fonte: Ministério da Saúde)

O epicentro da pandemia foi, inicialmente, a cidade de São Paulo. Depois passou para a região metropolitana de São Paulo, se espalhou para as outras capitais e agora avança celeremente para as cidades do interior e do litoral. Atualmente, o Rio de Janeiro cresce mais rápido e está se transformando em um novo epicentro da doença. O último boletim do Ministério da Saúde mostra que quase 4 mil municípios já registram algum caso da covid-19 (fora toda a subnotificação).

Os mapas abaixo mostram que existiam (até 23 de maio) 3.701 municípios com pelo menos um caso do novo coronavírus e 1.463 municípios com pelo menos 1 morte pela covid-19. O Brasil perdeu a chance de prevenir e já perdeu o controle da transmissão comunitária do vírus e agora só resta remediar e fazer políticas de mitigação de danos.

Mapas mostram que existiam (até 23 de maio) 3.701 municípios com pelo menos um caso do novo coronavírus e 1.463 municípios com pelo menos 1 morte pela covid-19. (Fonte: Ministério da Saúde)

Para complicar todo o quadro, o Poder Central continua abastecendo a população de notícias falsas e exemplos contrários ao que recomenda a Organização Mundial de Saúde (OMS). Vários municípios começaram a flexibilizar a quarentena antes de ter a possibilidade de contágio sobre controle.

Neste quadro, tudo indica que a pandemia vai continuar avançando. Mas as pessoas estão cansadas e a situação social está cada vez mais crítica, com o aumento do desemprego, da pobreza e da perda de renda. Assim, a possibilidade de um conflito social de grande proporção não está descartada.

Os choques sociais e raciais dos Estados Unidos servem de alerta para a situação nacional que, inclusive, é muito mais desesperadora.

 

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